Polêmica por venda de ingressos tira Teatro Guaíra do Festival de Curitiba

Fachada do Teatro Guaíra: por falta de acordo sobre venda de ingressos Festival de Teatro de Curitiba transferiu peças do tradicional palco paranaense - Foto: Divulgação

Fachada do Teatro Guaíra: por falta de acordo sobre venda de ingressos Festival de Teatro de Curitiba transferiu peças do tradicional palco paranaense – Foto: Divulgação

Por MIGUEL ARCANJO PRADO

A situação é tensa entre a direção do Festival de Teatro de Curitiba e o Centro Cultural Teatro Guaíra (CCTG) e a empresa Disk Ingressos, que administra a venda de entradas no mais tradicional complexo teatral do Paraná.

A briga acontece porque o Festival não quer que a Disk Ingresso venda as entradas das peças de sua Mostra Oficial que seriam encenadas no local. Por outro lado, o CCTG afirma que não pode destituir a Disk Ingresso deste processo, já que a mesma venceu licitação pública, como rege a lei em um espaço público, caso do CCTG, complexo do Governo do Paraná.

Como a direção do Festival de Teatro de Curitiba, realizado pela empresa Parnaxx, sob comando do empresário Leandro Knopfholz, não abre mão do controle da venda das entradas de seu evento, como acontece nas outras salas curitibanas, sete peças da Mostra Oficial que seriam encenadas no CCTG já foram transferidas para outros locais.

Leandro Knopfholz: diretor geral do Festival de Teatro de Curitiba - Foto: Daniel Sorrentino/Clix

Leandro Knopfholz: diretor geral do Festival de Teatro de Curitiba – Foto: Daniel Sorrentino/Clix

Apenas a abertura do festival, com o espetáculo “Bethânia e as Palavras”, de Maria Bethânia, restrita a convidados e portanto sem vendagem de ingressos , foi mantida no Guairão, “por considerar a importância do Centro Cultural Teatro Guaíra, um dos principais marcos culturais do Paraná e um dos espaços mais cultuados pela classe artística nacional”, segundo o Festival. Outra que permanece no Guairinha é “La Cena”, já que trata-se de uma criação da própria Cia. de Dança do Teatro Guaíra. As peças do Fringe que acontecem em espaços do Centro Cultural Teatro Guaíra também foram mantidas, com venda redirecionada para a Disk Ingressos.

Os sete espetáculos transferidos são: “Why the Horse?”, com Maria Alice Vergueiro, “Tebas Land”, do Uruguai, e “Processo de Coscerto do Desejo”, solo de Matheus Nachtergaele, que vão para o Teatro da Reitoria. Já os musicais “O Beijo no Asfalto” e “Urinal, o Musical”, assim como as comédias “Portátil”, do Porta dos Fundos, e “Morte Acidental de um Anarquista”, com Dan Stulbach agora vão para a Ópera de Arame.

“Modelo prejudicial”

Leandro Knopfholz, diretor do Festival de Teatro de Curitiba, acusa a Disk Ingressos de não ter um modelo de vendas de entradas que seja benéfico para seu evento.

“O atual modelo é prejudicial não só para o Festival, mas para toda a cadeia produtiva das artes”, afirma. E complementa. “Delegar o serviço de venda de ingressos a um terceiro que não tem comprometimento com a manifestação artística, não possui vínculos com o espetáculo apresentado, que é indiferente em relação à importância da arte e da cultura prejudica e, em casos como o que vemos agora, até inviabiliza a atividade econômica atrelada às artes e, no caso, ao Festival”, declara Knophfolz, por meio de sua assessoria de imprensa.

Em muitos festivais no Brasil e no mundo a bilheteria dos ingressos é centralizada pela organização do evento e não pelos teatros ou salas. Na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, por exemplo, a bilheteria é centralizada, como faz o Festival de Teatro de Curitiba.

Outro lado: Teatro Guaíra

Procurado, o Centro Cultural Teatro Guaíra enviou nota sobre o caso à reportagem, assinada por sua diretora, Monica Rischbieter. Nela, afirma que como autarquia do Estado do “deve fazer licitação para seus fornecedores”, onde se enquadra a Disk Ingresso, aprovada em licitação de 2013, diante da carência de servidores para atuar na bilheteria.

Monica Rischbieter: diretora do Centro Cultural Teatro Guaíra - Foto: Divulgação

Monica Rischbieter: diretora do Centro Cultural Teatro Guaíra – Foto: Divulgação

“A empresa Disk Ingressos foi a vencedora do processo licitatório: apresentou a menor taxa para a comercialização dos ingressos, R$ 6,00 (seis reais), com a melhor técnica”, afirma o texto.

O texto ainda diz: “Quando o Festival de Teatro alega que a terceirização dos serviços de comercialização de ingressos inviabiliza a atividade econômica atrelada às artes e compromete a cadeia produtiva, não esclarece de que forma isto acontece. O que se sabe, com certeza, é que o Festival não está questionando a cobrança de taxa de administração, visto que ele, que é produtor do espetáculo, também comercializa seus ingressos cobrando taxa administrativa para tanto, R$ 5,00 (cinco reais)”.

A nota afirma que “parece que o que a empresa que representa o Festival de Teatro pretende, é comercializar os ingressos de suas produções diretamente, sem participar do processo licitatório, o que não é possível quando elas acontecem em um espaço público”.

Fogos de artifício na abertura do Festival de Curitiba de 2015 em frente ao Teatro Guaíra - Foto: Ernesto Vasconcelos/Clix

Fogos de artifício na abertura do Festival de Curitiba de 2015 em frente ao Teatro Guaíra – Foto: Ernesto Vasconcelos/Clix

De acordo com o CCTG, “a empresa Parnaxx, representante do Festival de Teatro, de propriedade do Sr. Leandro Knopfholz, teve a oportunidade de participar do processo licitatório e de vencê-lo se apresentasse, quando da concorrência, a melhor técnica com o melhor preço. Teve ainda, nos prazos legais, oportunidade de impugnar o edital licitatório e não o fez”.

A nota afirma que a discussão sobre a administração da arrecadação dos valores oriundos com a venda dos ingressos durante o Festival bem como, o pagamento das obrigações inerentes a essa atividade acontece desde 2014.

“Todos os anos, a Parnaxx reserva em torno de quinze dias de datas para o Festival de Teatro de Curitiba junto aos quatro auditórios do Centro Cultural Teatro Guaíra, mas apenas aparece na instituição para assinar os contratos um mês antes das apresentações, impondo condições bastante complicadas ao CCTG para viabilizar a realização do Festival em seus auditórios”, diz a nota.

Segundo o CCTG, neste ano isso teria se repetido. “O que a Parnaxx propôs foi que o Centro Cultural Teatro Guaíra desconsiderasse todo o processo licitatório e afastasse a empresa Disk Ingressos do Festival de Teatro, o que é ilegal. Diante da discordância do CCTG, decidiu a Parnaxx por sua responsabilidade, não realizar as programações no Guairão, a título represália. Ainda, para tentar viabilizar o Festival de Teatro, o Centro Cultural Teatro Guaíra e a Secretaria da Cultura do Estado do Paraná propuseram à Parnaxx a isenção total das taxas dos teatros. Esta isenção não foi aceita pela Parnaxx”, finaliza o texto.

Outro lado: Disk Ingressos

Procurada pela reportagem, a Disk Ingressos também se manifestou por nota, na qual afirma que venceu licitação pública para vender ingressos no CCTG.

“Nos últimos dois anos a Disk Ingressos, em observância ao contrato administrativo [..] realiza a venda dos ingressos do Festival de Teatro de Curitiba, sendo que nesse ano todas as condições anteriormente ajustadas foram mantidas. A organização do evento é de responsabilidade única e exclusiva da empresa Parnaxx, a qual pretende cumular as funções de organização de eventos e comercialização de ingressos para o Festival de Teatro de Curitiba, ferindo aos consumidores e descumprindo decisão judicial proferida pelo Juízo da 9ª vara Cível de Curitiba-PR que reconhece a abusividade da cobrança de taxa de ingresso pela mesma empresa que promove o evento”, diz o texto.

A Disk ingresso ainda afirma que, “diferentemente da Disk Ingressos que atua exclusivamente com a venda de ingressos, a Parnaxx pretende organizar o Festival de Teatro
de Curitiba e realizar a comercialização dos ingressos cobrando valor de até R$ 5,00 adicionais por ingresso vendido. Ocorre que o preço do ingresso já deve estar computado nos custos do evento, quando a mesma empresa que produz o espetáculo administra a sua bilheteria”.

A Disk Ingressos reforça que sua única atividade é administração das bilheterias dos teatros que terceirizaram a venda de ingressos. O texto segue: “De acordo com o diretor administrativo da Disk Ingressos, Eder Longas Garcia, a empresa preza pela valorização cultural e não mediu esforços, assim como a direção do próprio Teatro Guaíra, para viabilizar as peças do Festival de Teatro de Curitiba nas dependências
do referido teatro”.

García afirma: “Nós estamos agindo de acordo com o que está previsto no contrato administrativo, nada diferente do que nos anos anteriores [..] somos responsáveis por arrecadar os valores oriundos da venda dos ingressos e a dedução dos valores e importâncias devidas de ISS e o ECAD, da taxa de locação do auditório, para somente após repassar o valor ao produtor do espetáculo. Temos o compromisso de respeitar o consumidor e garantir a ele a segurança da compra, que em caso de cancelamento espetáculo, este seja logo restituído”.

O texto da Disk Ingressos diz ainda que “o contrato público com o Teatro impede a transferência destas obrigações para qualquer outra empresa, não sendo possível
terceirizar este serviço para que outra empresa explore a bilheteria durante a realização do Festival de Teatro de Curitiba como pretendia a Parnaxx”.

Apesar das polêmicas, a 25ª edição do maior festival teatral do Brasil acontece entre 22 de março e 3 de abril de 2016 na capital do Paraná com expectativa de público de 220 mil pessoas e cerca de 350 espetáculos.

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1 Resultado

  1. Fevereiro 26, 2016

    […] Confusão na bilheteria Falando em Curitiba, o clima não anda nada tranquilo nem favorável por lá. Tudo por conta de uma briga de cachorro grande entre a direção do Festival de Teatro de Curitiba, sob direção de Leandro Knopfholz, e o Centro Cultural Teatro Guaíra, sob direção de Monica Rischbieter, pelo controle da venda de ingressos das peças da Mostra Oficial no Guairão e Guairinha. Como não houve acordo no impasse, muitas peças foram transferidas de lugar. Entenda em detalhes esta polêmica. […]

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