Marcelo Thomaz, o ator tecnológico do Satyros

O ator e futuro diretor Marcelo Thomaz - Foto: Miguel Arcanjo Prado

O ator e futuro diretor de teatro Marcelo Thomaz, na praça Roosevelt, São Paulo – Foto: Miguel Arcanjo Prado

Por MIGUEL ARCANJO PRADO

Ao contrário de muitos atores, Marcelo Thomaz, 36 anos, tem jeito introspectivo. É na dele. Quase tímido. Talvez, por isso, sempre tenha chamado a atenção em meio ao frenesi ruidoso da praça Roosevelt, reduto teatral paulistano.

Caminho pela calçada, quando o avisto à minha espera em frente à SP Escola de Teatro, onde está na reta final do curso de direção.

Ele olha no telefone. Está preocupado, porque a filha, Nina, fruto de seu casamento com a também atriz Sabrina Denóbile (ou Nina Nóbile, quando assina como dramaturga) está doente. Mas diz que a situação está sob controle e seguimos com o programado. Primeiro as fotos, depois, a entrevista.

Paulistano nascido em Itaquera e criado no Carrão, na zona leste de São Paulo, Marcelo Thomaz sempre gostou de tecnologia. Filho do comerciante Antonio e da dona de casa Abigail, o primogênito de três irmãos até que jogava bola na rua, mas seu fascínio mesmo era pelo computador.

Na adolescência, entrou para uma escola de informática, onde entendeu tudo sobre sistemas. Menino, sua brincadeira era invadir sistemas ditos seguros. Tanto que até proposta de um grande banco recebeu para trabalhar pegando hackers, mas recusou — para fazer teatro —, para desespero de sua mãe.

Na adolescência, Marcelo Thomaz recebeu proposta de um banco para ser caçador de hackers - Foto: Miguel Arcanjo Prado

Craque em computadores desde a adolescência, Marcelo Thomaz recebeu proposta de um banco para ser caçador de hackers – Foto: Miguel Arcanjo Prado

O pendor para o mundo digital o levou para um curso técnico em processamento de dados. Foi quando algo inusitado aconteceu. Viu um cartaz chamando para um curso de teatro.

“Na época não gostava nem de ir ao teatro, mas resolvi fazer”, rememora. O máximo que chegava próximo da atuação eram as incontáveis vezes que assistia ao filme O Pássaro Azul, de 1940, baseado na peça do dramaturgo belga Maurice Maeterlinck, um VHS alugado na videolocadora do bairro.

As classes de improvisação teatral logo mexeram com o adolescente tímido. “Isso vai me ajudar”, concluiu, na época. Do curso livre foi para o Teatro Escola Macunaíma, na tradicional sede do bairro Campos Elíseos.

Nesta mesma época, inscreveu-se para um workshop com o ator Cláudio Cavalcanti (1940-2013). “Ele me disse que eu deveria ser ator”, recorda, com emoção, dizendo que aquela fala daquele artista que tanto admirava o marcou.

Marcelo Thomaz sempre foi apaixonado por computadores, mas acabou no teatro - Foto: Miguel Arcanjo Prado

Marcelo Thomaz sempre foi apaixonado por tecnologia, mas acabou no teatro, unindo os dois – Foto: Miguel Arcanjo Prado

Foi assim que em vez de dar aulas de informática ou hackear outros hackers passou a atuar em peças. Chegou a dividir o mesmo teatro com Maria Alice Vergueiro, em Mãe Coragem, e ele em Insanos e Verdadeiros, nos últimos suspiros do Teatro Brasileiro de Comédia, o histórico TBC, no Bixiga.

Aos 21 anos, já era profissional das artes cênicas com direito a DRT. Seguiu rumo que tantos atores trilham: fez o CPTzinho do temido Antunes Filho e o curso intensivo de cinema da famigerada preparadora de elenco Fátima Toledo. “Uma coisa que aprendi e que me ajudou foi a bionergética”, lembra.

Não parou de conhecer gente. Estudou ainda com Maria Thais, da USP, fez curtas, comerciais e a Escola de Atores Wolf Maya. Foi lá que conheceu Alberto Guzik, jornalista que se tornou ator do Satyros no fim de sua vida.

O professor Guzik, junto de um colega de classe, o ator Tiago Leal, avisaram que Rodolfo García Vázquez, o diretor do Satyros, buscava novos atores para a trupe da praça Roosevelt, então ainda sem o glamour atual.

Com a ligação entre centro e zona leste ao fundo: Marcelo Thomaz é paulistano criado no Carrão - Foto: Miguel Arcanjo Prado

Com a ligação entre centro e zona leste de SP ao fundo: Marcelo Thomaz é paulistano nascido em Itaquera e criado no Carrão – Foto: Miguel Arcanjo Prado

“Fiz o teste para Divinas Palavras. Lembro-me que o Rodolfo me perguntou se eu sabia do que se tratava. Respondi que não conhecia o Satyros, nunca tinha visto nada. Ao fim do teste, uma cena sado-masoquista com outros dois atores, o Rodolfo pegou meu telefone e disse que se pintasse algo me telefonaria”, recorda.

E assim foi. Em um sábado à noite, Rodolfo lhe telefonou. Propôs que já no domingo estivesse na plateia de Os 120 Dias de Sodoma, de Marquês de Sade. “Era para substituir o papel do Sérgio Guizé [hoje famoso atore de novelas da Globo], que fazia o narrador”, conta.

Foi assim que em 2007 ele entrou para o Satyros. “Foi no dia 13 de outubro de 2007”. Fez 120 Dias pelos três anos seguintes, peça sucesso de público que recentemente voltou ao cartaz com novo elenco.

E entrou em outras obras, como Justine, protagonizada por Andressa Cabral. Foi nos bastidores desta peça que conheceu a atriz que se tornaria sua mulher, Sabrina Denóbile, mãe de sua filha, Nina, de quatro anos.

Viajaram junto com o Satyros para o Rio, onde o grupo fez sua Trilogia Libertina. “Também fiz o infanto-juvenil Esse Rio É Minha Rua, que viajou muito entre 2008 e 2009”, revela. Com o nascimento da filha, em 2011, resolveu dar um tempo nos palcos e encarar seu novo papel: pai e marido.

Após dois anos afastado da Roosevelt, Marcelo Thomaz voltou à praça e ao teatro em 2013; não saiu mais - Foto: Miguel Arcanjo Prado

Após dois anos afastado da Roosevelt, o ator Marcelo Thomaz voltou à praça e ao teatro em 2013 e não saiu mais – Foto: Miguel Arcanjo Prado

Mas o hiato não durou mais que dois anos. Em 2013, em uma visita à praça Roosevelt, foi convocado por Rodolfo, juntamente com a mulher, para entrar no coro do espetáculo Édipo na Praça.

“Aprendo muito com o Rodolfo e o Ivam [Cabral, cofundador do Satyros]”, declara. Logo, percebeu que a praça Roosevelt estava diferente, “mais alegre, com pessoas de tudo quanto é lugar, com uma energia mais pra cima”.

Em 2014, embarcou com tudo no projeto E Se Fez a Humanidade Ciborgue em 7 dias, do Satyros, no qual atuou em quatro das sete peças, incluindo aí o sucesso Não Fornicarás, com direção de Rodolfo García Vázquez e texto provocativo de Rosana Hermann, ainda em cartaz.

No mesmo ano, passou no concorrido processo seletivo e entrou para o curso de direção da SP Escola de Teatro, onde teve contato com novos teóricos e artistas como Ney Piacentini, Marcos Bulhões e Claudia Schapira. “O curso me enriqueceu também como ator”, avalia.

Marcelo Thomaz está na reta final do curso de direção na SP Escola de Teatro - Foto: Miguel Arcanjo Prado

Marcelo Thomaz está na reta final do curso de direção na SP Escola de Teatro – Foto: Miguel Arcanjo Prado

Em 2015, Marquês de Sade voltou ao Satyros e à sua vida. Está em duas peças do autor francês, na nova Juliette e na remontagem de Os 120 Dias de Sodoma. “Hoje eu tenho uma nova consciência do Sade. As questões políticas que ele levanta dialogam muito com o Brasil de hoje, com tudo isso que estamos vivendo, a censura, o politicamente correto, os Eduardo Cunha da vida”, afirma.

E arrisca definições sobre as obras: “Acho que Juliette é mais erótica, tem uma energia visceral; já Os 120 Dias de Sodoma é muito mais política do que sexual”.

Diz que trabalhar com a mulher é um privilégio: “Achei que seria complicado, mas na verdade só tenho a ganhar. Ela, além de atriz, é dramaturga e trocamos muito. É uma relação de muita generosidade quando temos cenas juntos”.

Assume que já não está tão certo da “utopia de mudar o mundo”, tão presente no começo da carreira. Mas diz ainda ter vontade de falar muitas coisas no palco: “Chegar às pessoas, mostrar o que está acontecendo, questionar”.

Sobre estar em cartaz com três peças ao mesmo tempo, Marcelo Thomaz é espirituoso: “Estou com 36 e vejo uma galera que está com 20 dizendo que está morrendo de cansaço. Eu ainda tenho pique”, finaliza, com um sorriso.

Pelo jeito, a timidez do ator tecnológico foi embora.

Marcelo Thomaz, timidez que o teatro quebrou - Foto: Miguel Arcanjo Prado

Marcelo Thomaz, com um sorriso no rosto: timidez que o teatro quebrou – Foto: Miguel Arcanjo Prado

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