Crítica: O Que Queremos para o Mundo? dilata o tempo para despertar amor

Cena do filme O Que Queremos para o Mundo?, de Igor Amin - Foto: Divulgação

Cena do filme O Que Queremos para o Mundo?, de Igor Amin – Foto: Divulgação

Por MIGUEL ARCANJO PRADO
Enviado especial a Tiradentes (MG)*

A adolescência pode ser um verdadeiro purgatório para muitos, imersos na ebulição de hormônios capaz de fazer o humor oscilar como em um gráfico econômico. Mas, também, a adolescência é momento de descobertas fundamentais para o restante da vida. E é o tempo no qual o caráter ganha moldes finais, projetando o adulto que logo ganhará espaço.

O diretor mineiro Igor Amin parece saber disso muito bem. Ele apresentou no último domingo (24), em pré-estreia nacional, seu agradável filme O Que Queremos para o Mundo?, dentro da programação da 19ª Mostra de Cinema de Tiradentes, em um Cine-Tenda com praticamente todos os seus 600 lugares ocupados.

Antes de o longa dedicado ao público infanto-juvenil começar, o diretor e sua equipe subiram à frente da telona com energia em riste, distribuindo sorriso e muito amor. Até um ritual energético fizeram, tocando a todos os presentes com uma espécie de mantra-grito-de-paz (afinal, o próprio filme “ensina” que é mais apropriado dizer de grito de paz do que de guerra).

O mesmo espírito pacífico norteia o filme, derivado de um projeto que ouviu crianças e adolescentes em com a pergunta-título. O longa conta a história de Luz, uma adolescente introspectiva que precisa criar uma canção com outras três colegas de classe, proposta de trabalho escolar feita pelo professor de música. Como nenhuma delas sabe tocar, as garotas precisam encarar o desafio de se jogar no desconhecido, unindo-se umas às outras no sítio da avó, em busca da autoconfiança.

O filme, que tem em seu discurso a integração e o respeito ao outro, comete uma falha que acaba por aprisioná-lo, de certa forma, ao mundinho “classe média branca idealizada”: não há negros no elenco. Dirigido às crianças e aos adolescentes, seria interessante o filme apresentar alguma personagem com a qual a parcela negra de seu público-alvo pudesse se referenciar — por que uma das amigas de Luz não poderia ser negra?, fica aqui a pergunta com o único intuito de despertar reflexão a quem deseja um mundo mais democrático em todos os sentidos.

Contudo, O Que Queremos para o Mundo? tem um grande mérito, que nem o excesso de narração em off da protagonista ou os problemas de mixagem de som ao final conseguem prejudicar: estabelecer um outro tempo cinematográfico para o atual público de crianças e adolescentes, acostumados com uma aceleração sem fim de tudo.

Muito pelo contrário, o filme de Amin tem seu próprio ritmo e, em seu desenrolar, impõe outro tempo e nos faz mergulhar nele. Um tempo mais conectado com a natureza e com o outro. Tempo que, sobretudo os moradores das grandes cidades, parecem ter esquecido ser possível.

O Que Queremos para o Mundo? é filme com mensagem simples, mas potente. Mostra que a vida não se resume às telas sempre acesas dos celulares multifuncionais, da TV ou dos computadores. O longa é um convite para se desplugar de tudo isso e sentir o corpo, o som, o vento, a luz, a vida. E, depois de toda esta entrega, entender que o amor, em todas as suas esferas, pode ser, sim, a razão de tudo. E que, com ele, tudo fica infinitamente melhor.

O Que Queremos para o Mundo? * * *
Avaliação: Bom

*O jornalista MIGUEL ARCANJO PRADO viajou a convite da Mostra de Cinema de Tiradentes.

Veja a cobertura completa da Mostra de Cinema de Tiradentes

Equipe do filme O Que Queremos para o Mundo? apresenta o longa na 19ª Mostra de Cinema de Tiradentes - Foto: Leo Lara/Universo Produção/Divulgação

Equipe do filme O Que Queremos para o Mundo? apresenta o longa na 19ª Mostra de Cinema de Tiradentes – Foto: Leo Lara/Universo Produção/Divulgação

 

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