Crítica: Tragédie rasga véu do preconceito com dança de bailarinos nus

Olivier Dubois coloca 18 bailarinos nus no palco de Tragédie, que abre Bienal Sesc de Dança - Foto: Divulgação

Olivier Dubois coloca 18 bailarinos nus no palco de Tragédie, que abre Bienal Sesc de Dança – Foto: Divulgação

Por ÁTILA MORENO*
Colaboração especial, no Rio (RJ)

Nada de dorsos extremamente musculosos das famosas praias cariocas. Tampouco corpos nus, com remelexo sincopado, das escolas de samba na Apoteose. O tom é outro.

Dezoito bailarinos despidos, nove homens e nove mulheres, dão o contorno de Tragédie, de Olivier Dubois, espetáculo de dança, que teve única apresentação na Cidade das Artes, no Rio de Janeiro. Ele entra em cartaz no Sesc Campinas, dentro da programação da Bienal Sesc de Dança, nos dias 17 e 18 de setembro, e, em São Paulo, no Sesc Pinheiros, nos dias 22 e 23 de setembro.

Tragédie é a última parte da trilogia “Étude critique pour un trompe l’oeil” (“Estudo crítico para uma ilusão de ótica”), iniciada, em 2009, com Révolution e seguida por Rouge, estrelada pelo próprio coreógrafo, em 2011, em apresentação solo.

Castração criativa

Inicialmente harmônico, os bailarinos introduzem Tragédie com passos, em marchas, bastante repetitivos, 12 para frente e 12 para trás.  No início, é propositalmente enfadonho e robótico, mas Dubois leva a repetição ao extremo, justamente para criticar e refletir sobre a alienação e a castração criativa nos tempos atuais.

Depois, tudo toma outro rumo em que o caos e a plenitude dialogam e brigam por espaço. Essa narrativa cênica (ou falta dela) parece ter a mesma linha da trilogia Qatsi, dirigida Godfrey Reggio: Koyaanisqatsi (1982), Powaqqatsi (1988) e Nagoyqatsi (2002), que aborda a relação entre homem, natureza e tecnologia.

Se no cinema, Reggio dispensou os diálogos e narrativas, deixando o filme despido de referências textuais, trabalhando só com a justaposição de imagem e música (com autoria de Philip Glass), em Tragédie o caminho seguido é até semelhante.

Disfuncional e caótico

Aos bailarinos, nada é milimetricamente coeso, tudo se torna disfuncional e caótico quando a música toma outra sonoridade incrivelmente mais eletrônica e pesada. Há de se ressaltar o trabalho primoroso de François Caffenne nesse ponto, em consonância com iluminação de Patrick Riou.

É como se os bailarinos, soltos e sozinhos, fossem encaixados na sonoridade: não há sequer cenário pomposo, o que separa é apenas uma cortina enorme e preta ao fundo, onde eles entram e saem. Será um buraco negro engolindo e parindo essa galáxia de corpos?!

E, nos poucos momentos em que os bailarinos se tocam, eles se embolam de forma visceral, sexual e grupal, trazendo um dos momentos mais belos e marcantes, como se fossem uma supernova sumindo, ao fundo, na escuridão.

Caleidoscópio catártico

Dubois trouxe impacto como se jogasse o público num caleidoscópico catártico. Nem todo mundo está acostumado a observar a nudez sem trazer consigo uma carga sexualmente banalizada ou mesmo de repulsa e vergonha.

Ainda mais em uma sociedade que lida de maneira tão hipócrita com seus valores a respeito do que é erótico, pornográfico e sexual. Por que será no próprio Rio de Janeiro há tanto furdúncio em torno de permitir que mulheres façam topless na praia e, ao mesmo tempo, tanta abertura em estimular as mulatas a desfilarem nuas no Carnaval?

Por mais que Tragédie incite uma ruptura com códigos de moralidade, e, provavelmente, essa ruptura vai se processar de várias maneiras pelos países que o espetáculo for apresentado (vide a tentativa de proibição na França e em Israel), depois de alguns minutos os espectadores são convidados a lidar com aquela nudez de outra forma.

Ela passa a ser natural. Como se o ser humano estivesse em contato com seu estágio de nascença. E quem se permirtir vai poder ir retirando, em camadas, pudores, estranhamentos, vícios de estética e deixar crescer possibilidades de prazeres e contemplamento.

Tragédie * * * * *
Avaliação: Ótimo

O jornalista Átila Moreno - Foto: Divulgação

O jornalista Átila Moreno – Foto: Divulgação

*ÁTILA MORENO é jornalista formado pelo UNI-BH e tem pós-graduação em Produção e Crítica Cultural pela PUC Minas. Ele colabora com o site cobrindo a cena cultural do Rio, onde vive.

 

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