“Envergonhado”, Claudio Botelho pede desculpas a Chico Buarque, que aceita

Chico Buarque e Claudio Botelho: cantor e compositor está espantado com falas do ator e diretor de musicais - Foto: Divulgação

Chico Buarque e Claudio Botelho: cantor aceitou as desculpas do ator e diretor – Foto: Divulgação

Por MIGUEL ARCANJO PRADO

O ator e diretor Claudio Botelho resolveu fazer um pedido público de desculpas a Chico Buarque pelo ocorrido no último sábado (19), no Sesc Palladium, em Belo Horizonte, quando chamou Lula e Dilma de “ladrões” durante espetáculo com músicas de Chico Buarque no qual atua e dirige. A plateia reagiu com gritos de “não vai ter golpe”.

Na sequência, um áudio vazado na internet ainda mostrou Botelho aos berros no camarim após a sessão da peça ser encerrada antes do fim. Na conversa com a atriz Soraya Ravenle ele declara: “Um ator não pode ser peitado por um negro [o ator afirma que usou a expressão nego para se referir a alguém e não a um homem negro], um filho da puta”. Ele ainda se comparou a Chico Buarque, perseguido na ditadura,  e ao episódio em que consevadores criminosos espancaram o elenco de “Roda Viva”, de Chico, com direção de Zé Celso em 1968.

Após o episódio em BH, Chico preferiu retirar a autorização de Botelho usar sua obra em espetáculos.

Nesta terça-feira (22), Botelho utilizou o Facebook para se expressar, após ter apagado a conta no último domingo. E pediu desculpas a Chico, de quem diz ser fã. Contudo, no texto ele não pede desculpas à comunidade negra que se ofendeu com sua fala no camarim, interpretada por muitos como racista.

Ao tomar conhecimento do pedido de desculpas, Chico Buarque aceitou, informou a assessoria do cantor e compositor.

Veja abaixo o texto escrito por Botelho na íntegra:

“UM PEDIDO DE DESCULPAS

Os incidentes do último sábado em Belo Horizonte durante a sessão do musical TODOS OS MUSICAIS DE CHICO BUARQUE EM 90 MINUTOS são do conhecimento de todos, eu suponho. Emiti uma opinião pessoal que causou reação negativa de uma parte da plateia. Mais do que isso, o espetáculo foi interrompido e a sessão não chegou ao final.

Deste acontecimento infeliz que me tem causado enorme desgosto desde então (ameaças à minha integridade física pelo Facebook, telefone, trotes, acusações diversas sobre meu caráter e minha honra, insinuações sobre meu pensamento a respeito de temas delicados como racismo, autoritarismo, censura, entre outros) – desde aquele momento, apenas sofro, penso e repenso, estou muito triste. Porém minha tristeza é o que menos interessa neste momento.

Mas há algo fundamental e definitivo: peço desculpas a Chico Buarque. Nada do que vier de mim, nenhuma palavra, gesto ou pensamento, poderá jamais servir para desagradá-lo. Ele é o autor, o compositor, e estou trabalhando com sua obra. Desta forma, reconheço sua soberania a respeito de tudo que envolva seu nome e sua criação. O simples fato de mencionar qualquer assunto ligado a Chico (citei em entrevistas, equivocadamente, o histórico atentado à peça RODA VIVA nos anos 1960, que não têm qualquer semelhança com o fato do último sábado; citei episódios de repressão pelos quais ele passou, assuntos que não são de minha alçada e que não têm qualquer ligação com o incidente de sábado passado) é inaceitável, não tenho nenhum direito de inferir, pressupor, fazer ilações com nada que se refira ao autor, seja Chico ou qualquer outro artista que me autorize a trabalhar com sua obra. Minha obrigação – por ética e respeito – é ser cuidadoso, reverente, e em nenhuma hipótese atingir a história, o pensamento, a identidade de quem me permite generosamente colocar em cena suas obras. Este é meu dever como diretor, ator, e produtor. .

Errei. Erro muito. Sou humano, mas isso não me desculpa. Aos 51 anos, sendo também autor e sendo um homem de história longa no teatro, eu tinha por obrigação preservar o autor e sua obra, não permitir que nada partindo de mim resvalasse nele, seja da forma que fosse. Por ser um admirador apaixonado e mais que isso, um pretenso “buarquiano” de carteirinha, minha responsabilidade é ainda maior. Dirigi e produzi ÓPERA DO MALANDRO, SUBURBANO CORAÇÃO, OS SALTIMBANCOS TRAPALHÕES (peça e filme que acaba de ser realizado com minha direção musical), NA BAGUNÇA DO TEU CORAÇÃO, ÓPERA DO MALANDRO EM CONCERTO, e idealizei TODOS OS MUSICAIS DE CHICO EM 90 MINUTOS como uma maneira de reverenciar o artista, o compositor, o autor. Mas falhei com minha responsabilidade, com Chico, falhei com o teatro e com a música.

Um áudio clandestino, gravado em meu camarim, me flagra num momento de enorme nervosismo, de destempero, de raiva. Nada justifica que invadam minha privacidade, considero a gravação um ato criminoso e a divulgação dela pelas mídias sociais é uma agressão à minha intimidade. Portanto, isto está sendo tratado em esfera policial e jurídica. Mas mesmo assim, por ter sido duro, descortês, arrogante e destemperado (o momento era muito inflamado), peço desculpas a todos que ouviram aquele Claudio Botelho sem compostura. E, se atingi alguém, mesmo tendo sido violada minha privacidade, peço novamente desculpas.

Minha exaltação e qualquer menção à obra do autor naquele dia são motivo de vergonha para mim neste momento. De qualquer forma, ouso crer que, por mais desatroso que tenha sido o acontecimento, o teatro ainda é um espaço que pode levantar debates nacionais de extrema relevância e repercussão. O teatro é sagrado e será sempre um espaço livre, de troca de ideias e de respeito às diferenças. Assim espero e por isso torço.

Envergonhado por ferir um estatuto sagrado do Teatro – respeitar o autor e público –, tenho obrigação de invocar novamente a única palavra que me parece oportuna neste momento: perdão.

Sinceramente,

Claudio Botelho”

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11 Resultados

  1. Paula disse:

    Não gosto do Cláudio Botelho e não gostei do Musical ‘Todos os Musicais de Chico em 90 Minutos’, mas não dá realmente para analisar toda a história de uma pessoa, apenas por um momento de destempero, inflamado pela mídia, inflamado por este tenebroso clima fla-flu que tomou conta do país. Também não é de bom tom gravar escondido a conduta inflamada de alguém. Este momento só serve para que todos nós reflitamos sobre a nossa conduta, na intimidade e em público. Pode ser que o pedido de desculpas emerja de pressão de patrocinadores. Que importa? Importa é que a tônica do momento é a coerência: no falar, no agir, no reagir. Outra coisa que me convenceu foi a explicação de que ele não foi racista, usou um termo que todo mundo usa e foi utilizado também para piorar sua situação; no mais, se ele é racista, não me parece que foi aquela palavra específica que o categorizou, e não me parece tipificar o crime. Gostei da explicação. Repito: não gosto dele, mas respeito sua trajetória profissional e sua fala me convenceu. Ah, sou negra.

    • Phillipe disse:

      Paula, parabéns efusivos por sua inteligência!
      Penso da mesma forma.
      Você foi de um brilhantismo extremo em sua manifestação.

  2. Jarimar disse:

    Então, o ator se sente invadido por um áudio clandestino. Sua privacidade, segundo ele, foi invadida por uma gravação criminosa. Não sei porque isso o afetaria, pois ele aprova gravações criminosas e invasão de privacidade para os outros. E ainda usa o palco para julgamentos com base em informações altamente manipuladas pela mídia hegemônica. Se adotarmos o mesmo julgamento desse ator, pergunto-me: ele deveria ser preso e linchado moralmente? Ou será que ele tem dois pesos e duas medidas? Ele quer privilégios, então? Ou será que é melhor a Constituição valer valer para todos, independente de etnia, partido político, gênero etc.?
    Seja menos parcial, Claudio Botelho!

  3. vera oliviera disse:

    é, na hora que vê que vai perder dinheiro…

  4. Celia Mello disse:

    Foi muito bem instruído. Era realmente o mínimo que ele deveria ter feito e, como pegou no bolso dele, o fez. Que aprenda com isso. Achei válido.

  5. Evandro Nunes disse:

    Nota de Repúdio à conduta do ator e diretor Cláudio Botelho no espetáculo “Todos os Musicais de Chico Buarque em 90 minutos”.
    Durante muitos anos em nosso país, nós, artistas, militantes, profissionais da comunicação e outras pessoas buscamos pelo exercício da liberdade de expressão, estando à frente de tal empreitada. Não queremos dar um passo atrás quanto a isso, assim como não daremos um passo atrás contra o racismo, o machismo, a homofobia e tantas outras violações.
    Um artista que usa seu trabalho como plataforma política, num momento de grande delicadeza pela qual passa o país, está alienado e indiferente quanto ao seu tempo. Quem ouve, gosta e sabe da história de Chico Buarque, provavelmente pode demonstrar um posicionamento crítico em relação ao atual governo – diferentemente de Cláudio Botelho, cidadão da cultura que demonstrou ignorância em sua pretensa tentativa de protesto.
    Fato é que a plateia compreendeu que o ator mencionado não estava fazendo uma crítica ao governo, mas utilizando-se do espaço artístico fazendo coro à um golpe contra a institucionalidade democrática. Igualmente insatisfeitos estamos com a atual gestão, porém temos a decência de defender a democracia como pilar fundamental para exercício da nossa cidadania e defesa de nossos direitos – inclusive, o livre direito de expressão.
    Enquanto pessoa e fora do seu personagem, Botelho incitou a plateia ao ódio – e com ódio foi correspondido. O que nos deixa perplexos diga-se de passagem, além do episódio ocorrido no palco, o que se sucedeu-se nas coxias do Sesc Palladium. Em um momento de fúria, o ator vociferou que “O artista no palco é um rei! Não pode ser peitado! Não pode ser interrompido por um nego, por um filho da puta!”.
    A quem foi direcionado esse xingamento? O pensamento impregnado por palavras, atos e atitudes racistas está naturalizado, quando se usa o termo “nego” com conotação negativa, discrimina-se toda uma população considerada marginal, simplesmente por ser negra. Como nos revela Leda Maria Martins, “na construção dos saberes e das verdades que legitimam e veiculam preconceitos raciais, étnicos, de gênero, dentre outros, a linguagem verbal desempenha um papel ímpar. O uso do signo linguístico constitui uma das formas mais perversas de segregação e controle”.
    O uso de tal termo num xingamento não foi meramente casual, entendemos porque o rechaço à sua intervenção no palco incomodou tanto: o branco, ator, em seu lugar de privilégio, não suportou o fato de ser questionado e interrompido por um negro? Tratado pelo mesmo como “nego”, afim de inferiorizá-lo através do discurso.
    Nós do Coletivo Pretxs em Movimento, estamos mobilizados na luta permanente contra a secular e constante naturalização das opressões e violências direcionadas aos povos negros e que mantém o racismo estruturado na sociedade desigual, que é o Brasil. O combate a corrupção é essencial e que seja feito de acordo com a constituição zelando pelas garantias que não afrontem a soberania nacional em consolidação que caminha junto a expansão das acoes afirmativas no país.
    Belo Horizonte, 22 de março de 2016.
    Grupo Pretxs em Movimento
    [email protected]

  6. Vai ver, nem foi ele quem escreveu este pedido de desculpas. Não tem a cara dele e além do mais, são apenas palavras… Papel aceita tudo. O que ele demonstrou no palco, xingando raivosamente o público com arrogância, não tem perdão, embora, Jesus tenha nos ensinado que devemos perdoar sempre… No entanto, a reação do público o está mostrando, de alguma maneira, que é preciso descer do pedestal em que se encontra e olhar ao redor, perceber a realidade do país e deixar de ser preconceituoso, racista e arrogante. Parabéns a esta platéia que o vaiou! Adorei!

  7. ADEMIR disse:

    Em tempo:
    Preconceituoso; arrogante, intolerante; individualista (como, praticamente, todos nós); egoísta (como, praticamente, todos os capitalistas); R A C I S T A; … Tomara que um dia mude.

  1. março 22, 2016

    […] Leia: Claudio Botelho pede desculpas […]

  2. março 22, 2016

    […] Leia: Claudio Botelho pede desculpas […]

  3. março 23, 2016

    […] episódio “Claudio Botelho” e seu pedido de desculpas deixou uma coisa – que todos nós pretos já sabíamos, aliás – bastante evidente: o […]

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