Entrevista de Quinta: Marcelo Drummond e Sylvia Prado perdem virgindade com Plínio Marcos

Marcelo Drummond e Sylvia Prado como Vado e Neusa Sueli em Navalha na Carne - Foto: Jennifer Glass

Marcelo Drummond e Sylvia Prado como Vado e Neusa Sueli em Navalha na Carne – Foto: Jennifer Glass

Por MIGUEL ARCANJO PRADO
Fotos JENNIFER GLASS

Bastiões do elenco do Teat(r)o Oficina, Marcelo Drummond e Sylvia Prado se unem a Tony Reis para perder a virgindade em um papel criado por Plínio Marcos, na mais recente montagem do texto clássico Navalha na Carne.

Trata-se de m explosivo triângulo do submundo, formado por um cafetão, uma prostituta e um homossexual que também faz vida. Após ser apresentada no Sesi, a obra estreia no Oficina neste fim de semana com sessão dupla no sábado, às 21h e 23h, e única no domingo, às 20h [veja serviço ao fim].

Sylvia e Marcelo conversam nesta Entrevista de Quinta sobre o projeto, que surgiu pelas comemorações dos 80 anos de nascimento do dramaturgo paulista que morreu em 1999 e já faz parte da história do teatro brasileiro no século 20. Nesta conversa, os atores desvendam um pouco da construção da obra e de seus personagens, além de explicitar suas relações com o autor.

Leia com toda a calma do mundo.

Marcelo Drummond e Tony Reis em cena de Navalha na Carne, de Plínio Marcos - Foto: Jennifer Glass

Marcelo Drummond e Tony Reis em cena de Navalha na Carne, de Plínio Marcos – Foto: Jennifer Glass

MIGUEL ARCANJO PRADO — É a primeira imersão de vocês num texto de Plínio em cena?
MARCELO DRUMMOND – Dirigi O Assassinato do Anão do Caralho Grande em 2011, mas como ator é a primeira.
SYLVIA PRADO – Sim. É a primeira vez. Tinha feito um trecho de Mancha Roxa, numa montagem de Kiko Marques, no Indac, tinha brincado de Dona Ciloca no Assassinato do Anão do Caralho Grande, com direção de Marcelo Drummond, mas pela primeira vez me deparei com Plínio, com o tempo e a concentração que ele (texto, obra, poeta) merece.

MIGUEL ARCANJO PRADO — Foi você que escolheu esse texto de Plínio, Marcelo?
MARCELO DRUMMOND – Fui convidado pelo Silvio Guindane, que fez o projeto junto ao Sesi da comemoração dos 80 anos do Plínio. Num primeiro momento Silvio me convidou pra apresentar o Assassinato do Anão do Caralho Grande e montar uma nova peça de Plínio Marcos, e eu já tinha vontade de trabalhar com Navalha na Carne, justamente com Sylvia, Fred (Steffen) e Tony (que já fazia o Assassinato do Anão). Mas com os cortes de verba, quando o Silvio me procurou, era pra fazer somente o Anão – e Navalha, que tínhamos falado, talvez nem acontecesse, mas aí preferi montar uma nova peça. Depois de começarmos os ensaios Fred não pode fazer, e então assumi o papel de Vado.

Marcelo Drummond é vado em Navalha na Carne - Foto: Jennifer Glass

Marcelo Drummond é vado em Navalha na Carne – Foto: Jennifer Glass

MIGUEL ARCANJO PRADO — Como vocês descreveriam essa montagem?
MARCELO DRUMMOND – Não sei fazer isso, principalmente quando estou em cena. É muito difícil dirigir e atuar. O diretor tem que ter um espirito crítico e, como ator, eu perco completamente esse espírito.
SYLVIA PRADO – Fico tentando achar a palavra exata… Não acho. São caminhos, acasos. Silvio Guindane chamou Marcelo, que chamou a mim, chamou Tony, chamou Fred… E desse ponto até hoje, tantas coisas aconteceram… Numa lógica ilógica… Cosmológica. É uma desmontagem… A Navalha na Carne nos desmonta.

MIGUEL ARCANJO PRADO — Toda a equipe é do Teatro Oficina. Em que a montagem se aproxima da linguagem da companhia?
MARCELO DRUMMOND – Aproxima do Oficina no humor, principalmente. Plínio, nessa peça, tem a verve do palhaço; pode ser horrível o que se fala, mas é muito engraçado, não tem nada a ver com o humor politicamente correto. A ideia é tirar essa peça de realismo-naturalismo, da violência física e deixar o texto à frente; a violência está no verbo, que, ao mesmo tempo, é muito engraçado.

Sylvia Prado é Neusa Sueli em Navalha na Carne - Foto: Jennifer Glass

Sylvia Prado é Neusa Sueli em Navalha na Carne – Foto: Jennifer Glass

MIGUEL ARCANJO PRADO — Que características vocês destacariam dessa montagem?
SYLVIA PRADO – A presença. O jogo que Marcelo Drummond evidencia como diretor, e que traz no corpo como ator-diretor, nos obriga a todos – atores, iluminadores, videastas, figurinistas, coreógrafos, arquitetos, diretores de cena, público, todos – a estarmos presentes. Vivos ao vivo. Cada dia será um dia, como todo bom teatro é.

MIGUEL ARCANJO PRADO — Marcelo, você conheceu Plínio Marcos. Isso muda algo na hora de encarar o seu texto?
MARCELO DRUMMOND – Conheci Plínio vendendo os livros pela noite de São Paulo, mas nunca fui amigo dele. Se falei com ele, falei pouquíssimas vezes. Lembro muito dele no teatro Oficina em 1999, numa entrevista que ele deu sobre Cacilda.

MIGUEL ARCANJO PRADO — Sylvia, existe uma linha na construção de Neusa Sueli que diz respeito também às mulheres às quais você tem dado vida no Oficina?
SYLVIA PRADO – O texto como pérola. Preciosidade. A poesia. A boa dramaturgia. Essa é a linha que trilha o caminho de Neusa Sueli e se equipara às mulheres que vivi no Oficina. A segunda vez que li o texto de Plínio, ele não coube em minha boca, como por vezes a métrica do dramaturgo Zé não cabe. Essa é a delícia do teatro, poder dizer algo menos cotidiano e absurdamente planetário. Quando foi escrito, dizem, esse texto deu voz ao submundo; hoje ele dá voz ao mundo todo, “a desforra do mundo de merda que está aí…” Neusa Sueli é o microcosmo de bilhões de seres. Ela se equipara a outras personagens fictícias e verídicas. Está espelhada em outras mulheres, homens, veados, héteros, bichos, plantas… Ela é o Agora.  Eles – Vado, Veludo, Neusa – são o Agora.

Foto: Jennifer Glass

“Neusa está espelhada em outras mulheres, homens, veados, héteros, bichos, plantas”, diz Sylvia Prado – Foto: Jennifer Glass

Navalha na Carne
Texto:
Plínio Marcos
Direção: Marcelo Drummond
Elenco:
Marcelo Drummond, Sylvia Prado e Tony Reis
Data:
De 17 de outubro a 08 de novembro
Local:
Teat(r)o Oficina (Rua Jaceguai, 520. Tel: 11. 3106-2818)
Ingressos: R$40,00 (inteira), R$20,00 (meia) e R$5,00 (moradores do Bixiga). Compras na bilheteria do teatro (uma hora antes de cada sessão), ou online, através do site da Compre Ingressos
Horários:
Sábados com duas sessões, às 21h e 23h, e domingos, às 20h
Indicação etária:
16 anos
Duração:
60 minutos

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