“Mercado não me atrai”, diz Andrea Tonacci, cineasta homenageado em Tiradentes

Andrea Tonacci ao receber o Troféu Barroco na 19ª Mostra de Cinema de Tiradentes - Foto: Leo Lara/Universo Produção/Divulgação

Andrea Tonacci ao receber o Troféu Barroco na 19ª Mostra de Cinema de Tiradentes – Foto: Leo Lara/Universo Produção/Divulgação

Por MIGUEL ARCANJO PRADO
Enviado especial a Tiradentes (MG)*

O cineasta Andrea Tonacci foi escolhido para ser o grande homenageado da 19ª edição da Mostra de Cinema de Tiradentes, festival na charmosa cidade histórica de Minas que inaugura o calendário anual do cinema brasileiro. O evento começou na última sexta (22) e vai até o próximo dia 30, com 117 filmes exibidos de graça.

Com 50 anos de carreira, Tonacci, 71 anos, dirigiu filmes como “Bla Bla Bla” (1968), “Bang Bang” (1970) e “Serras da Desordem” (2006), que foi exibido na abertura da Mostra para as 600 pessoas no Cine-Tenda — gente que o aplaudiu de pé ao vê-lo receber o Troféu Barroco pelo conjunto de sua obra.

A escolha do homenageado de 2016 reflete a preocupação de Tiradentes em direcionar seu holofote para realizadores do cinema brasileiro independente, o que o diferencia de outros festivais, mais preocupados com celebridades.

“Tiradentes se consolidou como uma plataforma de lançamento do cinema independente. O Tonacci representa este cinema que é pouco visto, que não chega às salas de exibição e é um cinema que é verdadeiro, que mostra na tela nós, brasileiros. Que mostra o nosso Brasil. E é este Brasil que a gente quer ver e promover”, afirma Raquel Hallak, coordenadora geral da Mostra de Cinema de Tiradentes.

O discurso de Tonacci faz jus a esta proposta. “Não é mercado que me atrai. Eu faço filmes”, diz ele à reportagem, com sua voz grave e ao mesmo tempo serena. Afirma se sentir em casa em Tiradentes, porque “aqui não é o cinemão do mercado”. Por isso, diz que Minas o faz existir — ele nasceu em Roma, mas vive em São Paulo desde a infância.

Em sua visão, novos realizadores não se podem deixar tragar pela pasmaceira presente no cinema brasileiro atual, repleto de comédias comerciais protagonizadas por rostos globais. “Temos de distribuir nós mesmos nossos filmes, não esperar o distribuidor comercial, que só pensa em números e dinheiro”, declara.

Andrea Tonacci, ao lado da companheira Cristina Amaral, assistem à homenagem ao cineasta em Tiradentes - Foto: Leo Lara/Universo Produção/Divulgação

Andrea Tonacci, ao lado da companheira Cristina Amaral, assistem à homenagem ao cineasta em Tiradentes – Foto: Leo Lara/Universo Produção/Divulgação

Processo de relaxamento

Para criar, Tonacci gosta de estar perto da natureza. “As cidades são espaços de extermínio da criatividade”, explica. “É do relaxamento que surgem as coisas. Para mim não existe essa de ‘quero fazer um filme igual a fulano’. Roteiro fechado é uma lápide, não uma certidão de nascimento de um filme. É preciso estar atento às imagens mentais que surgem, sem julgamentos, sem direção. Viver é muito mais rico do que fazer uma teoria e botar no papel. Por isso, vivo meus filmes”, diz.

Tonacci tem predileção pelo cinema que fez pensar. Que provoca reflexão. “Se embarco totalmente em um filme que vejo na TV, de forma passiva, estou engolindo algo imposto pelo mercado. Este tipo de cinema não me interessa”, declara.

Por isso, gosta de encontrar coisas que o estimulem. “Não estou em busca de identificação”, afirma, recusando comparações de seus filmes com os de outros cineastas. “Uma coisa é a indústria do cinema, que pensa em produção e público. Outra coisa é o artista”.

Fazer cinema, para Tonacci, “é aprender a andar na corda bamba e tirar a rede”. E explica o porquê: “É preciso aprender a se equilibrar. Se é algo que já vi, não vai ser um caminho pelo qual vou seguir. Por isso, prefiro a palavra questionar do que acreditar. Porque quando você crê, você passa a representar algo que nem você sabe o que é”.

Vestindo a camisa: Andrea Tonacci, em frente ao Cine-Tenda, em Tiradentes - Foto: Leo Lara/Universo Produção/Divulgação

Vestindo a camisa: Andrea Tonacci, em frente ao Cine-Tenda, em Tiradentes – Foto: Leo Lara/Universo Produção/Divulgação

Areia movediça

Cristina Amaral, montadora que acompanha Tonacci em seus filmes, diz que “olhar para o atual cinema comercial brasileiro é desesperador”. E que encontra refúgio ao trabalhar com o cineasta. “Nem dá para chamar de trabalho, porque é a nossa vida. Tenho a sensação de andar em um labirinto sem seta, de pisar em areia movediça. Tem que se permitir se perder”.

Ruy Weber, músico parceiro nos filmes de Tonacci, define que o cineasta trabalha “com o sentimento, com um mergulho na profundidade”.

E a nova geração também rende tributo a Tonacci. Para Adirley Queirós, nome forte da cena atual do cinema independente, “Tonacci é o maior cinesta brasileiro vivo”, declara, sem pestanejar, dizendo que “é motivadora” a presença dele em Tiradentes. “O Tonacci é uma ilha quando estamos perdidos. Esta homenagem é muito melhor para a gente do que para ele, porque temos o privilégio de tê-lo aqui entre nós”.

Sob aplausos de pé, Andrea Tonacci ergue o Troféu Barroco em Tiradentes - Foto: Leo Lara/Universo Produção/Divulgação

Sob aplausos de pé, Andrea Tonacci ergue o Troféu Barroco em Tiradentes – Foto: Leo Lara/Universo Produção/Divulgação

Festival

A 19ª Mostra de Cinema de Tiradentes tem em sua programação 117 filmes que representam 14 Estados brasileiros, sendo 35 longas e 82 curtas exibidos em 57 sessões gratuitas em três espaços espalhados pela cidade histórica mineira, que fica a 180 km de Belo Horizonte e tem 7.000 habitantes.

Entre as produções que fazem pré-estreia em Tiradentes estão os filmes “Através da Sombra”, de Walter Lima Jr., “Campo Grande”, de Sandra Kogut,  “Jonas”, de Lo Politi, e “Quase Memória”, de Ruy Guerra.

*O jornalista MIGUEL ARCANJO PRADO viajou a convite da Mostra de Cinema de Tiradentes.

Veja a cobertura completa da Mostra de Cinema de Tiradentes

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1 Resultado

  1. Janeiro 3, 2017

    […] a nomes que contribuíram para a história de nossa sétima arte. Em 2016, o festejado foi Andrea Tonacci, que infelizmente morreu no fim do mesmo ano, vítima de um […]

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