Phedra D. Córdoba faz show sobre sua vida, anuncia biografia e diz: “Queria ser a Shirley Temple”

Phedra D. Córdoba, em seu apartamento na praça Roosevelt: ela lança o show Phedra por Phedra e diz que tem autobiografia pronta à espera de um editor – Foto: André Stéfano

Por MIGUEL ARCANJO PRADO

Fotos ANDRÉ STÉFANO

A partir desta quarta (24), às 21h, o Estação Satyros, na praça Roosevelt, ganha o status de local de show semanal de uma das grandes divas de nosso teatro.

Em plena noite de São João, a atriz cubana Phedra D. Córdoba inaugura o espetáculo Phedra por Phedra, dirigido por Robson Catalunha, que assina sua primeira direção profissional de um espetáculo.

“São 77 anos, sete histórias, sete músicas, sete convidados. A princípio, serão sete sessões, toda quarta, até 5 de agosto. A Phedra quer chamar a Elke Maravilha, o Rodolfo [García Vázquez] e o Ivam [Cabral] também já estão dentro”, conta o diretor.

Catalunha revela que a pesquisa partiu do gigante arquivo pessoal da própria Phedra. “Ela tem tudo guardado, textos, cartazes, fotos incríveis, matérias de jornais e revistas. A gente pincelou algumas coisas para o show, mas nem de longe são as coisas mais importantes que ela viveu. São só algumas histórias das muitas que ela tem para contar”, afirma.

O diretor acredita que o show de Phedra dialoga com o Brasil contemporâneo, mergulhado em uma onda conservadora. “A Phedra vem para quebrar muito dessa moral e costumes que estão sendo impostos pelos outros. Ela tem uma história única. Fala da infância, do grande amor, da escolha do nome. Intercalei momentos performáticos com momentos narrativos que ela troca com o público, além de exibirmos trechos do filme dela, o Cuba Libre”, adianta.

Mas, deixemos Phedra falar de seu novo show.

Ela recebeu o Atores & Bastidores do R7 em seu apartamento, defronte à praça Roosevelt, para um gostoso bate-papo. Educadíssima, até fez café fresquinho.

Leia com toda a calma do mundo.

Phedra teve a ideia de fazer o show por conta de seu aniversário de 77 anos, em maio último – Foto: André Stéfano

MIGUEL ARCANJO PRADO — Como veio a ideia do show?

PHEDRA D. CÓRDOBA — Primeiramente, foi pelo aniversário de 77 anos. Eu estava pensando, gente eu vou cumprir 77 anos, não vai ter Fomento, o que vai ser da nossa vida? Eu tenho uma intuição, você sabe, então eu fiquei rezando e pedindo ajuda: o que eu vou fazer, do que eu vou viver? Aí veio: claro, eu sempre vivi de show, sempre ganhei meu dinheirinho com show. Eu tenho um nome. Então, por que não explorá-lo?

MIGUEL ARCANJO PRADO — Você anunciou o show no Facebook?

PHEDRA D. CÓRDOBA — Foi. Aí o Robson Catalunha viu e falou: eu vou fazer tudo para a senhora. Ele me guiou em tudo. A Divina Valéria, que é minha amiga e está na Bahia, disse que tinha de ter piano e não playback. Você sabe que nas boates eu cantava com pianistas antigos, mas eu perdi as partituras, e os pianistas novos não sabem tocar meu repertório. Então, vamos ver como vai ser…

MIGUEL ARCANJO PRADO — E por que Phedra por Phedra?

PHEDRA D. CÓRDOBA — Eu queria Memórias da Phedra, mas o Robson botou mais artístico: Phedra por Phedra. Mas, uma coisa que muita gente não sabe é que eu tenho minhas verdadeiras memórias. Até hoje não foi publicado o meu livro, mas eu já o escrevi!

MIGUEL ARCANJO PRADO — Você tem pronta sua autobiografia?

PHEDRA D. CÓRDOBA — Tenho! O Leão Lobo, seu colega jornalista, que me instigou a escrever e é culpa do Satyros eu não ter publicado ainda. Eu quero publicar! Porque eu escrevi tudo… O que eu vou falar no show é mais dissimulado, uma parte… Agora, tudo, tudo mesmo, está no meu livro que eu escrevi.

Phedra ao lado de um de seus retratos: história arquivada e escrita por ela mesma – Foto: André Stéfano

MIGUEL ARCANJO PRADO — O que você vai contar no show?

PHEDRA D. CÓRDOBA — Muitas coisas… Quando eu era criança, minha mãe me fazia cachinhos. Isso me lembro perfeitamente. Um dia fomos a um lugar em Havana e uma senhora falou: “Ai, que menina linda!”. Aí minha mãe respondeu nervosa: “Não é menina, é um menino”. Me cortaram os cachos, Miguel. Eu chorei tanto… Porque eu queria ser a Shirley Temple.

MIGUEL ARCANJO PRADO — Você sofreu muito?

PHEDRA D. CÓRDOBA — Eu sofri muito, porque minha mãe queria que eu fosse homem, macho, masculino, minha mãe me levou até no psiquiatra! Mas aí ele morreu e colocaram uma psiquiatra mulher. E eu sempre tive uma conexão forte com as mulheres. Eu cantei para ela. E ela ficou impressionada comigo cantando. Aí ela me pediu para recitar também. Então, ela chamou minha mãe e disse: “Escute-me, seu filho tem de fazer aula de teatro, ele é artista, você não pode cortá-lo mais. Tem de levar essa criatura para a aula de teatro, porque é um artista!” Aí minha madrinha me pagou todas as aulas de teatro. Quando meu pai ouviu da minha mãe, ele gritou: “Graças a Deus vamos ter mais um artista na família, não vai ser só meu irmão, meu filho vai ser artista também!”.

MIGUEL ARCANJO PRADO — Como é ser dirigida pelo Robson Catalunha?

PHEDRA D. CÓRDOBA — O Robson fica bravo comigo de vez em quando. Ameaça não vir mais, porque eu não obedeço ele. Eu falo, escute, meu amor… Porque, afinal, fui eu quem botou o nome dele de El Pequeno Notável.

MIGUEL ARCANJO PRADO — Ele não fica com raiva do apelido?

PHEDRA D. CÓRDOBA — Não! [enfática]. Poxa, a Carmen Miranda foi a maior figura do meio artístico de todos os tempos e era a Pequena Notável. E o Robson é inteligente. Eu gosto dele! Nos chocamos um pouquinho, porque ele quer que eu faça o que ele quer, mas eu tenho um pouquinho de experiência, meu amor, e sei fazer as coisas…

Phedra D. Córdoba vai falar de sua infância em Cuba e amores no Brasil – Foto: André Stéfano

MIGUEL ARCANJO PRADO — Você é uma atriz difícil de ser dirigida por ser uma grande diva?

PHEDRA D. CÓRDOBA — Não é que eu seja difícil, é que eu sei o que tem de fazer. Eu sempre brigo com Rodolfo. Toda a vida. Não nos entendemos nunca e nunca vamos nos entender. Outro dia tive uma briga com ele de novo e foi terrível. Eu até chorei. Mas eu perdoo, porque não tenho maldade no coração.

MIGUEL ARCANJO PRADO — Você sofreu muito para conquistar sua carreira?

PHEDRA D. CÓRDOBA — Sim. Mas, para mim, está tudo bem. Eu já passei tanta coisa na minha vida, Miguel, que não me estranha nada. Não me dói nada. Foram tantas coisas… Minha mãe gostava que eu fosse artista, ela adorava me ver como corista de uma companhia, mas não gostava da minha feminilidade. Ela falava: “Mulher aqui sou eu”. Isso me fazia sofrer muito. Depois, quando vim para o Brasil também. Quando cheguei com o Walter Pinto ao Brasil, era Felipe De Córdoba. O Roberto Blake, um espanhol que trabalhava com o Walter, era homofóbico e não gostava de me ver vestida de mulher. Dizia que eu não tinha vergonha e que eu só o envergonhava. Eu chorava muito.

MIGUEL ARCANJO PRADO — E você tinha de obedecer?

PHEDRA D. CÓRDOBA — Sim. Eu era amarrada por um contrato. No Teatro Rival, que era do avô da Leandra Leal, tinha um transformista famoso, o Carlos Gil, que fez o Le Girls e até trabalhava na Globo. Ele era meu fã incondicional. Um belo dia, quando saímos do Rival para ir para a Balalaika, um cabaré muito famoso, ele me parou no corredor e disse: “Escute, Felipeta”. Eu falei: “O quê?”, porque não achava Felipeta bonito. Ele falou: “Você é muito feminina, não dá para usar Felipe De Córdoba. Você tem cara bonita, cinturinha, vou te fazer um vestido de espanhola. Hoje é sábado, amanhã, domingo, que temos matinê, você entra de mulher”. E aí eu virei Phedra D. Córdoba, porque amava a mitologia grega, que havia estudado lá em Cuba.

MIGUEL ARCANJO PRADO — Seus fãs estão eufóricos com o novo show?

PHEDRA D. CÓRDOBA — Olha, eles estão todos me escrevendo, querendo saber o dia, o horário. Gente, vou aproveitar o blog do Miguel Arcanjo para avisar: é toda quarta, às nove da noite, no Estação Satyros, aqui na praça Roosevelt. Espero que o Robson faça tudo direitinho e traga muito público. Você se lembra do meu show na Satyrianas, o sucesso que foi. Aquele aplauso todo. Eu fiquei muito emocionada. Você estava.

MIGUEL ARCANJO PRADO — Por que o povo gosta de Phedra D. Córdoba?

PHEDRA D. CÓRDOBA — Eu não sei… No meu aniversário tive 3.330 felicitações. Tive de botar que agradecia muito e que não conseguia responder um por um. Era um atrás do outro. Todo mundo falando: “minha diva”. Eu respondia; “Muito obrigada, eu agradeço a todos os meus fãs”.

MIGUEL ARCANJO PRADO — O que você tem de especial?

PHEDRA D. CÓRDOBA — Eu sei lá… Uma vez o crítico da Folha falou que eu tinha um refletor próprio, que quando eu entrava em cena já iluminava. Acho que é uma coisa espiritual. Quando eu entro no palco, eu já sei que não sou eu, sei que não estou mais fazendo uma coisa normal.

Phedra repete gesto de seu próprio passado: pura técnica e carisma em cena – Foto: André Stéfano

MIGUEL ARCANJO PRADO — Você é muito técnica em cena, por mais que seja muito você. Como você lida com as novas gerações de atores com a qual está contracenando na peça A Filosofia na Alcova?

PHEDRA D. CÓRDOBA — Na Filosofia na Alcova são todos novos. A primeira vez que muitos estão pisando no palco profissionalmente. Quando o Rodolfo me falou no começo deste ano que voltaria a fazer tudo o que já fizemos e se eu voltaria a fazer a Filosofia, eu respondi: “Faço!” Ele quase caiu pra trás e foi até no Facebook anunciar. Ivam Cabral sempre falou: não há Augustin como Phedra. Eu criei a personagem do meu modo. Eu tenho técnica, mas não quero enfiar isso na cabeça dos outros. Eu deixo que eles me vejam, que sintam como eu sou em cena, como os trato em cena. Eu deixo isso para eles me imitarem. Trabalhar comigo é simples.

MIGUEL ARCANJO PRADO — Como os meninos do elenco te tratam?

PHEDRA D. CÓRDOBA — Eles me tratam assim [mostra a palma da mão]. Tem o Felipe Moretti, que é um amor comigo, me adora. Ele carrega a minha roupa… Eu também o adoro. Você sabe, né, eu sempre gostei de um escravinho [risos].

MIGUEL ARCANJO PRADO — E o que eu faço com essa declaração?

PHEDRA D. CÓRDOBA — Ah, ele não vai ficar com raiva. Ele sabe que é brincadeira, que eu sou assim mesmo [risos].

MIGUEL ARCANJO PRADO — Como foi voltar à peça após dez anos?

PHEDRA D. CÓRDOBA — Nem parece. Falo que foi um pequeno recesso. As pessoas estavam esperando a Filosofia comigo e o Ivam. Mas o Ivam não está, porque está com as coisas da escola [SP Escola de Teatro]. É o Henrique Mello quem faz o papel do Ivam. Porque dos novos o Henrique é muito bom. O Robson Catalunha também é bom.

Cenas de Épipo na Praça, de 2013, a última peça na qual Phedra contracenou com Cléo De Páris no Satyros – Foto: Bob Sousa

MIGUEL ARCANJO PRADO — E a Cléo De Páris? Você sente falta dela nas peças do Satyros?

PHEDRA D. CÓRDOBA — Não só nas peças, mas na vida real! Ela é tão minha amiga, ela é tão maravilhosa. A Cléo é minha amiga até debaixo d’água! Ela é a única atriz que no Natal liga da terra dela para me desejar feliz Natal. Nem a Silvanah Santos, que é minha amiga também e com quem trabalhei tanto, nunca ligou. E falo isso na cara dela. Já a Cléo liga. E no meu aniversário ela liga também. Isso vale ouro para mim!

MIGUEL ARCANJO PRADO — Você queria que a Cléo voltasse para as peças do Satyros?

PHEDRA D. CÓRDOBA — A Cléo está bem. Ela está como ela quer. Mas eu sinto falta dela, quando a gente ficava junta, a gente lanchava junta. Ela nunca esquece nada meu, parece que é minha irmã de verdade. Eu sinto um amor por ela enorme. Eu passo o Natal ultimamente com a Maria Casadevall, na casa dela. A Cléo liga para a casa da Maria e pede para falar comigo.

MIGUEL ARCANJO PRADO — Você está chegando aos 80 anos. Está fazendo algum balanço da vida?

PHEDRA D. CÓRDOBA — O meu balanço é o show. Porque praticamente quando eu fiz a festa sem um tostão, vieram dois atores amigos meu de anos e me falaram: “Desce que tem presente para você”. Sabe o que era? Dólares. Eu já gastei tudo. Fiz uma festa como eu queria. Porque eu gosto de um bom vinho e champanhe. Abro mesmo! Não fico guardando o que ganho. Eu vivo. Tem gente culta, atores, diretores, dramaturgos que estão morrendo. Eu não sei se posso morrer de uma hora para outra. Então, por isso, eu quero editar minha história, nem é para cá, é para minha família lá em Cuba. Meus sobrinhos querem conhecer minha história. Está aí o livro encasquetado aqui em casa e ninguém publicou. Estou esperando o contato de alguma editora. Seria tudo lançar o livro para os meus 80 anos! Eu quero deixar escrita a minha história para o futuro!

Phedra D. Córdoba: “Quero deixar escrita a minha história para o futuro” – Foto: André Stéfano

Phedra por Phedra

Quando: quarta, 21h. 49 min. Até 5/8/2015

Onde: Estação Satyros (praça Roosevelt, 134, metrô República, São Paulo, tel. 0/xx/11 3258-6345)

Quanto: R$ 30 (inteira) e R$ 15 (meia-entrada)

Classificação etária: 16 anos

 

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1 Resultado

  1. Phillipe disse:

    Acredito nas palavras da Phedra. Ela é sempre bem autêntica e, sendo você o entrevistador, ela concedeu uma entrevista muito pessoal. Não que ela não seja verdadeira, porque ela o é sempre, mas você a prestigia, sempre lhe dá destaque e o reconhecimento que merece, e então, obviamente que conceder uma entrevista para alguém que sabemos que deseja nosso bem tem um peso diferenciado.

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