Crítica: Congolês compartilha A Carga para se libertar da dor

Cena do espetáculo A Carga, apresentado no Itaú Cultural - Foto: Ivson Miranda/Itaú Cultural/Divulgação

Cena do espetáculo A Carga, apresentado no Itaú Cultural – Foto: Ivson Miranda/Itaú Cultural/Divulgação

Por MIGUEL ARCANJO PRADO
Especial para a MITsp*

Faustin Linyekula surge despido de aparatos cenográficos no intuito de falar diretamente ao seu público em A Carga. Chama a atenção no esforço dele em falar português e se comunicar com a plateia brasileira sem atravessadores. O artista no palco parece querer abrir-se e revelar-se e, com isso, a seu povo também.

Ele vem do Congo, país açoitado por todos os tipos de mazelas colonialistas e que viveu e vive o horror de ver seu povo dizimado, seja na concretude do violento fim da vida, seja na conversão cultural em nome de uma outra cultura e um outro Deus.

É tudo isso que o corpo negro, frágil e altamente potente do bailarino expressa todo o tempo, mesmo que de forma minimalista. Mesmo que seu relato minimalista e repetitivo possa despertar o enfado em alguns, até isso pode ser ressignificado como a falta de importância ao outro, como o mundo faz com seu país, o Congo.

Linyekula compartilha com o público sua história em A Carga - Foto: Ivson Miranda/Itaú Cultural/Divulgação

Em português, Linyekula compartilha com o público sua história em A Carga – Foto: Ivson Miranda/Itaú Cultural/Divulgação

Linyekula evoca vozes de sua infância e se questiona sobre o que dançou ao longo de sua vida. Impossível não recordar o subjugo da dança a técnicas europeias que aprisionam os corpos em passos com nomes em francês num desprezo ao movimento que possa ser diferente, espontâneo e libertador. E isso o artista, que dançou muitos anos na Europa, parece saber muito bem.

A dança muitas vezes pode ser uma camisa de força, que Linyekula desata com sua voz e seus corpo.

O artista congolês vai em busca de uma dança ancestral, insciente, fecha os olhos. Ele se funde com as vozes e ritmos de seus antepassados, numa tentativa de aproximação com seus arquétipos.

Se tal ancestralidade é demonizada pela imposição religiosa evangélica, que apregoa que tudo que é próprio ao negro vem de Satã, num racismo perverso e institucionalizado pela religião, Linyekula resiste.

O artista congolês também recorda sons de sua infância - Foto: Ivson Miranda/Itaú Cultural/Divulgação

O artista congolês também recorda sons de sua infância – Foto: Ivson Miranda/Itaú Cultural/Divulgação

Com pesar, conta que o maior percussionista que conheceu na infância hoje é pastor e está proibido pela igreja de tocar tambores, vistos como demoníacos. Nada muito distante da realidade bitolada do Brasil que persegue umbandistas e candomblecistas, com ataques de fanáticos atiçados por pastores criminosos.

O principal recado de Linyekula é o da resistência. Ao contar sua história e a de seu povo, ele a torna viva. O público entra em contato com o que não costuma chegar até ele. Até porque a África quase nunca faz pauta dos noticiários, onde o Congo parece não importar. E ele vive o Congo no palco, com todos seus dilemas e dissabores. Todo o peso do horror vivido.

Linyekula nos aproxima de seu povo com seus passos tímidos, seu relato sóbrio e os retratos que traz em seu notebook, os quais apresenta à plateia ao fim de sua apresentação num compartilhamento de suas memórias mais íntimas. Este conjunto de ações tornam o congolês no palco muito próximo a cada um de nós. Ao compartilhar seu fardo e de seu povo, o artista se liberta de sua dor. Nem que seja só por mais uma sessão.

*O jornalista MIGUEL ARCANJO PRADO é crítico convidado pela direção da MITsp para participar da ação Prática da Crítica.

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