Crítica: Com argentinidade e comunhão feminina, Las Insoladas conquista com seu verão interminável

Las Insoladas, do argentino Gustavo Taretto, mostra cotidiano portenho - Foto: Divulgação

Las Insoladas, do argentino Gustavo Taretto, mostra cotidiano, e sonhos, de mulheres portenhas em um dia de sol quente – Foto: Divulgação

Por MIGUEL ARCANJO PRADO

O filme Las Insoladas, de Gustavo Taretto, é um daqueles longas que os portenhos chamam de representantes do “costumbrismo argentino”.

É daquelas películas (como se chamam os filmes em Buenos Aires) capazes de condensar uma forma de enxergar o mundo bem típica de nossos vizinhos. Ou, para ser mais preciso, dos moradores da capital às margens do rio La Plata.

O longa do diretor da comédia romântica Medianeras, que fez sucesso retumbante no Brasil, foge da história de amor para mergulhar no mundo feminino. Nem que por um dia apenas.

Para isso, Taretto convoca seis atrizes potentes (Carla Peterson, Luisana Lopilato, Marina Bellati, Maricel Álvarez, Violeta Urtizberea e Elisa Carricajo), vindas de distintas propostas estéticas do teatro argentino, para tomarem, juntas, sol em um terraço de um prédio localizado no centro de Buenos Aires num dia quente e úmido de verão.

Quem já esteve na cidade na época da virada de ano sabe o quão quente (e pegajosa) ela pode ser.

No filme, as atrizes, em vez de competirem, comungam entre si, gerando um clima de equipe que é perceptível e conquista o espectador. Percebe-se o cuidado igual do ator com seu elenco igualmente belo.

O filme vai criando estados à medida que o tempo passa.

A manhã surge mais tranquila, com as amigas iniciando o ritual de beleza e bronzeamento para estarem “mulatas” em uma apresentação de salsa na mesma noite.

O pico do sol também coincide com o pico energético entre aquelas personagens, mulheres que se amam, mas também não deixam de ter suas pitadas de ódio e competição mútuas.

Há muita poesia no filme.

E, por mais que Taretto não reconheça a homenagem, seu filme acaba remetendo a Almodóvar, com suas mulheres fortes e coloridas. Mas, argentino que é, Taretto faz um filme um tanto quanto mais sóbrio e sem os arroubos de roteiro típicos da cinematografia almodovariana.

O longa acerta ao mostrar uma classe média portenha deslumbrada com a ilusão da paridade entre peso e dólar na Argentina dos anos 1990, preço pelo qual o país pagou caro na última virada de século, enfrentando desastrosa crise econômica.

Mas o filme se passa antes de a crise chegar, com as personagens sonhando por dias felizes em uma praia paradisíaca de Cuba, com viagem paga em prestações.

O sonho de felicidade distante, tão típico na pobreza financeira latino-americana, comove e gera empatia.

Filme de estados, Las Insoladas cresce consideravelmente quando as seis amigas fumam maconha tranquilamente no terraço — a Argentina é muito mais liberal que o Brasil em respeito à erva — ou bebem rum com Coca, iniciando passos cheios de energia e liberdade.

Se faz um filme que evolui de forma merecedora de aplausos, Taretto só perde a mão no final, ao incluir dentro do filme uma cena que talvez devesse estar apenas nos créditos finais, como bônus, quebrando a ilusão de estarmos com ela naquele terraço, naquele dia de sol que parecia não ter fim.

Las Insoladas * * * *
Avaliação: Muito bom

Leia entrevista exclusiva com Gustavo Taretto

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