Crítica: Kiwi dá choque na cabeça do público em Manual de Autodefesa Intelectual

Fernanda Azevedo e Maria Carolina Dressler em cena de Manual de Autodefesa Intelectual - Foto: Bob Sousa

Fernanda Azevedo e Maria Carolina Dressler em cena de Manual de Autodefesa Intelectual – Foto: Bob Sousa

Por MIGUEL ARCANJO PRADO
Fotos BOB SOUSA

Manual de Autodefesa Intelectual, como o próprio nome evidencia, é um espetáculo no qual o discurso racional se impõe.

Quase com um ar positivista, a obra vê como afronta ao pensamento inteligente crenças, religiões e superstições.

Assim, a peça desconstrói, de forma lúdica, muitas “verdades” supostamente estabelecidas.

Com uma estrutura de teatro político que bebe da fonte de Bertolt Brecht, o diretor e dramaturgo Fernando Kinas conduz seu potente elenco por caminhos distintos, fazendo constantes quebras e rupturas dentro da própria obra, com momentos altos e também outros mais arrastados.

Tudo com acompanhamento atento e propositivo dos músicos Eduardo Contrera e Elaine Giacomelli.

O ator Vicente Latorre em cena de Manual de Autodefesa Intelectual - Foto: Bob Sousa

O ator Vicente Latorre em cena de Manual de Autodefesa Intelectual – Foto: Bob Sousa

Elenco potente

No palco, estão os atores Fernanda Azevedo (que ganhou o Prêmio Shell de melhor atriz no ano passado e protestou contra a empresa, acusando-a de ter apoiado a ditadura civil-militar que vigorou no Brasil entre 1964-1985), Maria Chasseraux, Maria Carolina Dressler e Vicente Latorre.

Dentro do cenário simples e funcional desenvolvido por Júlio Dojcsar, o quarteto está imbuído em um jogo de cumplicidade e bom humor.

E, é preciso ressaltar, vestido pelo elegante e sóbrio figurino em vermelho e preto criado por Madalena Machado, com sutis variações.

Fernanda Azevedo tem uma presença grave que contrasta com sua beleza, tornando-a sempre interessante em cena.

Maíra Chasseraux é atriz com domínio da plateia, sobretudo no número de mágica, conduzindo muito bem a arte do improviso.

Maria Carolina Dressler, por sua vez, faz uma cena dramática que mostra porque é uma grande atriz.

E Vicente Latorre traz uma energia masculina e bem humorada, tão necessária ao conjunto da obra.

Fernanda Azevedo, Vicente Latorre, Maria Carolina Dressler e Maíra Chasseraux em cena de Manual de Autodefesa Intelectual - Foto: Bob Sousa

Fernanda Azevedo, Vicente Latorre, Maria Carolina Dressler e Maíra Chasseraux em cena de Manual de Autodefesa Intelectual – Foto: Bob Sousa

Sofisticação em embalagem colorida

Num país no qual mais de um quarto da população é analfabeta funcional, por não conseguir sequer interpretar um texto lido, entende-se porque a peça da Kiwi mostra-se um discurso sofisticado embrulhado em uma embalagem colorida.

Talvez o grupo queira, justamente, chamar a atenção de um público já acostumado a discursos prontos.

Contudo, também, subestima, de certo modo, este próprio público.

Como quando, na sessão vista por este crítico, alguém na plateia resolveu gritar “Dilma” diante de uma proposta de um exemplo negativo vinda dos atores. Tal grito foi ignorado pelo elenco, que prosseguiu a peça como se este não houvesse existido. Se a proposta é dialogar com o outro, é preciso aceitar a voz do interlocutor, por mais que esta desagrade ou seja uma reação inesperada.

Outro momento duro foi quando a trilha levou o público a se emocionar com uma canção na potente voz da colombiana Shakira. Após o fim da música, a cantora foi desqualificada pelo elenco como artista, o que soou arrogante. Afinal, quem tem o direito de negar a experiência sensorial e artística que o espectador teve ao ouvir a canção?

Vicente Latorre e Maria Carolina Dressler - Foto: Bob Sousa

Vicente Latorre e Maria Carolina Dressler na peça da Kiwi Cia. de Teatro – Foto: Bob Sousa

Pobre e triste realidade

Mas, discursos potentes não faltam ao espetáculo. Em Manual de Autodefesa Intelectual a Kiwi esconde um rugido feroz atrás de um terno sorriso. De forma sutil, dá um choque na cabeça do público. E faz muito bem, já que parecemos cada vez mais lobotomizados no mundo instantâneo da idiotice coletiva.

O grupo se abastece do livro seminal para o pensamento contemporâneo A Sociedade do Espetáculo (se ainda não leu, corra para a biblioteca). A obra é quase que uma vidência (será que a Kiwi permite a crendice deste crítico?) do autor Guy Debord para este mundo atual, onde todos se reinventam nas redes sociais em versões espetaculares e infinitamente melhores do que a pobre e triste realidade.

Manual de Autodefesa Intelectual * * * *
Avaliação: Muito Bom
Quando: Sábado, 21h, e domingo, 19h. Até 2/8/2015
Onde: Galpão do Folias (r. Ana Cintra, 213, metrô Santa Cecília, São Paulo, tel. 0/xx/11 3361-2223)
Quanto: R$ 20 (inteira) e R$ 10 (meia-entrada)
Classificação etária: 14 anos

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1 Resultado

  1. Pedrita disse:

    eu gostei muito do espetáculo. ótima resenha. peças que provoquem os questionamentos são ótimas. realmente às vezes pouco nos apercebemos de jogos, imaginem os que mal sabem ler como bem explicados na sua frase do analfabeto funcional. até esse termo hj é questionado. eu tb falei do espetáculo no meu blog http://mataharie007.blogspot.com.br/2015/07/manual-de-autodefesa-intelectual.html
    beijos, pedrita

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