Artistas criticam ministra Kátia Abreu na abertura do 10 º Fentepira

Fernando Cruz em Tekohá, na abertura do Fentepira - Foto: Divulgação

Teatro Imaginário Maracangalha apresenta questão do índio: Fernando Cruz em cena de Tekohá, na abertura do Fentepira – Foto: Divulgação

Por MIGUEL ARCANJO PRADO
Enviado especial a Piracicaba (SP)*

A ministra da Agricultura, Kátia Abreu, foi duramente criticada na abertura do 10º Fentepira (Festival Nacional de Teatro de Piracicaba), no interior de São Paulo, na manhã deste sábado (7). Também houve críticas ao governo do Mato Grosso do Sul, por conta do descaso com a questão indígena.

Os piracicabanos encheram a praça José Bonifácio, mesmo com a previsão de chuva, que ao fim não caiu. Eles viram a peça Tekohá – Ritual de Vida e Morte do Deus Pequeno, do Teatro Imaginário Maracangalha, de Campo Grande (MS). A saga épica contou a história do líder guarani Marçal de Souza, assassinado por resistir pelas terras indígenas.

O grupo comoveu o público. Ao fim, o diretor, Fernando Cruz, discursou contra as políticas públicas para os povos indígenas no Brasil. E acusou tanto o governo sul-mato-grossense quanto o governo federal de colaborar com “um genocídio” desta população.

“Milícias são mantidas por fazendeiros e governo de Mato Grosso do Sul contra indígenas. Em dez anos, 390 lideranças foram assassinadas e seus assassinos estão impunes até hoje. Estamos vivendo o maior genocídio da história. É preciso falar e denunciar. A ministra Katia Abreu é uma grande financiadora desse massacre. O governo brasileiro até hoje não assinou a demarcação das terras indígenas”, discursou, sendo fortemente aplaudido.

Tekohá celebrou Marçal de Souza, líder indígena assassinado, lembrando ainda de Chico Mendes e de Dorothy Stang, que também foram assassinados por lutarem pelas terras indígenas - Foto: Divulgação

Tekohá celebrou Marçal de Souza, líder indígena assassinado, lembrando ainda de Chico Mendes e de Dorothy Stang, que também foram assassinados por lutarem pelas terras indígenas – Foto: Divulgação

“O lugar do índio na sociedade brasileira é um assunto tratado hoje, infelizmente, da maneira mais estúpida possível. O povo originário desse país está sem terras demarcadas, em condição de miséria, perdendo seu processo de vida milenar e vivendo discriminado, ignorado pela legislação, o poder público e a sociedade. Dentro da sociedade brasileira, o índio é o seguimento mais mal tratado”, afirmou.

“Congresso de corruptos”

Mesmo assim, Cruz consegue enxergar esperança no comportamento do próprio índio.

“Por outro lado, na convivência com os indígenas percebemos que eles sobrevivem, são fortes e estão se organizando para retomar suas terras com muita coragem. Embora o Estado brasileiro não o reconheça, o índio não perdeu o reconhecimento do que lhe é de direito. Isso é fundamental e um exemplo também para nós não perdermos nossos direitos que estão sendo derrubados por esse Congresso de corruptos que temos em nosso país”, declarou.

“Espaço da diversidade”

Valdir Rivaben, um dos curadores do Fentepira, gostou do que viu na abertura. “Achei muito contundente a proposta do grupo em denunciar a situação do povo indígena. O teatro tem também essa função da denúncia política”, falou. E lembrou ainda que o Fentepira “é um momento importante para quem faz teatro na cidade, de conhecer outros grupos e linguagens”.

Secretária Municipal de Ação Cultural de Piracicaba, Rosângela Camolese disse que o Fentepira é o “espaço da diversidade”. Ela celebrou a décima edição e lembra a importância do acesso gratuito da população aos espetáculos. “Isso é política pública”, definiu.

Eduardo Mossri, em cena de Cartas Libanesas: questão imigrante no Fentepira - Foto: Felipe Stucchi

Eduardo Mossri, em cena de Cartas Libanesas: questão imigrante no Fentepira – Foto: Felipe Stucchi

Imigrantes

Até 15 de novembro, serão 17 apresentações, das quais dez espetáculos da Mostra Oficial, aberta com Cartas Libanesas, no Teatro do Sesi, na noite do mesmo sábado (7). A montagem com o ator Eduardo Mossri conta a história de Miguel, um imigrante libanês no Brasil no começo do século 21. O ator remete a seus próprios antepassados, já que é descendente de libaneses, nesta obra dirigida por Marcelo Lazzaratto e escrita por José Eduardo Vendramini.

Ao fim, o ator debateu com o público a peça. Na pauta, entrou o tratamento preconceituoso que muitos brasileiros têm dado a imigrantes provindos da África e da América Latina na atualidade.

Alexandre Mate, pesquisador do teatro e professor da Unesp, que acompanha o Fentepira, elogiou a montagem, dizendo que o ator “está bem mais maduro”. E ainda parafraseou Kant: “Uma bela obra estremece de prazer um sujeito sensível”.

Caleidoscópio teatral

O prefeito de Piracicaba, Gabriel Ferrato (PSDB), afirmou que Piracicaba fincou seu lugar no mercado artístico paulista. Para ele, o Fentepira é prova disso.

“Todas as atividades artísticas têm espaço na cidade. Procuramos reforçar a sobrevivência do teatro e o seu desenvolvimento, que é a formação de público. Enquanto o Brasil vê diminuir seu público teatral, em Piracicaba ele aumenta. Estamos indo contra a maré”, declarou.

Fábio José Rodrigues, gerente Sesc Piracicaba, um dos parceiros do evento, contou que as atividades fazem emergir novas questões artísticas na cidade: “Apoiamos o evento há dez anos sempre no sentido da questão educacional de formação de público e de promover o diálogo com a comunidade”.

Jorge Vermelho, curador do evento ao lado de Valdir Rivaben, revelou que a proposta da curadoria é “identificar inquietudes nos grupos” e “propor uma discussão da cena atual”: “Neste festival conseguimos criar um recorte de diferentes estéticas e diferentes processos. O Fentepira é um caleidoscópio teatral”.

*O jornalista MIGUEL ARCANJO PRADO viajou a convite do Fentepira.

Conheça o site do Fentepira!

Público acompanha abertura do 10º Fentepira com o Teatro Imaginário Maracangalha, na praça José Bonifácio, centro de Piracicaba - Foto: Divulgação

Diverso e democrático: público acompanha abertura do 10º Fentepira com o Teatro Imaginário Maracangalha, na praça José Bonifácio, centro de Piracicaba – Foto: Divulgação

 

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1 Resultado

  1. Phillipe disse:

    Tenho diminuído minha participação no blog porque, em relação àquilo do qual discordo, prefiro não opinar porque, caso contrário, fico parecendo um chato. Mas, desta vez, tenho de me manifestar: até que enfim o povo de Teatro está se manifestando contrariamente a este governo atual. Que bom! Os avanços do governo atual devem ser aplaudidos, mas seus erros também devem ser explicitados. E, no que tange à questão indígena, o atual governo tem falhado muito. Corretíssima a manifestação. Concordo realmente quanto ao papel da arte de denúncia política. Pessoalmente, penso que a arte pode ser entretenimento, porém pode ter funções maiores também. E sou sincero de confessar que não me agrada a arte transgressora, agressiva, iconoclasta, que sai chamando todos de “caretas” porque cada um é único em sua criação. Em vez de ficar apontando o dedo para os outros, chamando de “caretas”, a Arte faz melhor seu papel quando faz denúncias políticas em favor de minorias socialmente oprimidas. Aplaudo a iniciativa!

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