Casal briga na rodoviária de Campinas e comove público em Suportar

Claudia Millás e Ivan Gomes em Suportar na Rodoviária de Campinas - Foto: Marco Flávio

Claudia Millás e Ivan Gomes em Suportar na Rodoviária de Campinas – Foto: Marco Flávio

Por MIGUEL ARCANJO PRADO
Enviado especial a Campinas (SP)*

O calor de 35 graus do lado de fora era ainda mais pesado dentro do terminal rodoviário de Campinas na tarde deste sábado (19).

No segundo andar, mais próximo do teto fervendo, passageiros e transeuntes circulavam entre as bilheterias e lojinhas, quando começou o espetáculo de dança Suportar, da Cia. Domínio Público, de Campinas (SP), integrante da programação da Bienal Sesc de Dança, que vai até dia 27 na cidade do interior paulista.

Suportar parecia fazer ainda mais sentido ali, diante do ar pesado e seco da Rodoviária. Suados, a bailarina Claudia Millás e o músico Ivan Gomes travaram um embate de corpos, uma briga poética.

A auxiliar de serviços gerais Maria José Albuquerque, de 58 anos, passava pelo saguão quando a dança começou. Resolveu parar, sentar-se e assistir.

No começo, achou tudo muito estranho. Afinal, tratava-se de experiência inédita em sua vida. Viu tudo compenetrada. Assim que o espetáculo de 30 minutos acabou, já não era mais a mesma.

“Achei importante ver, porque nunca tinha visto uma peça dessas na minha vida. No começo, pensei que era uma moça doidinha dançando no meio do povo, fazendo palhaçada, mas não era”, conta à reportagem, um tanto quanto tímida.

Mas logo cria coragem para concluir seu raciocínio. “Foi tudo diferente do que pensava ou tinha visto. Então, para mim foi muito importante. Porque eu gostei. Queria conhecer mais”, declara, enquanto a equipe técnica já retira o equipamento do local. “Vi que é muito importante para mim ver uma dança assim, diferente. Vivendo e aprendendo, né?”, fala, sorrindo, antes de partir rumo ao seu destino.

Suportar, da Cia. Domínio Público: contato direto com o público - Foto: Marco Flávio

Suportar, da Cia. Domínio Público: contato direto com o público – Foto: Marco Flávio

São encontros como este que fazem sentido para a diretora do espetáculo, Holly Cavrell. “Você traz o teatro para o povo. Fico feliz de estar entre as pessoas. O artista não pode assumir postura elitista. Por isso eu gosto dessa aproximação com o espectador. É uma troca”, diz, emocionada.

A coreógrafa ainda reitera que momentos como este são de generosidade mútua entre público e artistas. “Você ganha o olhar do outro. A prova do artista é quando consegue trazer uma intimidade dentro de um espaço público”.

Ausência de um bailarino

Holly conta que a apresentação contou com um grande imprevisto. O bailarino Leandro Rivieri, co-criador e bailarino de Suportar ao lado de Claudia Millás, ficou doente e não pode participar da sessão.

Em vez de cancelar a apresentação, a Cia. Domínio Público resolveu mantê-la, e deu ao músico Ivan Gomes mais responsabilidade.

“Tivemos que chegar bem cedo, às dez da manhã [o espetáculo foi apresentado às 15h]. Sentimos o que poderia ser feito. Porque havia muitas cenas nas quais ela subia em cima do Leandro, com jogo de gravidade. O músico foi assumindo uma parte mais ativa fisicamente. E o Ivan encarou bem”, conta Holly.

Encarou mesmo. O músico Ivan Gomes gostou de poder unir o tocar de seu violoncelo ao ato de também dançar. “Quem não gosta de dançar?”, pergunta à reportagem, sorrindo. E completa: “Tive de assumir uma nova presença corporal no espetáculo. Antes fazia só a parte musical mesmo. Como trabalho com Claudinha há muito tempo e já havíamos improvisado algumas coisas, foi fácil. Toco para espetáculos de dança há dez anos. Então, não foi tão difícil, tenho certa experiência cênica. Mas, estar ‘dançando’ – e precisa colocar essa palavra entre aspas, por favor – é a primeira vez. Adorei”, afirma.

Claudia Millás interage com espectador durante o espetáculo Suportar - Foto: Marco Flávio

Claudia Millás interage com espectador durante o espetáculo Suportar – Foto: Marco Flávio

Imprevisto como estímulo

A bailarina Claudia Millás revela ter gostado da experiência. “Sempre lidamos com o desafio do imprevisto e o utilizamos como estímulo. Por isso topamos o desafio. Acho que conseguimos ter um contato mais direto com as pessoas, mais humano, não precisar de uma distância muito grande, sair dessa postura ‘eu sou bailarina’. Eu sou uma pessoa também. Todos nós estamos aí, na lida. Para a gente é bom”, diz.

E para a plateia também. O engenheiro de produção Paulo Marques, de 31 anos, que viu o espetáculo enquanto aguardava seu ônibus, estava tão satisfeito que até tirou fotos do espetáculo.

“Houve uma simulação de briga na mesa. Comecei a olhar o casal com olhar de estranhamento. Depois, veio o espetáculo e entendi”, conta. “Já fiz cursos de teatro e tive de interromper por conta do trabalho, mas eu amo teatro. Então, acho que eles foram muito bem. Por mais que a arte seja acessível em alguns espaços, muitas pessoas não têm essa informação. Então, ver a arte se aproximar do povo, fazendo com que ele se envolva, merece meus parabéns”.

*O jornalista MIGUEL ARCANJO PRADO viajou a convite da Bienal Sesc de Dança.

Leia a cobertura completa da Bienal Sesc de Dança

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