Crítica: Krum e o esvaziamento da emoção

Cena do espetáculo Krum, da Cia. Brasileira de Teatro, com direção de Marcio Abreu - Foto: Nana Moraes/Divulgação

Cena do espetáculo Krum, da Cia. Brasileira de Teatro, com direção de Marcio Abreu – Foto: Nana Moraes/Divulgação

Por LÉO KILDARE LOUBACK*
Colaboração especial, em Belo Horizonte (MG)

A versão da premiada Companhia Brasileira de Teatro para a bem-sucedida peça do autor israelense Hanokh Levin chegou a Belo Horizonte para encher o Sesc Palladium em sessões disputadíssimas.

Boa parte da plateia repleta de artistas queria não só conferir mais um trabalho da consagradíssima Renata Sorrah, como também presenciar mais uma perfomance da mineira Grace Passô, um dos grandes nomes do teatro brasileiro contemporâneo.

Em quase duas horas de espetáculo, vemos a ruína dos seres comuns, a desesperanças de muitos ninguéns, que não viverão nada além das vidas medíocres que são destino de grande parte das populações de tantos lugares, tantos mundos e realidades.

Ali a vida de Krum, recém-chegado do estrangeiro, é desvelada como mais uma história de fracassos e de ruínas, ambientada em um lugar qualquer de pouco futuro.

A volta do filho não pródigo desvela seus fantasmas e o de sua própria família, fadada à morte anônima e não chorada de pessoas quaisquer.

Grace Passô e Danilo Ghrangeia em cena de Krum - Foto: Nana Moraes/Divulgação

Grace Passô e Danilo Grangheia em cena de Krum – Foto: Nana Moraes/Divulgação

Krum é um artista e, nesta metáfora da arte não como imitação, mas representação da vida, escancara o barco sem fundo em que navegamos.

Ser poeta, ou qualquer coisa desse tipo, ganha status de mera fuga do enfrentamento, como incompetência em lidar com o mundo inteiro que existe e se destrói a sua volta, imerso em tantas desilusões, que não são exclusivas dos artistas.

Aí está um ponto fundamental para a proposta da encenação, que parece apostar em um anulamento das emoções em cena para expor exatamente essa tanta melancolia que nos cerca.

Não há nenhum grande momento de ator em Krum, não há os famosos e aguardados bifes – monólogos curtos de certos atores dentro da estrutura maior da obra – exceto por uma ou outra cena sem radicalidade e o que vemos é um bloco de atores quase imobilizados pelo próprio estado de apatia de que querem tratar.

Em vários momentos, como nas diversas vezes em que todos dançam desacelerados, o tempo parece se extinguir e os corpos paralisados, que aparecem e ressurgem com o impecável desenho de luz de Nadja Naira, vão se tornando espécies de espectros que circulam por um mundo de ninguém.

A direção de Márcio Abreu é arriscada, quando opta por não deixar com que o público embarque nesse barco naufragado. Ao deslocar o próprio elenco para o lugar de plateia, parece haver um desejo claro de desmistificação do palco como lugar privilegiado e gera uma sensação de que não há nada de tão especial para se ver em cena.

Os espectadores terão que mirar o seu próprio vazio, o seu próprio nada. E se deparar com a própria insignificância pode não ser uma das sensações mais confortáveis.

Renata Sorrah em cena de Krum - Foto: Nana Moraes/Divulgação

Renata Sorrah em cena de Krum – Foto: Nana Moraes/Divulgação

O que se parece querer contar é que nem ali no palco a emoção irá jorrar, porque nada é tão extraordinário assim. A própria presença de uma atriz renomada como Renata Sorrah não é edificada e ela se mistura ao resto do elenco que assiste a derrocada, não só de Krum como de si mesmos.

Não há arroubos de interpretação, nem de ritmos, nem de sons. Vozes ecoam todo o tempo nesse fantasmagórico mundo. Não há Medeias, Antígonas, Prometeus, Romeus nem Rei Lears.

Estabelece-se um mundo de um filme em slow motion. Algumas pessoas se levantaram no meio da exibição. Os aplausos não foram os mais emocionados, e a plateia sai de cena com a impressão de que não há nada a esperar, nem desesperar.

Léo Kildare Louback - Foto: Paulo Raic/Divulgação

Léo Kildare Louback – Foto: Paulo Raic/Divulgação

*LÉO KILDARE LOUBACK é ator, diretor, dramaturgo e tradutor de alemão radicado em Belo Horizonte, Minas Gerais. É mestrando em Estudos da Tradução pela Universidade Federal de Santa Catarina, especialista em Performance pela Faculdade Angel Viana e licenciado em Português e Alemão pela Universidade Federal de Minas Gerais, com intercâmbio na Universidade de Hamburgo, Alemanha.

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