Crítica: Angélica Liddell atormenta “classe média feliz” em Hysterica Passio

Alessandro Hernandez e Amália Pereira em Hysterica Passio - Foto: Francisco Cruz

Alessandro Hernandez e Amália Pereira em Hysterica Passio – Foto: Francisco Cruz

Por MIGUEL ARCANJO PRADO

Não deve ser nada fácil ser Angélica Liddell. A artista espanhola do teatro contemporâneo mergulha sua obra em um mundo obscuro e podre, revelando nelas o que o humano tem de pior. Afinal, ela mesma foi vítima do que expõe no palco: quando o que deveria ser afeto vira horror.

No espetáculo Hysterica Passio o tema segue nauseabundo. A pedofilia da mãe que deixa marcas indeléveis no filho é o passado que atormenta o presente do enredo desta que é a segunda montagem de um texto de Liddell pelo Teatro Kaus Companhia Experimental — a primeira foi O Casal Palavrakis.

As lembranças do abuso praticado pela mãe, bem como o suicídio do pai, geram na personagem do filho desejo de vingança. Reginaldo Nascimento dirige a montagem com os atores Alessandro Hernandez, o filho atormentado, e Amália Pereira, a mãe, trancafiada no centro do palco. O pai suicida é um espectro ao fundo onipresente — cenicamente bem resolvido pelo diretor pela metáfora de uma roupa pendurada.

Para contrabalançar tanta escuridão de alma presente na trama, o diretor optou por trabalha em um cenário clean, todo na cor branca, assim como a maioria dos figurinos. Mas nada é capaz de atenuar o berro contra o mundo e o que ele tem de pior que a obra concretiza.

Foto: Francisco Cruz

Alessandro Hernandez é filho que foi abusado pela mãe em Hysterica Passio – Foto: Francisco Cruz

Um dos grandes desafios de se montar Angelica Liddell, já que a própria escreve suas peças para ela mesma atuar, em uma espécie de catarse íntima, é incorporar essa dor que é tão dela e ressignificá-la.

O elenco se esforça e consegue em alguns momentos fazer essa transposição. Hernandez faz malabarismos com o conflito de sua personagem. Está entregue ao redemoinho de emoções que invade, indo do afeto ao ódio repulsivo. Já Pereira segura sua mãe em um tom histérico constante, uma louca perdida na própria maldade que cometeu — fica aqui uma observação: a incorporação de nuances no dizer do texto enriqueceria a personagem e atrairia mais o espectador.

Maior que a encenação, a grande força da obra está no discurso de Liddell, obcecada em destruir a ideia convencional de família, que considera “um território da aflição, porque nela amamos, mas também estamos obrigados a amar”, como declarou em uma entrevista na Espanha. Na visão dela, tal obrigação de amor só é capaz de gerar “relações tenebrosas”.

Assim, faz de sua peça um conto de Natal às avessas, revelando não aquela família do comercial à espera de Papai Noel, mas a que se esconde entre as quatro paredes de um quarto escuro. É uma peça de relações perversas, duras e traumatizantes.

Amália Pereira vive mãe abusadora trancafiada em Hysterica Passio - Foto: Francisco Cruz

Amália Pereira vive mãe abusadora trancafiada em Hysterica Passio – Foto: Francisco Cruz

E é importante que tal texto seja encenado no Brasil, país que vive onda conservadora, inclusive com manobras políticas para definir família como sendo apenas um conjunto social formado por um casal heterossexual com filhos, como se isso fosse garantia de “normalidade” ou mesmo de felicidade. A obra esfacela tal modelo, expondo que a falta de amor existe de forma perversa nos lares chamados de “normais” e aceitos socialmente.

É preciso reforçar que o que importa para que um núcleo familiar exista é o amor. Amor este que falta e muito na peça de Liddell, já incapaz de concretizá-lo cenicamente. Ela própria, vítima do desamor, expõe sua dor, como um alerta do que a maldade provoca.

E é interessante que Hysterica Passio esteja na mesma praça Roosevelt que abriga Juliette e Os 120 Dias de Sodoma, adaptações do grupo Os Satyros para o texto Marquês de Sade, autor também tão revelador do outro lado da moeda humana.

Pasolini, que também adaptou Sade para o cinema, é ídolo de Liddell, que já afirmou que sua obra é como jogar flores na tumba do cineasta italiano. E, neste sombrio Brasil de hoje, ambos discursos se encontram na praça Roosevelt para, juntos, sacudirem a moral burguesa, como evidencia o monólogo final de Hysterica Passio, um completo ato de desprezo ao público “classe média feliz”.

Hysterica Passio * * *
Avaliação: Bom
Quando:
Sábado e domingo, 20h. 80 min. Até 13/12/2015
Onde: Espaço dos Parlapatões (praça Roosevelt, 158, São Paulo, tel. 11 3258-4449)
Quanto: R$ 40 (inteira) e R$ 20 (meia-entrada)
Classificação etária: 16 anos

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