Mariana Queen Nwabasili: Barbatuques faz som indígena com povos do mundo em Ayú

 

Mariana Queen Nwabasili - Foto: Cassia Yebra

Mariana Queen Nwabasili – Foto: Cassia Yebra

Por MARIANA QUEEN NWABASILI*
Colaboração especial, em São Paulo (SP)

Realizado no último dia 6 de setembro, o show de lançamento de Ayú, novo disco do grupo de música corporal Barbatuques, começa em um telão suspenso no meio do palco do Auditório Ibirapuera, na zona sul da capital paulista.

As imagens exibidas ali são de moradores da Argentina, Estados Unidos, Aústria, Alemanha, Moçambique, Brasil  e outros países, que enviaram vídeos para a campanha #EUNOAYÚ.

Na telona, vemos adultos, crianças, adolescentes, pais com seus bebês no colo cantarem Ayú e batucarem no corpo sons dos mais diversos. Eles abrem passagem e dão o tom do show do quarto disco do grupo que já tem 18 anos de estradas nacionais e internacionais.

Após terem lançado, em 2012, o disco Tum Pá, direcionado ao público infantil, os Barbatuques apresentam este ano Ayú, disco com 13 faixas inéditas, sendo duas com participação do percussionista Naná Vasconcelos e uma com o participação do multi-instrumentista Hermeto Pascoal — que não participaram do show de lançamento.

Ayú é uma expressão utilizada pelos índios do Alto do Xingu, na região do Mato Grosso, em cerimônias de celebração. A influência  do toré indígena para os Barbatuques fica evidente no palco, onde os 14 integrantes, por vezes, batem os pés em rodas e coreografias variadas, e proferem não só “ayú”, mas também outros sons que remetem aos cantos dos índios. Nas músicas do novo trabalho, há também a influência de outros ritmos, como o coco, o carimbó, o choro, o maracatu e de músicas africanas.

A trajetória parece ter consolidado um público amplo: na platéia do novo show, a exemplo dos vídeos que antecedem o espetáculo, muitas crianças e jovens acompanham os pais — ou os pais acompanham os pequenos ouvintes da boa música.

Barbatuques: sons por todas as partes do corpo - Foto: Divulgação

Barbatuques: sons por todas as partes do corpo – Foto: Divulgação

Corpo que toca

Não só pelo sucesso de Tum Pá entre as crianças, mas também por conta da ludicidade da percussão corporal, os shows do Barbatuques parecem instigar o público a brincar com os sons do corpo. Impossível não bater os pés e cantarolar algumas das onomatopeias que compõem as músicas. A voz como instrumento nas músicas está bem mais presente e de forma mais elaborada do que nos outros discos, permitindo ao público interagir e reproduzir ainda mais as canções.

A certa altura, o próprio Barbatuques permite à plateia entrar na brincadeira. Após os integrantes fazerem uma música de improviso impecável — aos desatentos, um improviso dos Barbatuques parece mais uma bem acabada música do novo disco —, o público é convidado a se arriscar: três dos músicos propõem e regem batuques corporais junto a partes diferentes da plateia; no centro do palco, o resto do grupo complementa, de improviso, os sons emitidos por quem os assite e garantem que nenhuma apresentação seja igual a outra.

Durante a maior parte da execução das 11 canções apresentadas (duas que estão no novo disco ficam de fora do show), há três músicos do grupo que parecem funcionar como base dos sons. Eles ficam no fundo do palco, sobre uma espécie de degraus acoplados a microfones que captam os sons de suas movimentações. Enquanto isso, os demais integrantes do grupo executam em seus corpos os batuques que compõem as melodias, tudo como em uma orquestra.

Improvisação e sons inacreditáveis

Aliás, nos momentos de improvisação, o idealizador dos Barbatuques, Fernando Barba, responsável pela direção musical de Ayú junto com Carlos Bausys, funciona como um verdadeiro regente dos demais músicos. O resultado é impressionante e arranca palmas do público ao fim de cada música: uma orquestra corporal em sentido amplo, orgânica ao aliar os sons tímidos e desajeitados de quem vê aos sons inacreditáveis feitos pelos corpos dos que são vistos. Ao final do show, quase esquecemos que não foram executadas canções famosas de outros discos do grupo, como Baianá e Baião Destemperado.

Para os pais de crianças pequenas fãs de Barbatuques, vale dizer que tanto barulho do bom não é suficiente para deixar os bebês acordados. O ambiente do teatro (e escuro e relativamente silencioso no entre músicas) somado à duração do show de pouco mais de uma hora, aparentemente, leva os pequenos a dormirem antes do show acabar, como aconteceu na apresentação de lançamento do no disco. De toda forma, é ótimo ver o teatro cheio de pequenos futuros adultos. Cultura também se ensina e se acostuma.

*MARIANA QUEEN NWABASILI é jornalista formada pela Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo, onde cursa mestrado. Ela escreve no site todo segundo sábado do mês.

Quer saber mais sobre este novo trabalho do Barbatuqes? Veja o vídeo abaixo:

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