Entrevista de Quinta com Diaz Santana: “Fazemos a ponte entre Moçambique e Brasil”

O ator Diaz Santana, do grupo Lareira Artes: ele faz do teatro uma ponte para aproximar Moçambique e Brasil - Foto: Miguel Arcanjo Prado

O ator Diaz Santana, do grupo Lareira Artes, na praça Roosevelt, reduto do teatro em São Paulo: ele faz do teatro uma ponte para aproximar Moçambique e Brasil – Foto: Miguel Arcanjo Prado

Por MIGUEL ARCANJO PRADO

Vinda de Moçambique, a peça Cinzas sobre as Mãos, do grupo Lareira Artes, mostrou de forma poética e ao mesmo tempo enfática o horror da guerra durante o Festival de Teatro Lusófono, do qual foi um dos grandes destaques. O evento aconteceu em São Paulo neste mês de dezembro, reunindo artistas do teatro de cinco países que falam a língua portuguesa: Brasil, Cabo Verde, Angola, Portugal e Moçambique. A peça moçambicana foi apresentada no Sesc Santana, com sucesso de público.

Interpretando o texto do francês Laurent Gaudé com encenação de Elliot Alex, estiveram os atores Diaz Santana, Lucrécia Noronha e Sérgio Mabombo. E é Diaz Santana o grande articulador desta ponte cultural nos palcos que une Brasil e Moçambique.

Nesta Entrevista de Quinta, concedida um dia antes de voltar para Maputo, Diaz Santana fala do seu relacionamento cultural com o Brasil, que já dura cinco anos, e enfatiza a importância deste diálogo. Ele ainda conta das dificuldades que enfrenta ao fazer teatro em seu país e revela que, infelizmente, muitos brasileiros ainda desconhecem sua terra. Por isso, aposta no intercâmbio cultural no teatro entre Brasil e Moçambique como forma de aproximação entre os dois povos que falam a mesma língua: “Somos irmãos”, diz.

Leia com toda a calma do mundo.

Cena da peça Cinzas sobre as Mãos, de Moçambique, apresentada no Festival de Teatro Lusófano, em São Paulo - Foto: Divulgação

Horrores da guerra: cena da peça Cinzas sobre as Mãos, de Moçambique, apresentada no Festival de Teatro Lusófano, em São Paulo – Foto: Divulgação

MIGUEL ARCANJO PRADO — Você é o artista que faz uma ponte entre o teatro de Moçambique e o teatro do Brasil. De onde surgiu este desejo de fazer os dois países dialogarem no palco?
DIAZ SANTANA — Nós somos irmãos. E, apesar disso, tem havido uma distância longa. E, para encurtar essa distância, temos a arte e o teatro, já que de outra maneira está sendo difícil.

MIGUEL ARCANJO PRADO — Como você é recebido pelos artistas brasileiros?
DIAZ SANTANA — Nós do Lareira Artes nos apresentamos no Brasil já há cinco anos. E sempre temos sido sempre bem recebidos, razão pela qual permanecemos aqui no Brasil. Estamos aqui duas, três vezes por ano. Graças ao nosso esforço e aos convites que recebemos dos festivais aqui. Isso significa que nosso trabalho está sendo bem recebido aqui. Que tem uma ótima acolhida.

O ator moçambicano Diaz Santana no palco: cinco anos de relação artística intensa com o Brasil - Foto: Divulgação

O ator moçambicano Diaz Santana no palco: “Brasileiros se emocionaram muito com Cinza sobre as Mãos” – Foto: Divulgação

MIGUEL ARCANJO PRADO — Cinzas sobre as Mãos fala de guerra. Como surgiu o desejo de fazer este espetáculo?
DIAZ SANTANA — Cinzas sobre as Mãos é o primeiro texto que não é de nossa autoria. É do francês Laurent Gaudé. Resolvemos fazê-lo por causa deste problema das guerras, na África principalmente, e também em nosso país, Moçambique. Já sofremos tanto, mas, infelizmente, o ser humano continua a insistir nessas guerras que só beneficiam uma minoria, a maioria está na lama por conta delas. É uma maneira de nós contribuirmos, dizermos “stop”, mas não usando as armas, e, sim, usando nossa arte. Falar para os políticos, que são os grandes mentores, para dizer que parem com a violência das guerras.

MIGUEL ARCANJO PRADO — Como foi a reação do público brasileiro ao espetáculo Cinza sobre as Mãos?
DIAZ SANTANA — A reação do público brasileiro foi positiva. É a quarta vez que trazemos este espetáculo ao Brasil. Ele já ganhou prêmio no Festlip em 2013. É algo que os brasileiros não sabiam muito bem como é a situação das guerras na África. Eles se emocionaram muito.

Diaz Santana - Foto: Miguel Arcanjo Prado

O ator Diaz Santana: “Para encurtar distâncias entre Brasil e Moçambique temos o teatro” – Foto: Miguel Arcanjo Prado

MIGUEL ARCANJO PRADO — Qual a importância destes festivais que convidam o Lareira Artes para vir ao Brasil?
DIAZ SANTANA — Estes festivais têm feito um trabalho muito importante em prol do desenvolvimento e intercâmbios do teatro lusófono, e o Lareira Artes é também fruto destes festivais brasileiros a quem agradeço do fundo da alma: ao FestLuso, de Teresina, no Piauí; ao Circuito de Teatro em Português, de São Paulo, da Creuza Borges; ao Festlip, do Rio de Janeiro; e ao Festival de Teatro Lusófono de São Paulo. Não posso deixar também de agradecer ao trabalho desenvolvido pelo Festival Periferias em Sintra, Portugal.

MIGUEL ARCANJO PRADO — Como é o cenário teatral em Moçambique, a realidade de vocês lá?
DIAZ SANTANA — O teatro moçambicano é bom, no entanto é muito difícil fazer teatro em Moçambique porque não existe apoio. O Lareira Artes tem cinco anos e, apesar de ser um grupo novo, é a companhia que representa Moçambique internacionalmente, no entanto, continua sem nenhum apoio. Vou lhe dizer que até hoje ensaiamos no quarto da minha casa, mesmo sendo um dos grupos mais premiados internacionalmente. Nos apresentamos mais fora de Moçambique do que em nosso próprio país, porque lá temos de pagar o espaço, a luz, a divulgação e você vai pedir apoio e ninguém apoia.

Diaz Santana: "O teatro moçambicano é bom, mas é difícil fazer teatro em Moçambique, falta apoio" - Foto: Miguel Arcanjo Prado

Diaz Santana: “O teatro moçambicano é bom, mas é difícil fazer teatro em Moçambique, falta apoio; até hoje ensaiamos no quarto da minha casa” – Foto: Miguel Arcanjo Prado

MIGUEL ARCANJO PRADO — Você acha que deveria existir em Moçambique uma lei de incentivo ao teatro e também espaços públicos para que os grupos possam se apresentar sem ter de pagar?
DIAZ SANTANA — Eu sonho com isso, um dia isso acontecer. Há leis que incentivam as artes, mas só servem para embelezar o papel. Fala-se tanto da Lei de Mecenato, mas os próprios fazedores da lei não conseguem interpretá-la. Precisamos de leis reais, que se concretizem e incentivem as artes. Mesmo enquanto elas não chegam, vamos fazendo nosso teatro e mostrando que temos qualidade. Temos representado Moçambique pelo mundo. Se formos ver em nível cultural, nós é que fazemos a ponte entre Moçambique e Brasil, e também entre Moçambique e outros países como Angola, Portugal, Cabo Verde e Macau. Merecíamos um pouco mais de consideração.

MIGUEL ARCANJO PRADO — O que te motiva no teatro brasileiro?
DIAZ SANTANA — O teatro brasileiro para mim é uma grande escola. Eu tenho aprendido muito durante estes cinco anos que tenho vindo aqui no Brasil. Cada ator é um ator, cada grupo é um grupo. É sempre algo emocionante ver uma peça. O brasileiro tem um talento nato e, adicionando-se a formação, é um “boom”. Infelizmente, não são todos os atores moçambicanos que têm essa possibilidade de vir para cá e aprender tanto com os atores brasileiros. O Brasil é uma referência no mundo em termos de interpretação.

Diaz Santana, na avenida Paulista, em São Paulo: "Aprendo muito com o teatro brasileiro" - Foto: Miguel Arcanjo Prado

O ator moçambicano Diaz Santana, na avenida Paulista, em São Paulo: “Aprendo muito com o teatro brasileiro” – Foto: Miguel Arcanjo Prado

MIGUEL ARCANJO PRADO — Você volta para Moçambique com saudade do Brasil?
DIAZ SANTANA — Em cinco anos esta é a 16ª vez que venho ao Brasil, eu adoro o Brasil. Espero que a Embaixada do Brasil também seja mais receptiva em termos de visto. Tratando-se de gente da cultura, não faz sentido a gente ter de chorar para conseguir o visto, para representar uma nação e fazer a ponte Brasil e Moçambique. Claro que eu gostaria de ficar mais tempo e beber mais do teatro brasileiro. No Brasil, sinto-me em casa. Nunca me senti um estranho por aqui. Aprendo muito, faço amizades, espero voltar logo.

Diaz Santana, na avenida Paulista: - Foto: Miguel Arcanjo Prado

O ator moçambicano Diaz Santana, na avenida Paulista: “Espero voltar logo” – Foto: Miguel Arcanjo Prado

MIGUEL ARCANJO PRADO — Você é um artista que, com o seu teatro, mostra que Moçambique está no mapa, faz um trabalho importantíssimo. Você percebe que muitos brasileiros ainda desconhecem o seu país?
DIAZ SANTANA — Tem gente que me pergunta de onde sou e digo que sou de Moçambique. Aí me falam: “Moçambique é na Bahia ou no Nordeste?”. Eu digo que não, é na África. Aí perguntam se é em Angola. Eu tenho de explicar: Angola é um país, Moçambique é outro país. Acho que, por isso mesmo, nós moçambicanos precisamos divulgar mais o nosso país. Graças a Deus, no último Carnaval de São Paulo, Moçambique foi homenageada pelo enredo da escola Nenê de Vila Matilde. Isso não é pouco, é muito. A gente deve divulgar nosso país! Como que nós moçambicanos conhecemos o Brasil? Ligamos a TV e temos novelas brasileiras; conhecemos todos os jogadores e apresentadores do Brasil, todos os músicos. Porque o Brasil divulga sua cultura. O cartão de visita de qualquer país é sua cultura. Se não apostamos nisso, ficamos no anonimato. Por isso, represento Moçambique com meu teatro, mesmo ainda sem apoio. Porque acredito que isso é uma contribuição para mudar essa realidade, fazendo o Brasil dialogar mais com Moçambique.

Diaz Santana - Foto: Miguel Arcanjo Prado

O ator Diaz Santana, que coloca Moçambique no mapa teatral brasileiro com as peças de seu grupo, Lareira Artes: “O cartão de visita de qualquer país é sua cultura. Se não apostamos nisso, ficamos no anonimato”- Foto: Miguel Arcanjo Prado

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