Entrevista de Quinta: “Tirar máscaras sociais é mais difícil que tirar a roupa”, diz Danielle Rosa, atriz do Oficina

Danielle Rosa, no camarim do Teat(r)o Oficina - Foto: Jennifer Glass/Fotos do Ofício

Danielle Rosa, no camarim do Teat(r)o Oficina – Foto: Jennifer Glass/Fotos do Ofício

Por MIGUEL ARCANJO PRADO

“Eu tive um sonho. Sonhei com saltos numa noite cristal, numa cama redonda em chamas, cheia de arfares do vento, numa rua cheia de orações da madrugada,  era noite de lua cheia!” É assim, repleta de poesia, que Danielle Rosa, uma das atrizes mais interessantes e intensas do Teat(r)o Oficina começa nossa conversa.

Baiana de Vitória da Conquista radicada em São Paulo, com seu jeito doce e sua presença cênica incontestável, ela se tornou uma das musas do espaço comandado por José Celso Martinez Corrêa.

Às vésperas de estrear a nova peça da trupe, Mistérios Gozósos, no próximo dia 20 de novembro, em São Paulo, a atriz aceitou o convite de participar de nossa Entrevista de Quinta. Falou sobre a vida, contou que passará Natal e Ano-Novo no palco, revelou que quer fazer mais cinema e deixou escapar a saudade que sente da Bahia.

Leia com toda a calma do mundo.

Danielle Rosa, a musa do Oficina - Foto: Jennifer Glass/Fotos do Ofício

Danielle Rosa, a musa do Oficina – Foto: Rafa Ela

MIGUEL ARCANJO PRADO — Como está a reta final de ensaios de Mistérios Gozósos?
DANIELLE ROSA — Estamos ensaiando na viração. Criação todos os dias do momento da chegada até depois da meia-noite.  O elenco chega a partir das 15 h, mas  as outras áreas chegam pela manhã para as montagens de arquitetura cênica, luz, som e figurino. Tudo muito intenso!

MIGUEL ARCANJO PRADO — O Oficina exige uma carga enorme de entrega dos atores. Para você o processo de ensaio é exaustivo?
DANIELLE ROSA — Eu gosto da imersão no ensaio, principalmente quando entramos no jogo juntos. Há o cansaço, sim, mas descobre-se grandes potências criativas na exaustão.

MIGUEL ARCANJO PRADO — Quem você fará nesta peça? 
DANIELLE ROSA — Serei Rosa, uma das putas do Mangue. É uma peça do coro protagonista.

A atriz Danielle Rosa - Foto: Jennifer Glass/Fotos do Ofício

A atriz Danielle Rosa – Foto: Jennifer Glass/Fotos do Ofício

MIGUEL ARCANJO PRADO — O Zé Celso prometeu peça no Natal e no Ano-Novo. Como vai ser ficar em São Paulo nesta época do ano? 
DANIELLE ROSA — Então… Fiquei em São Paulo nestas datas em 2010 e 2011 e é claro que é bem diferente, mesmo sendo verão eu me lembro de ter sentido frio. Todo ano vou para a Bahia ficar com minha família neste período e só retorno depois do Carnaval, mas quando esta proposta surgiu, achei interessante para mudar as sensações, criar outras ações e também por que nunca fiz espetáculos em nenhuma das duas datas. Bem, o colo de mainha vai me receber em fevereiro para muitos afagos.

MIGUEL ARCANJO PRADO — Você é de Vitória da Conquista, na Bahia. Como é sua relação hoje com sua terra?
DANIELLE ROSA — Tenho uma boa relação  com Conquista, ultimamente tenho ido uma vez por ano, mas fico mais de um mês, tenho uma história bonita com a terra das Rosas, foi dos arredores do antigo Arraiá da Ressaca que nasceu minha família. Bebi muita água de açude, comi e como muita carne de carneiro, muito biscoito de polvilho, andei em muita terra vermelha. Tudo aquilo é também o que sou!

Danielle Rosa abraça sua mãe, em Vitória da Conquista, Bahia, sua terra natal - Foto: Arquivo pessoal

Danielle Rosa abraça sua mãe, em Vitória da Conquista, Bahia, sua terra natal – Foto: Arquivo pessoal

MIGUEL ARCANJO PRADO — Você também passou por Salvador, onde estudou na UFBa. Sente falta de lá? 
DANIELLE ROSA — Salvador foi minha segunda cidade do coração. A capital do meu sangue é uma grande referência para coisas que acredito. O cheiro do mar, do acarajé na beira da praia, as cores, os sons dos atabaques das casas, o swing baiano, o Porto da Barra, a Residência Universitária, a Escola de Teatro da UFBa, meus grupos, os festivais, o carnaval. Claro que sinto falta!

MIGUEL ARCANJO PRADO — O que você mais gosta e o que você mais odeia em São Paulo?
DANIELLE ROSA — Eu adoro o que São Paulo me proporciona tanto na profissão, como na vida pessoal. Eita cidade cheia de possibilidades! Mas, ela me afasta fisicamente de minha família, de grandes amigos, das águas da Bahia, daquelas festas diurnas com batuques. Eu odeio o que a especulação imobiliária faz com a cidade.  São Paulo é concreto cinza vertical. A natureza perde espaço para os prédios, os shoppings, quando poderiam ser aprovados os projetos de ligação de bairros através dos rios que hoje estão em baixo do asfalto, com mais espaços para pedestres, ciclistas, para o verde.

Danielle Rosa, em cena de Walmor y Cacilda 64 - O Robogolpe - Foto: Jennifer Glass/Fotos do Ofício

Danielle Rosa, em cena de Walmor y Cacilda 64 – O Robogolpe – Foto: Jennifer Glass/Fotos do Ofício

MIGUEL ARCANJO PRADO — O que mudou em você depois de entrar para o Oficina?
DANIELLE ROSA — Muita coisa mudou e continua mudando. Lembro que quando entrei tive uma nova percepção da atuação e a partir de então, em cada processo criativo algo foi e é transformado. Viver o aqui e agora no teato é estar ligado em tudo e todos e aberto às criações, as possibilidades.

MIGUEL ARCANJO PRADO — Você está começando a fazer cinema. Quer estar mais presente também nas telonas?
DANIELLE ROSA — Sim, estou desejando cinema cada vez mais em minha vida! O cinema é uma arte maravilhosa, que encanta muito quem faz e quem vê. Ele traduz sentimentos humanos e os transforma.  É uma arte com delicadeza, minúcia, onde uma multidão se une para transformar desejos, paixões e sonhos em histórias reveladoras para o mundo.

Com Zé Celso e o elenco do Oficina em cena de O Banquete - Foto: Arquivo Oficina

Com Zé Celso e o elenco do Oficina em cena de O Banquete – Foto: Arquivo Oficina

MIGUEL ARCANJO PRADO — Se fosse para você definir o Zé Celso, como faria?
DANIELLE ROSA — Zé é um diretor que tem roteiros vivos tatuados em seu DNA, tem uma energia e vitalidade que nos contagia, instiga. Ele traz a dicotomia, a manifestação das contradições e nunca as coisas são, elas sempre estão em processo para criarmos novas interpretações diariamente, de acordo com o que acontece no mundo cosmo e em nossos mundos.

MIGUEL ARCANJO PRADO — Quem são seus grandes companheiros nos bastidores do Oficina?
DANIELLE ROSA — Sinto que a cada processo descubro novos parceiros que fazem com que o trabalho cresça mais.  Mas os meus parceiros de bastidores, estes são meu ouro e meu diamante!

Danielle Rosa em cena de O Banquete - Foto: Jennifer Glass/Fotos do Ofício

Musa: Danielle Rosa em cena de O Banquete – Foto: Jennifer Glass/Fotos do Ofício

MIGUEL ARCANJO PRADO — Logo que você surgiu no Oficina, imediatamente foi alçada à condição de nova musa da trupe. Como lida com isso?
DANIELLE ROSA — Ah, eu assumo, por que somos musos e musas!MIGUEL ARCANJO PRADO — Como foi lidar com as questões do corpo, de estar nua em muitas cenas. Foi difícil para você no começo? 

Como foi tornando isso natural?
DANIELLE ROSA — Lido e trabalho com as questões do corpo desde a adolescência quando comecei fazer teatro, não tenho muitos problemas com isso, conheço muito bem o meu corpo, sei dos meus limites. Lembro do primeiro espetáculo que atuei no Oficina Macumba Antropófaga. Depois que aconteceu o primeiro ensaio corrido eu achei tudo muito natural. Na verdade, estar na pista é estar nu, roupa é um acessório, muitas vezes você pode estar vestido com máscaras sociais mesmo estando nu e esse trabalho de tirar essas couraças é muito mais difícil do que tirar a roupa.
Danielle Rosa em cena de O Banquete: atriz lida com nudez em cena de forma natural - Foto: Claire Jean

Danielle Rosa em cena de O Banquete: atriz lida com nudez em cena de forma natural – Foto: Claire Jean

MIGUEL ARCANJO PRADO — Qual é o grande recado de Mistérios Gozosos na sua visão? 
DANIELLE ROSA — Os mistérios estão nas sutilezas, no arfar sussurrado, no escuro úmido do mangue, na auréolas santas. É o mistério da vida, do princípio de tudo, que está tatuado pelo tempo em nossas entranhas. É cio. Amor. Libido. Não podemos esquecer o que somos, sem esse alimento  não existe vida, não existe nada.MIGUEL ARCANJO PRADO — Quando não está no teatro, o que mais curte fazer?
DANIELLE ROSA — Adoro pra beber um bom vinho, dançar, ouvir música em casa com amigos. Cuidar de minhas plantas, ficar com meu gato, cozinhar com mainha.

Danielle Rosa se prepara nos bastidores do Oficina - Foto: Jennifer Glass/Fotos do Ofício

Danielle Rosa se prepara nos bastidores do Oficina – Foto: Jennifer Glass/Fotos do Ofício

MIGUEL ARCANJO PRADO — Por que você faz teatro?
DANIELLE ROSA — Por muitos motivos. Um deles é pelo fato de querer sempre a transformação de algo. O teatro faz isso, transforma a cada processo, instiga o pensamento, a criação traz questões que nos faz sempre duvidar para trazer o desejo de sempre florir. É um movimento do presente, da presença viva dessa transformação que parte do ínfimo-eu passa pelo outro e irradia para o cosmo. E muitas transformações precisam acontecer no mundo!!!

Danielle Rosa faz pirofagia no Oficina: "Muitas transformações precisam acontecer no mundo" - Foto: Jennifer Glass/Fotos do Ofício

Danielle Rosa faz pirofagia no Oficina: “Muitas transformações precisam acontecer no mundo” – Foto: Jennifer Glass/Fotos do Ofício

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Danielle Rosa, fazendo música com os colegas do Oficina – Foto: Jennifer Glass/Fotos do Ofício

Com o elenco do Oficina na Odisseia das Cacildas - Foto: Jennifer Glass/Fotos do Ofício

Com o elenco do Oficina na Odisseia das Cacildas – Foto: Jennifer Glass/Fotos do Ofício

Danielle Rosa, entre Sylvia Prado e Letícia Coura, no palco do Oficina - Foto: Nash Laila

Danielle Rosa, entre Sylvia Prado e Letícia Coura, no palco do Oficina – Foto: Nash Laila

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A atriz Danielle Rosa – Foto: Denys Flores

Danielle Rosa - Foto: Jennifer Glass/Fotos do Ofício

Danielle Rosa no camarim do Oficina – Foto: Jennifer Glass/Fotos do Ofício

Mistérios Gozósos
Quando: 
2015
20 de novembro – Sexta, 21h
21 de novembro – Sábado, 21h
22 de novembro – Domingo, 19h
27 de novembro – Sexta, 21h
28 de novembro – Sábado, 21h
29 de novembro – Domingo, 19h
04 de dezembro – Sexta, 21h
05 de dezembro – Sábado, 21h
06 de dezembro – Domingo, 19h
11 de dezembro – Sexta, 21h
12 de dezembro – Sábado, 21h
13 de dezembro – Domingo, 19h
18 de dezembro – Sexta, 21h
19 de dezembro – Sábado, 21h
20 de dezembro – Domingo, 19h
23 de dezembro – Quarta, 14h30, sessão especial no rito de Ethernidade de Luis Antônio Martinez Corrêa
25 de dezembro – Sexta, 21h
31 de dezembro – Quinta, 21h

2016
02 de janeiro – Sábado, 21h
03 de janeiro – Domingo, 19h
09 de janeiro – Sábado, 21h
10 de janeiro – Domingo, 19h
11 de janeiro – Segunda, 21h, sessão de aniversário de Oswald de Andrade
16 de janeiro – Sábado, 21h
17 de janeiro – Domingo, 19h
23 de janeiro – Sábado, 21h
24 de janeiro – Domingo, 19h
25 de janeiro – Segunda, 19h, sessão de aniversário de SamPã

Onde: Teat®o Oficina (Rua Jaceguai, 520, Bixiga, São Paulo. Tel: 11. 3106-2818).
Quanto: Sextas – R$40,00 (inteira), R$20,00 (meia) e R$5,00 (moradores do Bixiga). Sábados, domingos e demais sessões especiais – R$50,00 (inteira), R$25,00 (meia) e R$5,00 (moradores do Bixiga). Compras na bilheteria do teatro (uma hora antes de cada sessão) ou no site da Compre Ingressos.
Duração: 180 min.
Indicação etária: 16 anos.
Lotação: 300 lugares.
Legendas em inglês para o público presencial.
Transmissão ao vivo no site do Oficina

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