Diretor de Medianeras, Gustavo Taretto fala sobre As Insoladas e diz que Almodóvar não foi referência

Gustavo Taretto (à dir.) apresenta seu filme As Insoladas (Las Insoladas) no 10º Festival de Cinema Latino-Americano de São Paulo, observado pelo ator argentino Juan Manuel Tellategui, da equipe do festival - Foto: Vitor Cohen/Divulgação

O diretor argentino Gustavo Taretto (à dir.) apresenta filme As Insoladas (Las Insoladas) no 10º Festival de Cinema Latino-Americano de São Paulo – Foto: Vitor Cohen/Divulgação

Por MIGUEL ARCANJO PRADO
Fotos VITOR COHEN

Uma hora e meia antes de a sessão de As Insoladas (Las Insoladas) começar no Cinesesc, em São Paulo, na noite desta segunda (3), a fila dava volta no quarteirão. O feito confirmou o longa argentino como um dos destaques do 10º Festival de Cinema Latino-Americano de São Paulo, com sede no Memorial da América Latina e que chega ao fim nesta quarta (5).

O motivo de tanto interesse é um só: As Insoladas é o novo filme de Gustavo Taretto, diretor do sucesso Medianeras – Buenos Aires na Era do Amor Virtual, que também teve sua primeira exibição no Brasil no mesmo festival, em 2011, e logo caiu no gosto dos descolados paulistanos.

Leia crítica de Las Insoladas

Agora, em vez do casal jovem de Medianeras, que se apaixona em Buenos Aires com a ajuda da internet, entram em cena seis mulheres espetaculares que tomam sol num terraço na capital argentina.

Carla Peterson, Luisana Lopilato, Marina Bellati, Maricel Álvarez, Violeta Urtizberea e Elisa Carricajo são As Insoladas. O sexteto passa um dia quente de verão portenho sob o sol, enquanto sonha com uma viagem utópica a uma praia paradisíaca em Cuba.

Pouco antes de a sessão começar, Gustavo Taretto conversou com exclusividade com o site. Falou sobre o sucesso de Medianeras em São Paulo, a aventura de trabalhar com seis atrizes em seu novo longa e ainda afirmou que Almodóvar não é uma referência para As Insoladas, um filme colorido, pop e feminino.

Leia com toda a calma do mundo.

Gustavo Taretto conversa com a plateia brasileira do 10º Festival de Cinema Latino-Americano de São Paulo, observado pelo ator argentino Juan Manuel Tellategui, da equipe do evento - Foto: Vitor Cohen/Divulgação

Gustavo Taretto conversa com público do 10º Festival de Cinema Latino-Americano de São Paulo, observado pelo ator argentino Juan Manuel Tellategui, da equipe do evento – Foto: Vitor Cohen/Divulgação

MIGUEL ARCANJO PRADO — Por que Medianeras fez tanto sucesso no Brasil, sobretudo em São Paulo?
GUSTAVO TARETTO — Na verdade, eu não sei. Eu o que recebo desde que estreou o filme aqui são muitos e-mails. Gente que me escreve, porque deixei meu e-mail nos créditos finais. Acho que há muitas meninas que se sentem Mariana e muitos meninos que se sentem Martín. Mas, isso não é diferente do que aconteceu em outros lugares com o filme. Penso que entre São Paulo e Buenos Aires há conexão. E me parece que, mais além da rivalidade futebolística que há entre argentinos e brasileiros, há muita admiração, pela música, pelo cinema… O filme ganhou um carinho especial, não sei por que, mas, a verdade é que eu aproveito. Tampouco eu gostaria de saber por que fez sucesso, não quero cair nesta tentação de decifrar algo que se deu espontaneamente.

Cena do filme Medianeras, de Gustavo Taretto: sucesso em São Paulo - Foto: Divulgação

Cena do filme Medianeras, de Gustavo Taretto: sucesso em São Paulo – Foto: Divulgação

MIGUEL ARCANJO PRADO — Ao contrário de Medianeras, As Insoladas tem atrizes mais conhecidas na Argentina. Este é um salto seu para algo maior?
GUSTAVO TARETTO — Na verdade, Medianeras é um filme maior que As Insoladas; inclusive foi mais caro. As Insoladas é um filme pequenino que, por culpa de Medianeras, parece maior. A verdade é que as atrizes são mais conhecidas do que os protagonistas de Medianeras. Mas elas fizeram o filme não porque era um projeto comercial, mas porque era um desafio como atrizes, de poder sustentar um filme por 90 minutos, estando todas em todas as cenas, em atuação coletiva, porque não há atuação individual no filme. É um projeto atípico. Foi percebido como um filme grande, mas é um filme modesto, pequeno. Com um argumento muito tênue, como uma história mínima.

MIGUEL ARCANJO PRADO — Como foi lidar com essas seis mulheres?
GUSTAVO TARETTO — Da primeira cena à última elas estão juntas. São todas boas atrizes e procurei tratá-las de forma igual. Eu me senti muito respeitado como diretor. Tinha muito medo no começo, porque as pessoas me diziam que eu era louco de trabalhar com seis mulheres, que elas iriam me enlouquecer. Cada uma tem sua reputação em área artística distinta, havia um temor que tudo pudesse explodir em algum momento. Mas, eu sou muito tranquilo e não houve nenhum desborde.

Corpos dourados ao sol: atrizes de As Insoladas não tiveram privilégios no set - Foto: Divulgação

Corpos dourados ao sol: “O filme foi bem comunista, porque nenhuma atriz teve privilégio”, diz o diretor Gustavo Taretto – Foto: Divulgação

MIGUEL ARCANJO PRADO — Como foi gravar no verão portenho?
GUSTAVO TARETTO — Uma coisa que dou muito valor às atrizes é que fazia muito calor de verdade. Então, o grande inimigo era o sol. E elas todas tinham fobia de se expor ao sol, porque envelhece a pele, e elas vivem de ser jovens, são atrizes. Então, todos estávamos mais preocupados com o sol do que com alguma questão interna. O filme foi bem comunista, porque nenhuma atriz teve privilégio. Todas chegavam e saíam do set na mesma hora. E elas foram inteligentes em aceitar trabalhar assim, neste nível de igualdade. Eu também tentei não dar privilégio em cena para nenhuma, fui equilibrando tudo. Porque o ator fica preocupado se você está enfocando ele ou outro. Então, procurei ser igual com todas.

MIGUEL ARCANJO PRADO —Tem algo teatral em As Insoladas. Você teve essa referência do teatro?
GUSTAVO TARETTO — Não. Nunca fiz teatro e não sei se gostaria de fazer.

MIGUEL ARCANJO PRADO — Me parece que seu filme pode virar uma peça de teatro. Se quiser montar em algum teatro da calle Corrientes [rua dos teatros em Buenos Aires] já está praticamente pronta a obra.
GUSTAVO TARETTO — Se pode fazer, não sei se é tão fácil… Mas nunca me passou pela cabeça pensar o filme como uma peça de teatro. Creio que o que distingue o teatro do cinema, mais além da locação, são as atuações, o tom das atuações. E é isso que me interessa. Esse calor que se sente no filme, essa modorra. Creio que em teatro não houvesse funcionado. Em um plano geral não funciona. Funciona porque é uma somatória de gestos. Me parece que o roteiro precisa de uma boa adaptação para ir ao teatro.

Gustavo Taretto entre as seis atrizes de seu filme As Insoladas - Foto: Divulgação

Gustavo Taretto entre as seis atrizes de seu filme As Insoladas: “Almodóvar nunca foi uma referência”, diz o argentino – Foto: Divulgação

MIGUEL ARCANJO PRADO — Vamos falar das cores de As Insoladas. É um filme muito colorido. Tem algo a ver com as cores de Almodóvar?
GUSTAVO TARETTO — Não. É um filme que se passa debaixo do sol nos anos 90, não havia maneira de que não houvesse cores, porque a gente toma cor na pele ao se expor ao sol. Mas, não… Almodóvar nunca me passou pela cabeça. De fato, não sou muito fã do cinema de Almodóvar. Almodóvar, ainda que pareça mentira, nunca foi uma referência. O que me passou é que fosse um filme pop. Isso, sim. E sobre as mulheres, sempre vivi em uma família cheia de mulheres, na qual é impossível falar quando todas se juntam. Então, presenciar esse cenário feminino me inspirou a fazer As Insoladas, assim como essa coisa de as pessoas tomarem sol. Queria entender o prazer que as pessoas encontram em tomar sol, justo eu que sempre tive vertigem de sol.

MIGUEL ARCANJO PRADO — O filme também tem muito o espírito dos anos 90 na Argentina…
GUSTAVO TARETTO — Sim. O filme se passa em 1995, na época em que aquele presidente, que não se deve nem pronunciar o nome, porque dá azar, inventou a mentira de que um peso valia um dólar. E nós argentinos acreditamos nisso e começamos a viajar para lugares como Cuba, Florianópolis, Búzios. Acho que a esperança está muito presente no filme. E, para mim, a esperança está no amor, em encontrar alguém com quem se possa afrontar junto o que é a vida. Acho que o amor é a resposta para tudo.

Personagens de As Insoladas sonham em uma viagem para uma praia do Caribe - Foto: Divulgação

Num terraço de Buenos Aires, personagens de As Insoladas sonham com viagem para praia do Caribe – Foto: Divulgação

MIGUEL ARCANJO PRADO — O que você acha do cinema brasileiro?
GUSTAVO TARETTO — Na Argentina não passa muito cinema brasileiro, temos um problema: os cinemas argentinos estão cada vez mais cheios de filmes norte-americanos. Excepcionalmente, vejo cinema brasileiro e gosto muito de documentários. Vi poucas ficções brasileiras. Algumas coisas eu gosto muito, e algumas outras coisas creio que… Às vezes sinto que o Brasil tem o problema de “o mais grande do mundo”. Sempre busca grande temas, tudo muito dramático, muito grande. E eu gosto mais das histórias pequenas, de personagens vulneráveis. Vi muitos filmes brasileiros, mas, ultimamente, minha memória não é tão boa.

MIGUEL ARCANJO PRADO — E o cinema argentino?
GUSTAVO TARETTO — O cinema argentino é muito diferente um do outro. Há um montão de cinema argentino. O diretor argentino que mais gosto é Martín Rejtman, que fez um filme chamado Dos Disparos no ano passado. Também gosto muito da Lucrécia Martel e espero ansioso seu próximo filme, que se chama Zama. Também gosto do Lisandro Alonso. Eu gosto da diversidade que tem o cinema argentino.

Gustavo Taretto, logo após a sessão de seu filme As Insoladas no Festlatino - Foto: Vitor Cohen/Divulgação

Gustavo Taretto, logo após a sessão de seu filme As Insoladas no Festlatino – Foto: Vitor Cohen/Divulgação

MIGUEL ARCANJO PRADO —O filme As Insoladas tem um ar muito argentino e, sobretudo, muito portenho [de Buenos Aires, capital]. O modo de falar, a ironia… O que você pensa disso?
GUSTAVO TARETTO — Olha, me sai assim. Não me ponho a pensar muito nessas coisas. Imagino que sim, mas depois podem me passar coisas raras, porque o filme vai estrear aqui no Brasil, na França, na Alemanha… Acho que mais além de sua portenidad, o filme tem coisas universais. A ideia do espírito de amizade, o espírito conjunto, os sonhos, os sonhos que parecem impossíveis, a ideia de paraíso, de sonhar viver em uma praia, em uma situação idílica.

MIGUEL ARCANJO PRADO —Nós, os latino-americanos, precisamos de sonhos para viver?
GUSTAVO TARETTO — Todos necessitamos de sonhos. Nos latino-americanos, os sonhos se traduzem mais em esperança também. Se não pensássemos que as coisas vão melhorar, a vida seria muito complicada, muito mais complicada do que é. Eu gosto dos sonhos. Eu tenho fantasias. Apesar de ter quase 50 anos, sigo tendo sonhos e fantasias. E me parece que é isso que me mantém vivo, vital e otimista.

Cores, sol e mulheres: cena de As Insoladas, de Gustavo Taretto - Foto: Divulgação

Cores, sol e seis mulheres douradas: cena de As Insoladas, de Gustavo Taretto – Foto: Divulgação

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