Crítica: Satyros relativiza morte e tempo em Pessoas Sublimes

Elenco de Pessoas Sublimes, do Satyros , está entregue e afinado - Foto: André Stefano/Divulgação

Elenco de Pessoas Sublimes, do Satyros , está entregue e afinado – Foto: André Stefano/Divulgação

Por MIGUEL ARCANJO PRADO

Tal qual no fim de Pessoas Sublimes, Doris Day canta Que Sera Sera (Whatever Will Be, Will Be) enquanto procuro transformar em palavras as sensações diante do novo espetáculo do Satyros.

Este crítico viu a obra no domingo de seu fim de semana de estreia. Justamente a última sessão feita por Phedra D. Córdoba fez, antes de sua licença por ordem médica.

De tal modo, nada ofusca a imagem de Phedra D. Córdoba nesta montagem, incrustada na mente. Seja no início da peça, em uma dublagem potente enquanto o público se acomodava, ou sua chegada, repentina após ser buscada por um dos colegas na coxia, aos agradecimentos finais. Ao lado do elenco, sua verdadeira família, Phedra manteve-se em cena, interpretando cada verso de Doris Day, enquanto a canção final da obra, pérola da trilha sonora assinada por Rodolfo García Vázquez, Ivam Cabral e Henrique Mello, preenchia cada espaço do Satyros Um e do coração de quem estava ali.

Em Pessoas Sublimes, Vázquez exibe a potencialidade de sua sensibilidade criativa de atento encenador. Na obra, mistura o que somos, ou estamos, ao passado, presente e futuro, brincando com um portal do tempo, cujas camadas são representadas pelas cortinas do cenário criado por Marcelo Maffei, que ora encobrem ora desvendam seus atores, vestidos por um detalhado figurino obra de Bia Pieratti e Carol Reissman, com direito a próteses surrealistas de Eduardo Chagas e perucas escalafobéticas de Lenin Cattai.

Tempo é questionado

Pessoas Sublimes faz o Satyros sair do caos do centro paulistano costumeiro para viajar ao extremo sul da cidade, mais especificamente à beira da represa Guarapiranga, em Palhereiros, onde aqueles personagens habitam.

É lá que, diante da relatividade já defendida pela física, o tempo é questionado. O que é vida? O que é morte? São perguntas que ecoam o tempo todo pela obra e na cabeça de seu público. Vázquez e Ivam Cabral, com quem escreveu o texto, parecem deixar estas questões para cada um esquadrinhar, quando for possível ou preciso.

Com uma maquiagem barroca e uma atmosfera de fantasia bem próxima ao conto infantil, os personagens vão sendo apresentados, com seus dilemas. E histórias para contar não faltam.

Há a vida que se finda com a partida do outro amado. Há a inocência perdida pela violência cotidiana. Há a repressão profunda em nome de uma moral cretina. Há a perda da memória que é a própria vida. Há a arrogância inconsequente da juventude. Há a obsessão capitalista por números que cegam o mundo. Há o amor não correspondido. Há o amor não percebido. E há, ainda, a chegada da morte, implacável, contrapondo todas as expectativas.

Elenco coeso

Dando vida a tudo isso, o elenco de Pessoas Sublimes talvez seja um dos mais coesos da história do Satyros. Os atores estão bem ensaiados e, sobretudo, com alto grau de presença cênica. Estão ali de fato.

Eduardo Chagas, como sempre, exibe técnica cênica na construção minuciosa de seu suspeito Uilso. Há trabalho árduo de ator, é o que ele transparece em cada cena.

Intensa, Helena Ignez assume o papel da narradora, Delírio, em uma entrega que envolve e conduz a todos.

E Phedra D. Córdoba é o retrato da própria diva que é com suas aparições como a Cantora Sem Voz. Seu gestual eloquente faz com que não precise de nada mais a não ser sua presença definitiva que traz o peso de sua trajetória artística presente em cada movimento gracioso que faz.

Bel Friósi, por sua vez, como a imatura Doresdei, representa o frescor de uma nova geração que chega, leve, intensa e ainda inconsequente. Da mesma geração, vem também Felipe Moretti, na pele do fotógrafo Insanio, que tenta capturar o último sopro de vida após a passagem da morte.

Luiza Gottschalk surge madura como atriz com sua Tulipa e sua descoberta infeliz. Ela demonstra a força de sua entrega à personagem em uma das cenas mais fortes da peça.

Com ela faz par o ator Fábio Penna, sensível como Murilo, com quem Tulipa viveu experiências pelo mundo — os dois seriam uma referência poética aos próprios dramaturgos, Cabral e Vázquez, que perambularam juntos por vários países com seu teatro? — e a quem quer poupar com sua partida iminente, buscando deixar já pronto uma nova vida e um novo cuidado para este.

Outra que demonstra crescimento cênico é Sabrina Denobile, na construção de uma tristeza profunda que sua personagem, Imaculada, representa. A atriz consegue tocar a todos.

Henrique Mello, também a cada dia mais maturado, dá potência poética a seu Arcanjo, um jovem urbano que se perdeu da vida e das possibilidades diante de si por conta de um mergulho sem volta no irreal tecnológico.

Fernanda D’Umbra é um assombro com sua voz potente e sua presença imensurável a cada cena da qual participa com sua Sonata, personagem que aos poucos se perde de tudo que possui.

Maria Tuca Fanchin dá veracidade ao discurso de ódio que sua personagem assume, em entrega visceral e que não deve ser fácil, mas que enche de credibilidade a amargura de Melodia.

Como se tecesse uma teia numérica, Gustavo Ferreira nos leva novamente ao mundo infantil, com a obsessão que seu Tresvario tem pelos números, fazendo uma ponte matemática sagaz entre os cálculos da vida adulta e as tabuadas de nossa infância, ditas de forma saborosa pelo menino Desatino, interpretado por seu companheiro de cena, Ivam Cabral, em um grande momento como ator.

Em uma atuação performática, Cabral mergulha naquela consciência infantil onde o bem e o mal podem estar tão próximos e debaixo do mesmo teto. Assim, dá a Desatino, como quando este fica entediado, uma leve e saborosa ironia, capturando a todos com o carisma de uma criança.

Magia e imaginação

E é assim que muitas vezes o público se sente diante de Pessoas Sublimes. E nisso nada há de pejorativo. Afinal, sentir-se outra vez como criança diante de uma história é algo para ser louvado.

Em Pessoas Sublimes, o Satyros consegue ir ao encontro do mágico e do imaginativo sem abrir mão da crueza urbana e cosmopolita também tão presente em seu teatro.

E a direção de Vázquez — com assistência de Marjorie Serrano — é tão engenhosa que, mesmo nos raros momentos em que a história poderia se arrastar, logo retoma as rédeas e coloca aquelas personagens no implacável jogo cênico, que nada mais é do que o próprio jogo da vida, coberta ou desvendada por cortinas que se abrem e fecham à medida que o que será, será, torna-se realidade.

Pessoas Sublimes * * * *
Avaliação: Muito Bom

Serviço:
Local: Espaço dos Satyros Um (Praça Franklin Roosevelt, 214 – Consolação)
Estreia: 12 de fevereiro
Temporada:Quarta a sábado 21h, domingo 20h – até 17 de abril
Duração: 110 minutos
Classificação:Livre
Valor do ingresso:R$ 20,00 / R$ 5,00 (moradores da Praça Roosevelt)
Telefone para reservas:11 3258 6345 / 3255 0994
Site: www.satyros.com.br

Ficha Técnica
Texto: Ivam Cabral e Rodolfo García Vázquez
Encenação:Rodolfo García Vázquez
Assistente de direção: Marjorie Serrano
Elenco: Bel Friósi, Eduardo Chagas, Fabio Penna, Felipe Moretti, Fernanda D’Umbra, Gustavo Ferreira, Helena Ignez, Henrique Mello, Ivam Cabral, Luiza Gottschalk, Maria Tuca Fanchin, Phedra de Córdoba e Sabrina Denobile
Cenários: Marcelo Maffei
Figurinos:Bia Pieratti e Carol Reissman
Iluminação:Rodolfo García Vázquez e Flávio Duarte
Trilha Sonora:Henrique Mello
Próteses:Eduardo Chagas
Perucas:Lenin Cattai
Dramaturgismo:Guilherme Dearo e Nina Nóbile
Fotografias:Andre Stefano
Divulgação:Diego Ribeiro
Coordenação de produção:Daniela Machado
Produção Executiva: Sílvio Eduardo
Administração: Israel Silva
Operador de luz:Flávio Duarte
Operador de som:Dennys Leite

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