Com homens soterrados, Lodo denuncia ganância capitalista no 10º Fentepira

Cena da peça Lodo, com no 10º Fentepira - Foto: Rodrigo Alves

Cena da peça Lodo, apresentada no 10º Fentepira: opressor e oprimido num mesmo buraco – Foto: Rodrigo Alves

Por MIGUEL ARCANJO PRADO
Enviado especial a Piracicaba (MG)*

Ao ver dois seres soterrados no espetáculo Lodo, apresentado no 10º Fentepira (Festival Nacional de Teatro de Piracicaba), na última segunda (9), foi impossível deixar de fazer remissão ao crime ambiental acontecido na última semana em Mariana (MG),  quando uma barragem da mineradora Samarco se rompeu, fazendo desaparecer um povoado.

Esta é a força do teatro: conversar com seu presente e fazer pensar. Apresentada no Engenho Central de Piracicaba, cidade do interior paulista, a obra da Cia. Te-Ato de Teatro demonstrou potência, inebriando o público em uma noite de forte discurso social.

A montagem expõe dois homens caídos em um buraco, onde encontram-se perdidos e em confronto. Eles são vividos por João Scarpa e Ricardo Araújo, este último também dramaturgo da obra.

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Ricardo Araújo e João Scarpa em cena da peça Lodo, apresentada no 10º Fentepira – Foto: Rodrigo Alves

O fator impulsionador para o trabalho foi denunciar o trabalho análogo à escravidão, ainda presente, infelizmente, não só em Piracicaba e São Paulo como em todo o Brasil, por conta da ganância insaciável de muitos.

A denúncia está ali, desde a entrada do público, que se depara com fotos atuais de condições desumanas de trabalho. E também dentro do buraco recriado no palco, no qual estão os personagens e onde a relação de opressor e oprimido também está instaurada, como se o inferno capitalista sobrevivesse até mesmo fora de seus domínios, perpetuado nas mentes subjugadas com seu discurso de desvalorização do outro.

A peça dialoga ainda com as artes plásticas, fazendo surgir pinturas rupestres na parede daquela cova, que magicamente se transformam em objetos utilizados pelos personagens.

Lodo denuncia sanha capitalista que subjuga o homem - Foto: Rodrigo Alves

Lodo denuncia sanha capitalista que subjuga o homem – Foto: Rodrigo Alves

Araújo dá vida um operário simples, Neguito, que, mesmo caído no buraco, reencontra aí seu dominador, Zenildo, que já estava por lá à sua espera. Nem no campo da aflição a sanha opressora parece encontrar fim.

Com talento evidente, Scarpa se destaca na obra ao construir seu personagem com boa dose de sanha sádica e interessantes nuances que se potencializariam ainda mais com silêncios cuidadosamente colocados.

O afã de submeter o outro encontra acolhimento no comportamento quase masoquista de Neguito, o dominado — em certo momento há até uma sugestão homoerótica entre os personagens, mas que não encontra maior desenvolvimento, contudo, deixa indícios que a obra pelo menos tentou tanger o campo da sexualidade e da psicologia.

Lodo é teatro corajoso, que não tem medo de assumir discurso sociopolítico, algo tão necessário, mas infelizmente cada vez mais raro em uma cena repleta de peças vazias e empacotadas com laços de fita para o consumo fácil. Lodo mostra que é possível haver saída deste lamaçal sem fim.

*O jornalista MIGUEL ARCANJO PRADO viajou a convite do Fentepira.

Conheça o site do Fentepira! 

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2 Resultados

  1. Phillipe disse:

    Além das peças empacotadas com laço de fita, creio que há algumas que são agressivas simplesmente para angariar público por conta de polêmicas. Que LODO é uma peça atual, eu não tenho dúvida, mas, muito sinceramente, confesso que prefiro a peça empacotada com laço de fita àquela que é agressiva simplesmente por conta de uma forma de pensar iconoclasta. Há público para todos os gostos e certamente não sou público para essas peças ácidas. Rebelde sem causa, para mim, só o James Dean em JUVENTUDE TRANSVIADA. E mesmo assim nem foi meu filme predileto dele… Prefiro ASSIM CAMINHA A HUMANIDADE, com a estonteante Liz Taylor e seus maravilhosos olhos violeta.

  1. novembro 13, 2015

    […] denúncia muito atual sobre a ganância capitalista, como bem lembrou o colega Miguel Arcanjo Prado em seu texto sobre o espetáculo. Lodo é a sede incessante por fortunas. É o que afundou a população ribeirinha de Minas Gerais, […]

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