Entrevista de Quinta: “O teatro pode e deve dizer as coisas”, diz ator Eduardo Chagas

O ator Eduardo Chagas - Foto: Miguel Arcanjo Prado

O ator paulistano Eduardo Chagas, do grupo Os Satyros: “O teatro me dá a possibilidade de ser e de entender o que gira à minha volta” – Foto: Miguel Arcanjo Prado

Por MIGUEL ARCANJO PRADO

Aos 56 anos de idade e 36 de carreira profissional, o ator Eduardo Chagas coleciona muitas aventuras no teatro, seu grande companheiro de vida.

O ator que atualmente dá vida ao personagem Robalo, na peça Pessoas Perfeitas, que deu ao Satyros o prêmio de melhor espetáculo de 2014 pela APCA, já passou por muita coisa.

No momento, se prepara para viajar com a peça para Cuba, no fim de outubro, e ainda encara os ensaios da nova montagem da trupe da praça Roosevelt, Pessoas Sublimes.

O artista já teve de se virar na Europa para sobreviver. Enfrentou a responsabilidade de ter três filhos para criar. Aventurou-se pelo teatro dionisíaco de Zé Celso. Estudou tragédia com o Teatro X, enfim, fez de tudo um pouco.

Mas afirma que sua praia é ser ator. Paulistano do Bixiga, ele conta, nesta Entrevista de Quinta ao Site do Miguel Arcanjo, algumas histórias de sua vida e de sua arte.

Leia com toda a calma do mundo.

MIGUEL ARCANJO PRADO — Onde buscou inspiração para fazer o Robalo de Pessoas Perfeitas?
EDUARDO CHAGAS —
Foi uma dificuldade danada, o processo foi muito louco, montamos o espetáculo em dois meses. No começo, só tinha o roteiro. A gente não julga, o personagem acontece. No processo do Rodolfo [García Vázquez, diretor do Satyros] você vai a campo. Vai em grupos de ajuda, como o Alcoólicos Anônimos e grupos de reabilitação. Lá a gente faz a pesquisa, escuta as histórias. Eu vi dificuldade no meu personagem. Porque não o enxergava como um doente, mas como uma pessoa triste, que não está satisfeito com a vida dele. Talvez ele quisesse ser outra coisa, mas aí caiu naquela vida, a mulher estava grávida… Foi uma composição inspirada em uma porrada de gente que vejo na rua. O Rodolfo nos pediu um personagem e eu corri atrás.

MIGUEL ARCANJO PRADO — Quem é o Robalo?
EDUARDO CHAGAS —
Ele é um cara que aparenta ser muito mais velho, é o dono de um açougue familiar, no bairro da Vila Matilde, na zona leste de São Paulo. É casado com aquela mulher em ascensão, a Cacilda, que a Marta Baião fazia e agora vai ser a Fernanda D’Umbra. que compra muito, faz academia e come pra caramba. Então, ela tem esse conflito, de comer e estar sempre bela. E eles têm um filho, o Binho, feito por Henrique Mello, que saiu de casa e ninguém sabe por onde ele anda. A Marta defendia o papel divinamente, era fantástica, pena que saiu. Mas a Fernanda é muito forte também. E, no meio do caminho, a Marta foi substituída pela Suzana Aragão.

Eduardo Chagas vive Robalo na peça Pessoas PErfeitas, do Satyros - Foto: Miguel Arcanjo Prado

Eduardo Chagas vive Robalo na peça Pessoas Perfeitas, do Satyros: “Talvez ele quisesse ser outra coisa, mas caiu naquela vida” – Foto: Miguel Arcanjo Prado

MIGUEL ARCANJO PRADO — Como você resolveu ser ator?
EDUARDO CHAGAS —
Meu pai era ator, o Chaguinhas. Ele fez teatro de revista, trabalhou com Darlene Glória e Deus e o mundo. Depois de muito tempo, ele fez o Gota D’água no Rio com a Bibi Ferreira, que tive o prazer de conhecer ainda adolescente, e depois foi para a Globo, onde fez o Sítio do Pica-Pau Amarelo, como o Marquês de Rabicó. Fez durante uns dez anos. Eu tenho muito isso do meu pai, de vê-lo em cena desde criança. Eu tinha aquele exemplo em casa. Com 13, 14 anos fomos morar em Tremembé. Lá tem o presídio feminino. E conheci uma freira que queria fazer teatro, estava envolvido no grupo de jovens da igreja. Comecei falando de Jesus, Deus e o diabo a quatro [risos]. A gente tinha vontade de fazer, mas ninguém pra ajudar a gente. Íamos com a cara e a coragem. Mas a coisa foi ficando séria, comecei a só pensar em teatro.

MIGUEL ARCANJO PRADO — Aí você voltou para São Paulo?
EDUARDO CHAGAS —
Em 1977, 1978, voltei para São Paulo e fiz o curso do Idema, lá em Jabaquara, com Bene Rodrigues e o Wanderley Martins, que estavam recém-formados da Unicamp. Era tão intensa a coisa, tão legal, cara, que eles me botavam naquele mundo diferente daquela forma que eu fazia no interior. Fui me encantando mais.

MIGUEL ARCANJO PRADO — E resolveu virar ator de vez?
EDUARDO CHAGAS —
Foi justamente em 1979 que o Ministério do Trabalho regulamentou a profissão de ator que tirei meu DRT. Aí minha vida não parou mais.

MIGUEL ARCANJO PRADO — Você mergulhou de cabeça no teatro?
EDUARDO CHAGAS —
Sim, fui fazendo muitas coisas. Tinha entrado na companhia da Nydia Licia, na Praça da Árvore, fiquei lá durante uns dois anos. E entrei nessa de casar.

MIGUEL ARCANJO PRADO — “Entrei nessa de casar” é ótimo [risos].
EDUARDO CHAGAS —
Pois é. Estava com 25 anos, estava começando minha carreira naquela hora, tudo estava se movimentando, aí eu me casei. Mas, tudo bem.

MIGUEL ARCANJO PRADO — Amor é importante também.
EDUARDO CHAGAS —
Pois é… Aí a coisa foi rolando, tentei dar uma de produtor, mas não deu certo, porque eu não sou produtor, sou ator. Posso até dirigir, fazer um pouco de cenografia, figurino, tudo que tem em teatro eu faço, mas minha função por excelência é ser ator.

MIGUEL ARCANJO PRADO — Está certíssimo, porque depois começa a se dar bem como produtor e ninguém mais chama como ator.
EDUARDO CHAGAS —
E eu nem quero isso de produzir! Aí eu parei um tempo de fazer teatro, fui morar em Mato Grosso. Tive a Tainá, que é uma menina linda, tem 30 anos agora, é professora, gosta do mundo da arte. Depois, veio o Taiguara, o Taiguara Chagas, que hoje é um bom ator, sem ser pai coruja. Está caminhando na carreira aí muito bem, vai fazer 27 anos e agora ele está com a turma do Tuna Sezerdello. E tem a caçulinha, de um outro relacionamento, a Madelon, que mora no litoral e vai fazer 24.

Eduardo Chagas é filho do grande ator José Chaguinha, que viveu Marquês de Rabicó no Sítio do Pica-pau Amarelo - Foto: Miguel Arcanjo Prado

Eduardo Chagas é filho do grande ator Chaguinhas, que viveu Marquês de Rabicó no Sítio do Pica-pau Amarelo: “Tinha exemplo em casa” – Foto: Miguel Arcanjo Prado

MIGUEL ARCANJO PRADO — E quando você voltou para o teatro?
EDUARDO CHAGAS —
Eu voltei assim: caí de cara no Zé Celso, no comecinho do Sertões. Cara, eu me dei mal.

MIGUEL ARCANJO PRADO — Por quê?
EDUARDO CHAGAS —
Porque é uma linguagem que eu não estou dentro dela, acho do caralho, tenho vários amigos que fazem, mas eu não tinha aquela entrega. Já tinha passado da idade, estava cheio de pudor e do cacete a quatro, então não tinha Dionísio como minha referência naquele momento. Foi muito atrito mesmo, porque não conseguia chegar. E ainda estava cuidando das minhas crianças.

MIGUEL ARCANJO PRADO — Você já tinha uma vida de “responsa”.
EDUARDO CHAGAS —
Exato. Aí foi quando acabou o casamento. Aí perambulei pela vida fazendo uma coisa ou outra. Fui fazer um curso de commedia dell’arte que me abriu um outro rumo, mas, quando chega 1990, eu conheço o Satyros, no comecinho. A Jane, uma amiga minha, me falou: “Edu, o Rodolfo está fazendo um teste para o João Batista do Saló, Salomé”. Cheguei lá no Teatro do Satyros, que era um muquifo na rua Major Diogo, e encontro um cara magrelo, molecão de tudo, o Rodolfo. Aí ele falou: “Sabe o que eu quero que você faça? Vai lá em cima e contorce o corpo um pouco”. Eu fui lá e fiz. E ele: “Fala qualquer coisa em uma linguagem ininteligível”. Eu fui lá e fiz [grunhindo]. “Vai ser você”, ele disse. Aí começamos uma jornada muito legal. Saló, Salomé era extremamente difícil, estava exposto o tempo todo em cena, tinha de arrumar coisas para não ficar como um bocó lá. Era um balanço que girava o tempo todo lá no fundo, eu precisava controlar. Foi um trabalho muito forte de ator. Foi o trabalho que me levou para Portugal.

Eduardo Chagas foi para a Europa com 50 dólares no bolso - Foto: Miguel Arcanjo Prado

Eduardo Chagas foi para a Europa com 50 dólares no bolso junto com o Satyros: “Éramos 25 loucos” – Foto: Miguel Arcanjo Prado

MIGUEL ARCANJO PRADO — Você foi para a Europa com o Satyros?
EDUARDO CHAGAS —
Fui. Era uma coisa louca, nos anos 1990, com inflação enorme. Éramos 25 loucos. O avião foi foda, todo mundo bebendo pra aguentar o medo de viajar pela primeira vez. Rodolfo falou, vamos para o Fitei [Festival Internacional de Teatro de Expressão Ibérica, em Porto, Portugal] e ficar quatro meses em Portugal para pegar o Festival de Cádiz. Metade do elenco não tinha grana. Fui para a Europa fazer teatro com 50 dólares no bolso. A gente só tinha certeza que o Fitei iria pagar o cachê. Foi de 6.000 escudos na época.

MIGUEL ARCANJO PRADO — Como pagaram a passagem?
EDUARDO CHAGAS —
Fizemos pedágio na rua, o Paulo Goulart deu grana, ajudou. Foi muito empenho para ir. Quando chegou quase, não tinha grana pra todos. Foi metade com grana e metade sem grana. O pessoal que estava com grana bancou a passagem dos colegas, foram muito generosos.

MIGUEL ARCANJO PRADO — E o avião?
EDUARDO CHAGAS —
Foi pela Iberia. A gente encheu tanto a cara que a comissária vinha, pedindo pra gente ficar quieto. Que nada! Quando chegamos no Porto foi tudo uma maravilha, era o festival, tinha tudo de graça, comida, restaurante. Depois, fizemos a velha continha cruzeiro x escudo, duas moedas lá embaixo sem valer porra nenhuma! Vimos que era uma loucura! Depois do festival, fomos para Lisboa com 300 quilos de bagagem, só cenário, ninguém conhecia nada em Portugal ou na Europa. E era alta temporada.

MIGUEL ARCANJO PRADO — E a grana acabou?
EDUARDO CHAGAS —
Sim, aí fudeu tudo. Nos dividimos em metade para procurarmos moradia. Mano, cinco hora depois volta um grupo: encontramos dois lugares: 1.000 escudos por dia, só para dormir. Então, eram seis noites de cama sem comida. Bicho, nas primeiras semanas foi bem pesada a coisa. Porque o pessoal não sabia se virar.

Para sobreviver na Europa, Eduardo Chagas fez arte de rua em Lisboa - Foto: Miguel Arcanjo Prado

Para sobreviver na Europa, Eduardo Chagas fez arte de rua em Lisboa: “Conquistei o pessoal com a brincadeira” – Foto: Miguel Arcanjo Prado

MIGUEL ARCANJO PRADO —E você?
EDUARDO CHAGAS —
Eu já fui com a ideia de fazer mímica, não queria lavar pratos. Fui pra rua pra me virar. Comecei a ganhar dinheiro. Primeiro fiz mímica, mas não rolou. Aí vi um palhaço lá fazendo sombra e vi que dava certo. Em pouco tempo eu tinha meu ponto na rua e já ganhava uma grana. Eu conquistei o pessoal com a brincadeira. Chegava na rua 11 da manhã e saía cinco da tarde, um puta sol. Mas estava fazendo arte, era alta temporada, o mundo passando naquela rua Augusta de Lisboa. Depois, os outros foram aprendendo, uns foram para a Espanha. Depois, fui para a Espanha e me ferrei. O humor lá não era o mesmo.

MIGUEL ARCANJO PRADO — E o que você fez?
EDUARDO CHAGAS —
Voltei correndo. Mas foi muito louco. Só tinha a grana para pagar a passagem de volta a Portugal. Comprei a passagem com tudo que tinha. Aí, cheguei na plataforma e vi o ônibus indo embora. Bateu um desespero, cara. Corri no guichê e expliquei ao homem, desesperado. O cara ficou com dó e me trocou a passagem, mas dessa vez o ônibus iria parar na fronteira e eu precisaria atravessá-la a pé. Na ansiedade, nem pensei muito e topei.

MIGUEL ARCANJO PRADO — O que aconteceu?
EDUARDO CHAGAS —
Na fronteira, eu fui parado por um agente que queria saber quanto eu tinha no bolso. Falei que não tinha nada, tinha ido para a Espanha como artista, não sabia que estava tão cara e tinha gastado tudo, mas que estava com meu grupo em Portugal. Ele pegou meu passaporte e não me autorizou passar. Foi uma queda de braço. Fiquei duas horas batendo cabeça com o cara, pensando, eu to ferrado. Aí pedi para falar com o superior dele. E isso funciona lá. Meia hora depois ele veio, mostrei os cartazes da peça. Ele falou “eu não estou acreditando em você, não, mas pode passar”. Assim que passei, peguei uma carona!

MIGUEL ARCANJO PRADO — Sua sorte mudou?
EDUARDO CHAGAS —
Sim. Eu cruzei a fronteira e a energia virou. Peguei uns portugueses gente fina, todos felizes por eu ser brasileiro. Me convidara para comer na casa deles, para dormir, e era uma casa muito simples. Estava muito calor e todos colocaram o colchão para fora, para dormir. Eu vi aquele sol estrelado e procurava o Cruzeiro do Sul. E eu chorava pra caralho. Tinha 32 anos, perdido naquele lugar no interior de Portugal, meus filhos no Brasil longe de mim. Eu nunca vou me esquecer da sensação que senti naquele dia, com aquela generosidade daqueles portugueses, que tiraram o mito da grossura, demonstrando uma doçura incrível, e com aquela profusão de sentimentos que vivi.

MIGUEL ARCANJO PRADO — Conseguiu voltar ao Brasil?
EDUARDO CHAGAS —
Voltei para o Brasil e fiquei sem ver o Satyros por uns bons anos. Eles ficaram por lá na Europa. Aí fui trabalhar como arte-educador, trabalhei seis anos, mas aquilo estava me deixando doente. Trabalhava das oito às cinco dando aula para criança e adolescente. E no sábado era voluntário em uma clínica de saúde mental no Jaçanã. E não fazendo teatro. Aquilo foi me pirando. Foi quando o Paulo Fabiano me falou: o Zé Edu Neves está começando O Casamento do Pequeno Burguês, do Brecht. Fui e consegui o papel. Então, para o diretor de onde trabalhava que estava saindo. Eu sou assim, cara, se eu tenho que falar, eu falo para você, na boa. Eu sou franco. Entrei para a peça, era um gago, e foi muito divertido. Aí o Paulo abriu o Teatro X e me chamou para trabalhar com eles em Prometeu Enjaulado. Aí começou o ciclo de tragédias. Durante quatro anos o X foi uma escola para mim, junto com o Celso Cruz, um dramaturgo generoso, que entende do mundo e do submundo que está rolando agora.

Eduardo Chagas ao lado do cartaz que mostra ele em cena de Os 120 Dias de Sodoma: sucesso de público por seis anos - Foto: Miguel Arcanjo Prado

Eduardo Chagas ao lado do cartaz que mostra ele em cena de Os 120 Dias de Sodoma: sucesso de público por seis anos – Foto: Miguel Arcanjo Prado

MIGUEL ARCANJO PRADO — E quando voltou ao Satyros?
EDUARDO CHAGAS —
Foi quando o Teatro X saiu da praça Roosevelt e acabou meu ciclo com eles. Aí o Rodolfo me convidou para fazer Os 120 Dias de Sodoma. Quando eu assisti A Filosofia na Alcova pela primeira vez, lá em 1990, eu falei com ele que não teria coragem de fazer essa peça. E ele riu. Aí, mais de dez anos depois, ele já chegou: “Edu, eu vou te colocar numa peça mas vai ter de ficar pelado”. Eu falei, porra Rodolfo, estou com 45, 50 anos, não tenho mais problema. Vamos lá.

MIGUEL ARCANJO PRADO — A peça foi um sucesso de público. Foi fazendo ela que conheci seu trabalho, logo que cheguei em São Paulo, em 2007.
EDUARDO CHAGAS — Que bacana! Ensaiamos num buraco que ficava embaixo de onde hoje é a SP Escola de Teatro. O lugar reverberava tanto que a gente voltava para casa com dor de cabeça. O Heitor Saraiva, um puta ator, uma figuraça, tinha uma voz potente que ficava girando no porão [risos]. A garotada que fazia as vítimas tinha de entrar em uma corda bamba do cacete. Era importante falar aquilo. Lembro que o Ivam Cabral chegou a falar de fazermos igual ao Filosofia, que parece que é verdade, mas não é. Aí retrucamos e pedimos para fazer de verdade mesmo. Vamos teatralizar tudo! E ficou tudo mais forte. Os consolos enormes, tudo muito alegórico, é um espetáculo que tinha uma imensidão teatral e a gente se divertia. Era divertido fazer.

Eduardo Chagas na entrada da SP Escola de Teatro da praça Roosevelt: peça Os 120 Dias foi criada no porão do edifício - Foto: Miguel Arcanjo Prado

Eduardo Chagas na entrada da SP Escola de Teatro da praça Roosevelt: peça Os 120 Dias foi criada no porão do edifício – Foto: Miguel Arcanjo Prado

MIGUEL ARCANJO PRADO — Como as pessoas reagiam?
EDUARDO CHAGAS — A gente sentia o horror das pessoas, elas vomitavam, nos xingavam, já me xingaram de filho da puta. Acho que foi um espetáculo de sucesso por seis anos pela força política e artística que ele tinha. Que espetáculo fica em cartaz seis anos? Nem Antonio Fagundes! E hoje está voltando com o mesmo apelo. O Rodolfo e o Ivam proporcionam muitas coisas boas pra gente. Essa peça foi uma loucura. Mas não pode mergulhar no furacão da praça Roosevelt. Tem de ter os pés no chão. Porque se entrar no furacão está perdido!

MIGUEL ARCANJO PRADO — Pessoas perfeitas vai para Cuba?
EDUARDO CHAGAS —
Sim. Encerramos agora São Paulo neste domingo, depois vamos para o interior do Estado durante todo mês de outubro. No finalzinho de outubro vamos para Cuba para duas apresentações. Depois, quando voltar, ripa na chulipa para Pessoas Sublimes, a próxima peça do Satyros que estreia no fim do ano. Vou fazer Wilson, um homem do campo que vem para a cidade, morar com o irmão em um condomínio fechado na beira da represa.

MIGUEL ARCANJO PRADO — Por que você faz teatro?
EDUARDO CHAGAS —
Eu escolhi ser ator. E ator de teatro. Até faço alguma coisa em televisão, em cinema, mas não falto no teatro, não largo essa minha profissão por nada. O teatro é meu pai, minha mãe, meu professor e meu punidor. Tudo que sei hoje devo a este espaço escuro onde há muito trabalho que ninguém imagina. O que a gente faz um gerente de banco não poderia fazer. Miguel, é o seguinte: sempre a gente tem uma coisa pra dizer. E eu acho que a nossa profissão é uma profissão que pode dizer. E que deve dizer. O teatro tem mais de 2.500 anos e ninguém derrubou ainda. E isso tem uma razão muito forte: o teatro mexe com as pessoas. Mexe com libido, moral, sensações, sentimentos. E, cada vez que me coloco no lugar de uma pessoa, para fazer um personagem, o mundo se abre de tal forma para mim que não dá para eu catar tudo. É muito conhecimento. Eu sei que eu vou morrer devendo conhecimento pra caralho, mas o teatro me deu a possibilidade de ter mais do que eu poderia ter na vida como ser humano. Me mostrou cara, bocas, pensamentos, situações que hoje a gente vê e fala assim: porra, eu estou num palco 24 horas por dia. Só que em um a gente conta mentira e no outro a gente conta verdade. Na vida, eu sou persona, me adapto a qualquer coisa. O teatro me dá a possibilidade de ser e de entender o que gira à minha volta. E isso é o mais importante. Eu tenho de entender o que está rolando.

Eduardo Chagas, na praça Roosevelt, centro de São Paulo - Foto: Miguel Arcanjo Prado

Eduardo Chagas, na praça Roosevelt, centro de São Paulo: “O teatro é meu pai, minha mãe, meu professor, meu punidor” – Foto: Miguel Arcanjo Prado

 

 

 

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1 Resultado

  1. Ricardo disse:

    O Edu Chagas, além de excelente ator é um dos artistas mais dignos e éticos que tive o prazer de conhecer. Em tempos de tanta superficialidade e com artistas medíocres e musicais banalizantes, é bom saber que a arte e o teatro estão vivos através de atores como ele. VIVA O TEATRO!

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