Daniel Martins: Que Horas Ela Volta? nos faz pensar

Daniel Martins - Foto: Divulgação

Daniel Martins – Foto: Divulgação

Por DANIEL MARTINS*
Colaboração especial, de Belo Horizonte (MG)

Nos últimos tempos, um dos temas que mais mexeu comigo foi o do filme Que Horas Ela Volta?. Pensei em discuti-lo um pouco em meu texto de estreia neste espaço, mas diante de tanta coisa dita, comecei a considerar desnecessário.

Várias análises publicadas já contemplam basicamente tudo o que teria a dizer sobre a obra, assim como outras apontam na direção diametralmente oposta. Resolvi então procurar outro tema. Mas se o filme de Anna Muylaert tem uma característica é a de se fazer presente.

Dono de uma construção narrativa que prende o espectador, Que Horas Ela Volta? trouxe à tona o debate sobre a relação entre patrões e empregadas, sobretudo domésticos, que vez por outra insiste em aparecer.

Foi assim com a chamada PEC das domésticas, está sendo assim agora. Mereceu reportagem no Fantástico, apresentando a convivência pacífica entre dois mundos cindidos socialmente, mas que acabam por compartilhar um espaço artificialmente dividido.

Para a surpresa de muitos, a reportagem ressaltava o bom relacionamento entre patrões e empregadas, aqueles “quase da família”. Vendo aquilo, me perguntava se quem propôs a matéria havia assistido ao filme de Muylaert.

Críticas merecidas fizeram com que a atração global produzisse o que chamou de “segunda parte” da matéria, no domingo seguinte, desta feita mostrando o outro lado da moeda.

Que Horas Ela Volta representa Brasil na corrida pelo Oscar: há 30 anos uma diretora mulher não tinha este espaço - Foto: Divulgação

Que Horas Ela Volta representa Brasil na corrida pelo Oscar: há 30 anos uma diretora mulher não tinha este espaço – Foto: Aline Arruda

Neste meio tempo, surgiu a polêmica envolvendo Claudio Assis, cineasta responsável por filmes como Amarelo Manga, e o também cineasta Lírio Ferreira, acusados de desrespeitarem Ana Muylaert durante um debate realizado em Recife, utilizando-se para isto de uma conduta notadamente machista.

Ainda na esteira dos acontecimentos, a diretora, que viu seu filme ser premiado no Festival de Berlim e elogiado em importantes jornais dos Estados Unidos, França, Inglaterra e Espanha, falou da dificuldade para conseguir trabalhos em um universo dominado por homens, alegando que nem mesmo a ótima repercussão do longa foi suficiente para render qualquer convite para trabalhos futuros.

Que Horas Ela Volta? acabou indicado pelo Ministério da Cultura como filme para representar o Brasil no Oscar 2016, mais uma forma de reconhecimento ao trabalho da diretora e de toda sua equipe. Ao mesmo tempo, reforça o que Ana diz. Nos últimos trinta anos, seu filme é o primeiro dirigido por uma mulher a ser escolhido para representar o País na premiação.

Empregada e patroa: Que Horas Ela Volta nos faz pensar - Foto: Aline Arruda

Empregada e patroa: Que Horas Ela Volta nos faz pensar – Foto: Aline Arruda

Além de um ótimo entretenimento, Que Horas Ela Volta? é, parafraseando o antropólogo Levi-Strauss, “bom para pensar”.

Pensar nas relações entre patrões e empregados, e mesmo entre as diferentes classes que compõem este Brasil tão estratificado e desigual; na maneira como a mulher é tratada em nosso cotidiano, vítima de um machismo que parece entranhado em nós; na diferença de tratamento dada a profissionais de áreas correlatas e talento similares em função de seu gênero. Ou ainda, bom para pensar em nós mesmos e em como nos relacionamos com todas estas questões.

Antes de assistir ao filme de Ana Muylaert, jamais havia reparado que os banheiros de empregada, existentes em todos os apartamentos em que já morei, não contavam sequer com uma pia.

O maior mérito de Que Horas Ela Volta?, tal como sua personagem Jéssica, é o de nos fazer pensar.

*DANIEL MARTINS é bacharel em Ciências Sociais e mestre em Sociologia pela UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais). Dedicado à Sociologia da Cultura, faz doutorado em Sociologia na Unicamp (Universidade Estadual de Campinas).

Regina Casé em cena do filme Que Horas Ela Volta?, de Ann - Foto: Divulgação

Regina Casé em cena do filme Que Horas Ela Volta?, de Anna Muylaert – Foto: Divulgação

 

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