Homem quer vender mãe com Alzheimer em O Campeão de Dominó do Alaska

O Campeão de Dominó do Alaska tem Eduardo Parisi, Maria Eugênia de Domênico e Valdir Rivaben em texto de Mario Viana - Foto: Angela di Sessa/Divulgação

O Campeão de Dominó do Alaska tem Eduardo Parisi, Maria Eugênia de Domênico e Valdir Rivaben em texto de Mario Viana – Foto: Angela di Sessa/Divulgação

Por MIGUEL ARCANJO PRADO

Um humor ácido domina o enredo criado pelo dramaturgo Mario Viana na peça O Campeão de Dominó do Alaska, que estreia nesta terça (1º), às 21h, no Espaço dos Parlapatões, em São Paulo, onde segue sob direção de Aimar Labaki até 13 de abril de 2016.

Em cena na montagem que celebra a volta do grupo Thara Theatro — que já fez sucessos como Tudo de Novo no Front, de 1992, e eMSTesão, de 2006— , estão os atores Valdir Rivaben, Maria Eugênia de Domênico e Eduardo Parisi.

O enredo traz um homem que quer vender a própria mãe, que sofre de Alzheimer, para pagar uma dívida de jogo, e precisa enfrentar o irmão.

O site conversou com o dramaturgo Mario Viana e com o ator Valdir Rivaben sobre a peça. Leia o bate-papo:

MIGUEL ARCANJO PRADO — Valdir, você está ansioso para a estreia?
VALDIR RIVABEN —
Sempre, né? Estreia tem muita adrenalina e é o batismo do espetáculo: a concretização de todo um processo artístico que se abre para os primeiros e especiais espectadores. Por outro lado, recebemos o carinho e a vibração dos amigos e isso faz toda a diferença, quando o espetáculo começa.

MIGUEL ARCANJO PRADO — Mario, como teve a ideia desta peça, o que lhe inspirou?
MARIO VIANA — Situação não muito comum no meu trabalho, esta peça nasceu do título. Há quase cinco anos, durante um jantar na casa do ator-diretor-autor Otávio Martins, contei que tinha vencido um torneio de dominó durante uma viagem de trabalho ao Alasca (o meu rival era o Mister Miles, que escreve no caderno Viagem do Estadão) e, portanto, era o campeão de dominó do Alasca. Otávio acho que aquilo dava um título ótimo pra uma peça, todos concordamos, ficou por aí. Mas a ideia ficou girando na minha cabeça. Entre 2012 e 2014, tentei várias abordagens de trama, sempre tendo dois irmãos como eixo. A doença da mãe surgiu aos poucos, quando apliquei uma lição aprendida com Lauro César Muniz: “Em dramaturgia, se a coisa está simples, complique. “Quando descobri qual história queria contar, foi rápido. Até mesmo a decisão de não batizar os personagens – eles são apenas a Mãe, o Filho Mais Velho e o Caçula. Depois, descobri que a falta de vocativo deixa os atores meio inseguros, mas já era tarde. De todo modo, “Campeão” segue minha tendência de brincar com chavões de famílias – as falas dos filhos sobre a mãe são puro amor, só que não. Também gosto desses personagens sem grandes acontecimentos em suas vidas. É sobre eles que gosto de escrever.

Maria Eugênia de Domênico e Valdir Rivaben contracenam em O Campeão de Dominó do Alaska - Foto: Angela di Sessa/Divulgação

Maria Eugênia de Domênico e Valdir Rivaben contracenam em O Campeão de Dominó do Alaska – Foto: Angela di Sessa/Divulgação

MIGUEL ARCANJO PRADO — Qual dos irmãos é você, Valdir?
VALDIR RIVABEN — Faço o caçula dos irmãos. É uma personagem cheia de conflitos e contradições, e, ao mesmo tempo, sonhador e ingênuo. A chegada do irmão mais velho faz ‘tremer’ a sua pacata vida ao lado da mãe e ao mesmo tempo, ele vislumbra a possibilidade de concretizar um sonho. A inspiração veio de várias fontes: de referências familiares e de conhecidos a trechos de filmes.

MIGUEL ARCANJO  PRADO — Você já viu algum ensaio, Mario?
MARIO VIANA — Costumo confiar nos diretores e não gosto de assustar o elenco. Me esforço tanto em fazer uma cara fria ao assistir, que acabo dando a impressão de não ter gostado. Isso – não ter gostado – só aconteceu uma vez e foi meio indisfarçável. De O Campeão de Dominó do Alaska, vi só um ensaio e gostei bastante. Eu já tinha tido uma ótima experiência com a leitura da peça no Letras em Cena (com Barbara Bruno, Otavio Martins e Pedro Guilherme). Agora, a peça nascendo de verdade, atores vivendo os personagens, a sensação é muito boa. Eu me surpreendo com a peça. E me emociono com Maria Eugênia de Domenico, que vi fazendo a Honey, de Quem tem medo de Virginia Wolf?, com Raul Cortez e Tonia Carrero, sob direção do Antunes Filho. Dentro do meu trabalho, Campeão é um passo adiante. É o humor levado à tragédia. É cruel de verdade com os três personagens. Ando perdendo esses limites, o que é muito bom.

Uma família à beira do colapso: O Campeão de Dominó do Alaska traz Valdir Rivaben e Eduardo Parisi como dois irmãos, filhos da personagem de Maria Eugênia de Domênico - Foto: Angela di Sessa/Divulgação

Uma família à beira do colapso: O Campeão de Dominó do Alaska traz Valdir Rivaben e Eduardo Parisi como dois irmãos, filhos da personagem de Maria Eugênia de Domênico – Foto: Angela di Sessa/Divulgação

MIGUEL ARCANJO PRADO — Valdir, há quanto tempo você estava sem estrear peça?
VALDIR RIVABEN —
Desde 2014, quando ‘embarquei’ em uma substituição no espetáculo infanto-juvenil, Fora do Bumbo, texto e direção de Cíntia Alves, no Centro Cultural São Paulo e em viagens pelo interior. Na verdade, fiquei um tempo afastado do palco, por conta do curso de licenciatura em Teatro, que já tinha adiado por muitos anos e terminei neste mesmo ano.

MIGUEL ARCANJO PRADO — Qual a principal diferença entre escrever para teatro e para a TV?
MARIO VIANA — Pode ser que eu tenha dado sorte na carreira de autor-colaborador em TV, mas sempre trabalhei com autores que privilegiam o bom diálogo, o bom texto, o conteúdo. Isso já é um passo adiante. Eu nunca fui instigado a “nivelar por baixo”. Fora isso, a diferença principal é que a musa da TV é um relógio, você tem até tal hora pra entregar as 10, 12, 15 cenas que precisa escrever naquele dia, praticamente uma cena por página. Uma novela das 19h tem capítulos com 32 páginas, daí você calcula o volume de trabalho, seis dias por semana. Teatro, pra mim, é mais Dorival Caymmi, mais lento no fazer, no burilar a cena, ao maturar cada passo da trama. E a resposta do público, especialmente em caso de comédia, é imediata. Sentir a respiração da plateia é uma sensação deliciosa, que nem todas as redes sociais do mundo conseguem dar à TV, comentando o capítulo minuto a minuto on-line. De todo modo, adoro escrever pros dois meios. Alcances diferentes, produtores distintos, outras plateias.  O que eu gosto, no, fundo, é ter meu trabalho visto e assistido pela galera.

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O Campeão de Dominó do Alaska
Quando:
Terça e quarta, 21h. 60min. Até 13/4/2016
Onde:
Espaço dos Parlapatões – Praça Franklin Roosevelt, 158, São Paulo, tel. 11 3258-4449
Quanto:
R$30,00 (inteira) e R$15,00
Classificação etária: 16 anos

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