Crítica: Cada Dois com Seus Pobrema garante risos para todos

Ricardo Rathsam e Marcelo Médici em cena: dois atores talentosos e presentes - Foto: João Caldas/Divulgação

Ricardo Rathsam e Marcelo Médici em cena no cenário suntuoso de Kleber Montanheiro: dois atores talentosos e presentes – Foto: João Caldas/Divulgação

Por MIGUEL ARCANJO PRADO

Cada Dois com Seus Pobrema é uma peça que parece ter sido feita sob medida para agradar dois públicos distintos: aqueles que querem ver uma boa comédia com a versatilidade do ator Marcelo Médici e também os fãs de seus personagens de sucesso, como Mico Leão Dourado e Sanderson, o corintiano — resumindo, aqueles que preferem um show de personagens no estilo Terça Insana.

Engenhoso que só, Médici consegue fazer o espetáculo para gregos e troianos. Afinal, sabe que os dois perfis de público são igualmente fãs de seu trabalho e vão permitir essa bricolagem. E, nisso, conta com o talento próprio e também o olhar preciso da diretora Paula Cohen e o empenho de seu colega de palco e texto, o ator Ricardo Rathsam, que também dirigiu o espetáculo anterior, Cada Um com Seus Pobrema, sucesso por quase uma década.

É como se Cada Dois com Seus Pobrema fosse uma espécie de promoção 2 x 1 — este crítico tem a sensação de que o público contemporâneo, cada vez mais mergulhado no consumismo, deseja que o teatro dure muito, assim tem a impressão de que valeu a pena o ingresso. Como se teatro fosse meramente uma equação quantitativa.

Perspicaz, Médici dá conta do recado. Faz duas peças coladas em uma só, com uma suposta situação de tensão fazendo o Muro de Berlim entre as duas. Porque uma em nada se parece com a outra, mas ambas são igualmente capazes de despertar o riso, e este é seu mérito e de sua equipe, assim como conseguir recuperar a atenção do público depois de jogá-lo no fundo do poço no meio do espetáculo.

Marcelo Médici e Ricardo Rathsam como a atriz famosa e o jornalista que a entrevista - Foto: João Caldas/Divulgação

Marcelo Médici e Ricardo Rathsam como a atriz famosa e o jornalista que a entrevista – Foto: João Caldas/Divulgação

Atores excelentes

A primeira parte da obra é uma comédia “teatrão” — e das boas. Médici se desdobra entre duas personagens, uma governanta e uma veterana atriz retirada que recebe, em sua mansão — um suntuoso cenário de Kleber Montanheiro, que também faz estripulias com a iluminação, sobretudo na segunda parte — a visita de um tímido jornalista, papel muito bem desempenhado por Rathsam. O repórter quer saber o porquê do afastamento da estrela dos holofotes.

Médici e Rathsam são excelentes atores. Fazem um embate ágil e repleto de força cênica. Estão presentes ali. O público embarca naquela história que parece saída de bons filmes de Hollywood, com pitadas surreais de A Malvada e O Que Terá Acontecido a Baby Jane?.

Médici assume sem culpa o ator-vedete, fazendo a alegria do público com suas estripulias cênicas e trocas de roupas ágeis, herança clara de O Mistério de Irma Vap, peça que Médici reeditou ao lado de Cassio Scapin e que entrou para a história com a atuação de Ney Latorraca e Marco Nanini, sob direção de Marília Pêra.

Status quo

O texto de Cada Dois com Seus Pobrema, assinado por Médici com colaboração de Rathsam, tem bons achados, como quando faz a empregada Cleuza, que dá uma espécie de boas vindas aos espectadores, antes que o espetáculo comece de fato. Ao contar sobre uma viagem a Miami com os antigos patrões, a personagem expõe o comportamento de herança escravocrata de nossa elite e debocha daquela parcela da população cujo maior sonho é Miami.

Isso prova que Médici tem talento suficiente para abandonar a muleta de rir de espectadores que moram em bairros distantes. Afinal, viver em bairros nobres não costuma ser mérito; na maioria dos casos é herança mesmo, sobretudo no Brasil que ainda não superou a lógica das Capitanias Hereditárias.

Mesmo fazendo um teatro focado no grande público — e que faz concessões a este perfil —, Médici consegue dar espetadas necessárias no status quo, sobretudo quando coloca o respeito à diversidade no seu texto, não fazendo de seu teatro apenas uma muleta de riso compulsório e impensado. Porque o humor é uma arma poderosa que não deve ser abandonada por grandes artistas em prol apenas de bilheteria farta.  E, grande artista que é, Médici se esforça para tentar equilibrar esta difícil equação.

Um último adendo: este crítico ficou curioso de ver a primeira parte da obra montada (quem sabe futuramente?) como um espetáculo à parte, com começo, meio e, sobretudo, fim.

“Cada Dois com Seus Pobrema” * * *
Avaliação: Bom
Quando:
 Quarta e quinta, 21h. 90 min. De 13/01 a 25/02/2016 (não haverá peça na Quarta-feira de Cinzas, 10/02)
Onde: Teatro Shopping Frei Caneca (Rua Frei Caneca, 569, 7º andar, Consolação, São Paulo, tel. 11 3472-2229)
Quanto: R$ 50 a R$ 70
Classificação etária: 14 anos

Ricardo Rathsam e Marcelo Médici em cena de Cada Dois com Seus Pobrema - Foto: João Caldas/Divulgação

Ricardo Rathsam e Marcelo Médici em cena de Cada Dois com Seus Pobrema – Foto: João Caldas/Divulgação

 

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