Crítica: O silêncio dos haitianos em Cidade Vodu

O atuador Aurilien Joel, em Cidade Vodu

O atuador Aurilien Joel, em Cidade Vodu

Por MIGUEL ARCANJO PRADO
Especial para a MITsp*

A ideia que o brasileiro tem de si próprio sobre ser acolhedor e cordial com os estrangeiros é muitas vezes um autoengano para evitar o aprofundamento na complexidade que requer a aceitação da diversidade.

Há duas categorias de estrangeiros desejadas: o de perfil eurocêntrico, colonizador, que ocupa altos cargos em empresas, e turistas que ficam por um tempo determinado durante o qual compram serviços com euros e dólares e distribuem algumas gorjetas por aí.

No caso de nossos “hermanos” latino-americanos, a tão falada cordialidade nacional é esquecida, e o costume é tratá-los de forma pejorativa, além de lhes oferecer os piores empregos — inclusive no meio teatral, onde artistas imigrantes latino-americanos ainda sofrem a negação de encenadores que se recusam a colocá-los no palco.

E há ainda os conhecidos casos de trabalho escravo, como na indústria têxtil com os bolivianos, atualmente a maior comunidade estrangeira da cidade de São Paulo. Uma leva mais recente de imigrantes sofre com o fato de, além de serem latino-americanos (coisa que muitos brasileiros ignoram que também são), serem também negros. São os haitianos, que sofrem dose dupla de preconceito.

Sobre eles está o foco da peça Cidade Vodu, dramaturgia e direção de José Fernando de Azevedo com seu grupo paulistano Teatro de Narradores e que estreou nesta 3ª MITsp (Mostra Internacional de Teatro de São Paulo). A peça tenta desvendar quem são estes refugiados que chegaram ao Brasil com a necessidade de sobreviver após a devastação de seu país pelo terremoto de 2010.

Eles são representados pelos atuantes imigrantes e refugiados, atores não profissionais convidados pela direção: Joel Aurilien, Junior Odnel Barthelemy, Patrick Dieudonne e Roselaure Jeanty, esta última dona de presença cênica cativante.

Na obra, recuperam a história de seu país, desde a partida dos navios negreiros do continente africano, sua independência, até a diáspora recente por conta do terremoto. Contam que, para chegarem ao Brasil, sofreram todo tipo de exploração possível, financeira, física, psicológica e moral. E, adentrando na metrópole paulistana, precisam enfrentar o descaso das autoridades, além do preconceito.

Cena de Cidade Vodu, em primeiro plano, a atuadora haitiana Roselaure Jeanty

Cena de Cidade Vodu, em primeiro plano, a atuadora haitiana Roselaure Jeanty

Cidade Vodu propõe uma tentativa de encontro entre brasileiros e haitianos. A peça é um conjunto de cenas narrativas em primeira e terceira pessoa, que convidam o público a circular de forma itinerante por diferentes locais da Vila Itororó, conjunto de construções do começo do século 20 em ruínas, aproveitando a arquitetura do lugar para criar imagens potentes.

Os figurinos criados por Kabila Aruanda, que misturam referências africanas como palha da costa e búzios à moda do século 19, potencializam o entendimento dos diferentes contextos históricos do Haiti, com a mistura da herança africana e a colonização europeia, contribuindo com forte impacto estético nas narrativas.

A obra sofreu com falhas técnicas em sua estreia na MITsp. Estas prejudicaram o ritmo da peça, e, sobretudo, sua compreensão, já que boa parte da obra é falada pelos imigrantes haitianos em francês, língua oficial do Haiti. O não funcionamento dos projetores responsáveis pelas legendas, das caixas de som e dos microfones acabou provocando lacunas nas narrativas e tirou do público a capacidade de compreender o texto do espetáculo.

Sem serem compreendidos, os corpos e vozes haitianos funcionaram apenas como marionetes, forma que contrapõe o discurso defendido pela concepção da obra, de dar voz a estes imigrantes, sobretudo em um teatro narrativo com bases no documental.

A atuadora haitiana Roselaury Jeanty canta Abecedário da Xuxa, em cena impactante de Cidade Vodu

A atuadora haitiana Roselaury Jeanty canta Abecedário da Xuxa, em cena impactante de Cidade Vodu

O fato de os espectadores não entenderem os haitianos fez com que os discursos em português dos atores brasileiros Renan Tenca Trindade e Teth Maiello, ambos brancos e representantes na peça de personagens opressores, sobressaíssem, não encontrando contraponto, o que reforçou a fala colonizadora.

Salvo nos poucos momentos em que alguns dos atuadores haitianos, ao perceber falhas nas legendas, improvisaram o texto com o português que conseguiam falar. Assim, a encenação se fragilizou ao optar por um grande aparato técnico, que não conseguiu fazer funcionar.

Mesmo assim, é possível apontar soluções na obra, como a experiência participativa do público, convidado a sentar-se, tomar cuba libre e experimentar a sopa Joumou, tradicional iguaria haitiana.

O procedimento já conhecido em encenações contemporâneas, neste contexto específico, proporcionou uma experiência estética sensível de aproximação dos brasileiros com a cultura haitiana, ali representada pela gastronomia, com sua história, embalada pela música típica que eles executavam.

Pelos aplausos calorosos ao fim, mesmo diante de tantos contratempos, o público brasileiro presente na estreia parece ter abraçado tal proposta de encontro.

*O jornalista MIGUEL ARCANJO PRADO é crítico convidado pela direção da MITsp para participar da ação Prática da Crítica.

 

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