Com 10º Fentepira, Piracicaba ganha peso nos festivais de teatro do Brasil

Público acompanha Concerto da Lona Preta durante o 10º Fentepira, no Engenho Central de Piracicaba (SP) - Foto: Rodrigo Alves

Público de todas as idades acompanha o espetáculo Concerto da Lona Preta durante o 10º Fentepira, no Engenho Central de Piracicaba (SP) – Foto: Rodrigo Alves

Por MIGUEL ARCANJO PRADO
Enviado especial a Piracicaba (SP)*

Por noves dias Piracicaba respirou teatro nos quatro cantos da cidade do interior paulista banhada pelo novamente caudaloso rio que lhe empresta o nome. Chega ao fim neste domingo (15), o 10º Fentepira (Festival Nacional de Teatro de Piracicaba), que começou no último dia 7.

Foram 17 apresentações gratuitas e dez espetáculos na Mostra Oficial, com realização da Semac (Secretaria Municipal de Ação Cultural) da Prefeitura de Piracicaba.

Um dos principais festivais do interior de São Paulo, o Fentepira ganha maior peso nacional e mostra força ao privilegiar em sua programação a diversidade de estilos teatrais sem abrir mão da qualidade dos espetáculos. E entra no time das grandes janelas para o teatro nacional.

Prova disso são as 253 peças inscritas, de 75 cidades e 14 Estados. Sua abrangência pôde ser conferida com a seleção de grupos vindos de lugares como Brasília (DF), Itajaí (SC), Belo Horizonte (MG), Campo Grande (MS), além das cidades paulistas de São Paulo, Sorocaba e Campinas.

João Scarpa (de pé) contracena com Ricardo Araújo, na peça Lodo, da Cia Te-Ato de Teatro, de Piracicaba, no 10º Fentepira - Foto: Rodrigo Alves

João Scarpa (de pé) contracena com Ricardo Araújo, na peça Lodo, da Cia Te-Ato de Teatro, de Piracicaba, no 10º Fentepira – Foto: Rodrigo Alves

Este ano também viu o teatro piracicabano demonstrar vigor, com três espetáculos da cidade selecionados na Mostra Oficial: Muda por Amor, da Cia D’Vergente de Teatro, que envolveu crianças e adultos à beira do rio Piracicaba com sua commedia dell’arte; Degredo, do Grupo Forfé de Teatro, que inebriou o público para contar uma história de amor proibida no passado em atmosfera intimista; e Lodo, da Cia Te-Ato de Teatro, um brado político contra a subjugação do homem pelo homem.

A força do evento é celebrada por artistas locais, como o ator João Scarpa, da peça Lodo: “O Fentepira contribui para a troca com os outros grupos e o contato com novas referências estéticas. Desde que o Festival começou, a gente percebeu que há maior cuidado na pesquisa feita pelos grupos da cidade. O Fentepira deixa boas influências na cena local”, diz. Certamente, o Fentepira deixa um forte legado.

Aguinaldo de Souza (à esquerda, de óculos) e Alexandre Mate (à direita) acompanharam todas as peças do 10º Fentepira - Foto: Rodrigo Alves

Aguinaldo de Souza (à esquerda, de óculos) e Alexandre Mate (à direita) acompanharam todas as peças do 10º Fentepira – Foto: Rodrigo Alves

“Lastros positivos” e “pequenas renovações”

Alexandra Mate, pesquisador do teatro e professor do Instituto de Artes da Unesp (Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho”), acompanhou de perto todo o evento, participando dos debates com artistas e público após cada apresentação.

Em sua análise do Fentepira, Mate aponta que os “espetáculos selecionados têm pesquisas de linguagens diferenciadas: o que é fundamental para um festival que pretendemos deixar lastros positivos para o público em geral e para os criadores da linguagem teatral”.

O pesquisador ainda enfatiza o diálogo das peças com os tempos atuais: “Os espetáculos são muito bons e muito (se for possível assim me referir) contemporâneos. Teatro dos nossos dias, criados a partir de nossos problemas e contexto social, tratados esteticamente com tecimento bastante sofisticado”, declara.

Peça Muda por Amor, da Cia D'Vergente de Teatro, é encenada à beira do Rio Piracicaba no 10º Fentepira - Foto: Rodrigo Alves

Peça Muda por Amor, da Cia D’Vergente de Teatro, é encenada à beira do Rio Piracicaba no 10º Fentepira – Foto: Rodrigo Alves

Aguinaldo de Souza, ator, bailarino, perfomer e diretor, professor do curso de artes cênicas da UEL (Universidade Estadual de Londrina) também foi um dos debatedores ao lado de Mate.

Em sua análise do evento, ele afirma ter gostado da diversidade que viu: “A curadoria foi muito feliz na seleção dos espetáculos. Eles têm várias linguagens e várias propostas de encenação. Vêm de vários lugares do País, do Estado e da cidade. Vejo todos envolvidos com a pesquisa”, declara.

Souza também fala sobre o que observou: “As propostas de linguagem tem um assentamento na tradição, enquanto linguagem, atuação e formas de encenação, mas a maioria apontando para pequenas renovações, algumas apropriações mais pessoais ou do grupo que acho que podem vir a se tornar desenvolvimento de alguma coisa mais original, linguagem própria, alguma coisa que se desloca do que seria um padrão”, diz.

E aponta mais: “Mesmo no teatro contemporâneo, a gente já tem alguns núcleos em padronização e grupos buscando subversão a esses padrões. O interessante é ver tudo isso acontecer junto. Todo mundo está no início de uma pesquisa de desenvolvimento de uma teatralidade brasileira, mas acho que várias dessas direções estão bem interessantes”, afirma.

Valdir Rivaben (à direita, em primeiro plano): - Foto: Rodrigo Alves

Valdir Rivaben (à direita, em primeiro plano): “Fentepira é espaço para o pensar e o fazer teatral” – Foto: Rodrigo Alves

Variedade de estéticas” e “caleidoscópio criativo”

Valdir Rivaben, um dos curadores desta edição, ao lado de Jorge Vermelho, comemora a edição que celebrou uma década de evento. “Fico com um saldo extremamente positivo com esta 10ª edição do Fentepira”, celebra.

“O público e os artistas da cidade puderam confrontar as diferentes arquiteturas da cena contemporânea, que dialogaram com uma variedade de estéticas e linguagens teatrais. Os grupos demonstraram seriedade de suas pesquisas, seja no cuidado da sua forma, quanto na potencialidade artística — e aqui incluo todos os criadores”, pontua Rivaben. Para ele, o Fentepira é “um festival que vem se diferenciando e que ganha um espaço para o pensar e o fazer teatral”.

Seu parceiro de curadoria, Jorge Vermelho concorda: “O que nos mobiliza é a inquietude das criações que colaboram para discussão da cena atual do teatro. O Fentepira apresenta um caleidoscópio dos processos criativos para o público e para quem está inserido na cena artística da cidade”.

Crianças e adultos participam da peça São Jorge Menino, da Cia. São Jorge de Variedades, no 10º Fentepira - Foto: Rodrigo Alves

Crianças e adultos participam da peça São Jorge Menino, da Cia. São Jorge de Variedades, no 10º Fentepira – Foto: Rodrigo Alves

Formação de público

O prefeito de Piracicaba, Gabriel Ferrato, lembra que o festival reforçou a vocação cultural de Piracicaba: “Se você passar aqui no fim de semana, verá sempre uma vida artística muito grande. Piracicaba é um polo regional de cultural e que ganhou importância nacional. A cidade vive manifestações culturais de toda a natureza, e o teatro é uma das principais delas. Reforçamos a sobrevivência do teatro através da formação de público”.

O prefeito de Piracicaba, Gabriel Ferrato, e a secretária de Ação Cultural, Rosângela Camolese - Foto: Rodrigo Alves

O prefeito de Piracicaba, Gabriel Ferrato, e a secretária de Ação Cultural, Rosângela Camolese – Foto: Rodrigo Alves

Rosângela Camolese, secretária de Ação Cultural de Piracicaba, conta que o evento transporta as crianças para verem os espetáculos infantis. “Temos este cuidado para que as crianças de hoje sejam futuramente multiplicadores de cultura”. Ela reforça também a importância da gratuidade: “É tudo gratuito. Todos têm oportunidade de verem as peças. Amanhã em Piracicaba ninguém poderá dizer que não conhece um drama, uma comédia, um espetáculo de rua. Isso é fazer política pública. O Fentepira veio para ficar”.

*O jornalista MIGUEL ARCANJO PRADO viajou a convite do Fentepira.

Conheça o site do Fentepira! 

Público acompanha o 10º Fentepira no Engenho Central, cartão postal de Piracicaba - Foto: Rodrigo Alves

Público acompanha o 10º Fentepira no Engenho Central, cartão postal de Piracicaba – Foto: Rodrigo Alves

Espetáculo de Mato Grosso do Sul, Tekohá - Ritual de Vida e Morte do Deus Pequeno é apresentado na praça José Bonifácio, em Piracicaba, no 10º Fentepira - Foto: Rodrigo Alves

Espetáculo de Mato Grosso do Sul, Tekohá – Ritual de Vida e Morte do Deus Pequeno é apresentado na praça José Bonifácio, em Piracicaba, no 10º Fentepira – Foto: Rodrigo Alves

Jorge Vermelho, em primeiro plano, e Alexandre Mate, acompanham abertura do 10º Fentepira - Foto: Rodrigo Alves

O curador Jorge Vermelho, em primeiro plano, e o debatedor Alexandre Mate, acompanham abertura do 10º Fentepira – Foto: Rodrigo Alves

Cortejo do Baque Caipira, que abriu o 10º Fentepira - Foto: Rodrigo Alves

Cortejo do Baque Caipira, que abriu o 10º Fentepira – Foto: Rodrigo Alves

Eduardo Mossri em cena de Cartas Libanesas no 10º Fentepira - Foto: Nanah D'Luize Studio

Eduardo Mossri em cena de Cartas Libanesas no 10º Fentepira – Foto: Nanah D’Luize Studio

Cena de Simbad, o Navegante, do Circo Mínimo, no 10º Fentepira - Foto: Rodrigo Alves

Cena de Simbad, o Navegante, do Circo Mínimo, no 10º Fentepira – Foto: Rodrigo Alves

Cena da peça Abnegação, do grupo Tablado de Arruar, no 10º Fentepira - Foto: Rodrigo Alves

Cena da peça Abnegação, do grupo Tablado de Arruar, no 10º Fentepira – Foto: Rodrigo Alves

Grupo Katharsis, de Sorocaba, apresentou As Estrelas São Para Sempre no 10º Fentepria - Foto: Rodrigo Alves

Grupo Katharsis, de Sorocaba, apresentou As Estrelas São Para Sempre no 10º Fentepria – Foto: Rodrigo Alves

 

 

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