Crítica: Urinal, o Musical é a vitória do talento sobre o dinheiro

Os protagonistas de Urinal, o Musical: Caio Salay e Bruna Guerin - Foto: Ronaldo Gutierrez

Os protagonistas de Urinal, o Musical: Caio Salay e Bruna Guerin – Foto: Ronaldo Gutierrez

Por MIGUEL ARCANJO PRADO

O Teatro do Núcleo Experimental, comandado por Zé Henrique de Paula, surgiu de forma despretensiosa ali no número 637 da pacata rua Barra Funda, escondida no meio do bairro que faz a ligação entre o centro e a zona oeste paulistana.

O grupo surgiu em 2005, mas seu teatro só foi inaugurado em 8 de março de 2012. Logo, atraiu a atenção do público amante de teatro de qualidade feito por gente esmerada tanto no palco quanto nos bastidores.

Talvez seja esta preocupação excessiva com a equipe ao redor que resulte no sucesso do espaço e, consequentemente, no de sua mais recente obra, com sessões lotadas: Urinal, o Musical.

O espetáculo não custou milhões de reais, como tantas outras superproduções às quais o público de musicais da capital paulista está acostumado. Foi um espetáculo montado com muita força de vontade, criatividade e preparo cuidadoso de seu elenco. Isso é perceptível em cada cena que faz crescer a pequenina sala para menos de 60 pessoas.

Os atores envolvem o público com a história da cidade que vive uma crise hídrica sem precedentes, aproveitada por políticos inescrupulosos para explorar o povo e cobrar até para o uso de banheiros, já que os individuais estão proibidos por conta da falta d’água.

Em Urinal, o Musical, assim como na São Paulo atual, população sofre com a falta d'água - Foto: Ronaldo Gutierrez

Em Urinal, o Musical, assim como na São Paulo atual, população sofre com a falta d’água – Foto: Ronaldo Gutierrez

A montagem vem a calhar num momento em que São Paulo vive aterrorizada por cortes não anunciados de água e teme sempre acordar e não ter o precioso líquido natural sequer para lavar o rosto e escovar os dentes. Culpa, é claro, do modelo de desenvolvimento urbano que sempre desprezou o espaço geográfico natural no qual a cidade está situada e que foi destruído por ela e seus prédios cinzas — basta passar às margens dos fétidos rios Tietê e Pinheiros para entender.

E se engana algum desavisado que pense que a história foi escrita por um brasileiro. Muito pelo contrário, Urinal é também peça vinda da Broadway, onde foi lançada em 2001, escrita pelos norte-americanos Greg Kotis e Mark Hollmann, com direito a três prêmios Tony, o Oscar do teatro estadunidense.

Além do minucioso trabalho de direção de Zé Henrique — que não se preocupa só com o canto e marcações coreográficas, mas dá a devida atenção à atuação de seu elenco —, outro mérito do musical é de Fernanda Maia, que faz uma direção musical proponente, seja na harmonia encontrada nos arranjos vocais ou nos instrumentos tocados ao vivo por Rafa Miranda, Flávio Rubens, Clara Bastos, Pedro Macedo, Rafael Heiss, Abner Paul, Valdemar Santos Nevada e Evandro Bezerra.

E, como não poderia deixar de ser em um musical de sucesso, o espetáculo conta com dois protagonistas carismáticos e cientes do que fazem no palco.

Gerson Steves e Roney Facchini, na pele dos poderosos que exploram o povo em Urinal, o Musical - Foto: Ronaldo Gutierrez

Gerson Steves e Roney Facchini, na pele dos poderosos que exploram o povo em Urinal, o Musical – Foto: Ronaldo Gutierrez

Bruna Guerin, atriz com farta experiência em musicais, já tendo chamado a atenção em Garota Glamour, de Wolf Maya, e Hair e O Mágico de Oz, da dupla carioca Charles Möeller e Claudio Botelho, se entrega com técnica e verdade à sua Luz, fazendo dela uma mocinha que mistura fragilidade, humor e coragem como as belas protagonistas de filmes clássicos hollywoodianos. Demonstra que os anos de carreira lhe fizeram crescer como atriz.

Caio Salay, seguro como o herói revolucionário Bonitão, também é uma boa descoberta. E o elenco tem unidade, apresentando destaques também no time de coadjuvantes. Ator com estrada, Roney Facchini rouba a cena como o Patrãozinho, político inescrupuloso que explora a desgraça alheia, assim como Nábia Vilella é pura potência na pele de sua capataz junto ao povo.

Elenco com unidade: Fabio Redkowicz e Daniel Costa, em cena de Urinal, o Musical - Foto: Ronaldo Gutierrez

Elenco com unidade: Fabio Redkowicz e Daniel Costa, em cena de Urinal, o Musical – Foto: Ronaldo Gutierrez

Também se destacam Fabio Redkowicz, como um policial um tanto quanto eletrizado, Daniel Costa, como narrador da história, também sempre acelarado, Luciana Ramanzini, como a garotinha pobre, e Adriana Alencar, integrante da população sedenta. Completam o elenco afinado Bia Bologna, Gerson Steves, Paulo Marcos Brito, Thiago Carreira e Thiago Ledier.

O espetáculo é uma resposta a alguns diretores e produtores da cena musical que pensam que apenas rostinhos bonitos, corpos malhados e muito dinheiro e propaganda são capazes de montar um espetáculo por si só. Não são. Urinal, o Musical é a vitória do talento sobre o dinheiro.

Urinal, o Musical * * * * *
Avaliação: Ótimo
Quando: Sexta e sábado, 21h. Domingo, 19h. Segunda, 21h. 125 min. Até 12/10/2015
Onde: Teatro do Núcleo Experimental (r. Barra Funda, 637, Barra Funda, São Paulo, tel. 0/xx/11 3259-0898)
Quanto: R$ 60 (sex. e seg.) e R$ 80 (sáb. e dom.)
Classificação etária: 10 anos

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1 Resultado

  1. setembro 12, 2015

    […] Adriana Alencar realiza aquele sonho de menina, ao integrar o elenco do espetáculo Urinal, o Musical, dirigido por Zé Henrique de Paula no Teatro do Núcleo Experimental, na Barra Funda, em São […]

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