Crítica: A Geladeira é grito corajoso no mar de desesperança

Fernando Fecchio em cena da peça A Geladeira, de Copi – Foto: Raul Zito

Por MIGUEL ARCANJO PRADO

Copi é um dos grandes nomes da escrita argentina do fim do século 20. Raúl Damonte Botana, seu nome verdadeiro, nasceu em meio aristocrático — tanto a família paterna quanto a materna eram donas de importantes diários de Buenos Aires —, mas foi por meio do desbunde, com sua prosa inteligente e ferina, que se fez conhecido.

Com uma infância rodeada do melhor que a cultura mundial poderia lhe oferecer, logo, Copi decidiu cruzar o Rio da Plata e também o oceano Atlântico e se radicar em Paris, onde se juntou a nomes potentes como o uruguaio Alejandro Jodorowski e o espanhol Fernando Arrabal, revolucionando a cena artística underground parisiense.

Além de tudo isso, Copi era gay. E fazia questão de militar em prol de direitos civis para esta parcela da população. E, como tantos outros grandes artistas jovens naquele começo dos anos 1980, como o cantor brasileiro Cazuza e o desenhista norte-americano Keith Haring, ele contraiu o vírus HIV, para o qual perdeu a luta pela vida em 1987.

Mas a obra de Copi perdura e continua a dialogar com as gerações contemporâneas. Inclusive a brasileira. Prova disso é a montagem A Geladeira, monólogo com o ator Fernando Fecchio, sob direção de Nelson Baskerville, em São Paulo (o texto também teve outra montagem neste ano, no Rio, pelo ator Márcio Vito).

Fernando Fecchio em cena de A Geladeira – Foto: Amanda Vieira

A obra mostra um homem, L., que, diante do seu aniversário de 50 anos, se depara com uma geladeira, que lhe faz aflorar personagens de seu passado, que vão desde a mãe até sua psicanalista.

Sobram sentidos na peça de Copi, que faz uma espécie de releitura atrevida de si próprio na obra, desconstruindo padrões de identidade e de sexualidade preestabelecidos.

Apesar de repetir fórmulas já utilizadas em Luis Antonio – Gabriela, o diretor Nelson Baskerville leva essa ebulição de sentidos para o palco, no cenário de pitadas surrealistas criado com Amanda Vieira.

Fecchio faz entrega verdadeira ao personagem, abarcando seus medos e excentricidades, além de se aproximar sem temor do bizarro.

A montagem tenta forçar uma aproximação da realidade de Copi, um argentino, gay e rico exilado em Paris, com o Brasil — o samba carnavalesco talvez seja o máximo do exagero buscado. Mas, a obra consegue abarcar até isso.

Até mesmo porque faz todo o sentido, nesta feroz e violenta cidade de São Paulo, olhar para Copi sob uma perspectiva da realidade contemporânea do Brasil, país mergulhado em uma assustadora onda conservadora, que muitas vezes grita de forma mais feroz do que nos tempos sombrios da ditadura.

Por isso, a inquietude presente em A Geladeira (e sua desesperança também) mexe tanto com a gente. Fernando Fecchio merece os parabéns pela coragem. E por nos fazer pensar, que é o que todos nós precisamos para não sucumbir. E resistir.

A Geladeira
Avaliação: Bom
Quando: Quarta, 21h. 60 min. De 8/7/2015 a 12/8/2015
Onde: Espaço dos Parlapatões (praça Roosevelt, 158, centro, São Paulo, tel. 0/xx/11 3258-4449)
Quanto: R$ 40 (inteira) e R$ 20 (meia-entrada)
Classificação etária: 14 anos

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1 Resultado

  1. Phillipe disse:

    Respeito o trabalho de Copi porque, em sua época, ele expôs feridas abertas. Foi pioneiro. O mesmo não posso dizer sobre alguns atuais porque, na verdade, criam fenônemos midiáticos por puro interesseiro financeiro, já que número “X” de seguidores nas sociais redes eleva cachê. A tal “onda conservadora”, em grande parte, eu vejo como uma reação ao povo que está cansado de ver a turminha dos “descolados de plantão” ocupando espaços que poderiam ser de outras pessoas, sendo que muitos são “posers” – porque, na verdade, a grande maioria dos verdadeiros descolados está mais preocupada em se engajar em causas sociais -.

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