Diva do começo ao fim, Phedra D. Córdoba transformava a vida em cena

Phedra D. Córdoba: diva cubana foi um dos nomes mais potentes e queridos do teatro brasileiro - Foto: Bob Sousa

Phedra D. Córdoba: diva cubana foi um dos nomes mais potentes e queridos do teatro brasileiro – Foto: Bob Sousa

Por MIGUEL ARCANJO PRADO
Fotos BOB SOUSA

Dizem que as divas estão em extinção. Acho que é verdade. São raríssimas. Únicas e inigualáveis. Por isso me sinto privilegiado. Porque pude não só conhecer como conviver com uma diva das grandes, chamada Phedra D. Córdoba.

Ainda é difícil lidar com sua morte. Sabíamos que ela estava doente, mas uma diva não morre. Isso é impossível. Uma diva não perde o brilho, a força, jamais. É viva que Phedra permanece em minha mente.

Lembro-me da última vez que a vi, já doente, internada no Hospital Heliópolis, poucas semanas atrás. Passamos um domingo inteirinho juntos. Só nós dois naquele quarto de hospital.

Ela falava de tudo, com vida, com força, com a aquele jeito dramático que só a Phedra tinha. Falou do livro biográfico que escreveu e que eu teria de publicar para ela, por mais que eu tentasse fugir deste tema, que me lembrava o fim.

Phedra D. Córdoba transformava em cena a própria vida - Foto: Bob Sousa

Phedra D. Córdoba transformava em cena a própria vida – Foto: Bob Sousa

Como uma criança, preferia conversar sobre coisas simples, sobre gente, sobre teatro, como sempre fizemos. Não queria que a urgência da partida estivesse presente naquele encontro. Fugia do tema, como um menino desesperado que não quer encarar a verdade.

Então, começamos a falar sobre o show que ela fez em um navio, de quando brilhou na calle Corrientes em Buenos Aires, de quando era criança, menino, e a mãe, inconformada com diva que já se manifestava, a levou ao psicólogo. Falamos de Satyros, de praça Roosevelt, dos amigos que visitavam sem parar naquele hospital.

No fim da manhã, de repente, ela falou: “Você vai amar a comida daqui. É ótima. Pedi almoço para nós dois”, contou, toda orgulhosa. “Estão me tratando como uma rainha”.

Dito e feito, ao meio dia, pontualmente, chegou a divina comida do hospital. Assim, almoçamos juntos. Ela comendo o purê de batatas delicioso, e eu, arroz, feijão, carne e purê. Ao ver que comi tudo, ela piscou para mim, cúmplice, sorrindo, e disse: “Não falei que era gostosa?”. E era saborosa mesmo. Ainda mais por ter sido meu último almoço com Phedra.

Phedra D. Córdoba, a grande diva cubana que o teatro brasileiro teve o privilégio de ter - Foto: Bob Sousa

Phedra D. Córdoba, a grande diva cubana que o teatro brasileiro teve o privilégio de ter – Foto: Bob Sousa

É assim que Phedra fica para mim. Uma diva que dava brilho e intensidade às frases mais simples e banais do dia a dia. Transformava a própria vida em cena. Colibri, jatobá, loba, como diz a canção que Luiz Pinheiro compôs para ela.

“Meu amigo jornalista Miguel Arcanjo!”, ela dizia sempre que nos encontrávamos ou falássemos ao telefone. Gostava de dar peso ao encontro. Dar brilho.

Desde a primeira vez que a vi no palco, recém chegado a São Paulo, constatei que Phedra era um mito. E, desde então, passei a cobrir jornalisticamente sua vida de forma minuciosa, como as divas merecem ser tratadas pela imprensa.

“A Mônica Bergamo gosta muito de mim”, falava, orgulhosa de já ter estampado uma página inteira da principal colunista do Brasil. “E você, Miguel Arcanjo, é o meu jornalista e crítico de teatro preferido”, dizia também, para me deixar lisonjeado.

Além de amiga, Phedra foi minha entrevistada preferida. Profissionalíssima, sempre que marcávamos uma matéria, ela estava lá pontualmente à minha espera. Já pronta para a conversa e a sessão de fotos. Jamais vou me esquecer quando, acompanhado do fotógrafo Bob Sousa, fizemos o ensaio especial para seus 75 anos no Parque da Luz. Nunca vi uma atriz posar para fotos com tanta presença. Phedra sabia lidar com a câmera, que a amava.

Phedra D. Córdoba dominava a câmera e as palavras - Foto: Bob Sousa

Phedra D. Córdoba dominava a câmera e as palavras – Foto: Bob Sousa

E com as palavras também. Sempre que a entrevistava era garantia de matéria das melhores. Porque Phedra tinha muitas histórias para contar. E sabia contá-las como ninguém. Com os detalhes fundamentais.

Por isso, sempre gostava de telefonar para ela, para saber das novidades. Como boa diva que era, Phedra adorava falar ao telefone. Gostava que eu ligasse no fixo, em casa. O papo que duraria dez minutos virava uma hora com a maior facilidade do mundo.

Falávamos de tudo e de todos. E ela sempre adiantava um projeto para o palco que queria que saísse do papel. Porque projetos ela sempre tinha muitos.

Phedra sabia ser amiga como ninguém. Por isso, no fim, teve todos os seus amigos ao redor. Ela era de verdade, não fingia sentimentos. Quando gostava de alguém era algo profundo. Único. Sabia cativar as pessoas.

No palco, Phedra D. Córdoba, com presença e carisma inquestionáveis, sempre roubou a cena - Foto: Bob Sousa

No palco, Phedra D. Córdoba, com presença e carisma inquestionáveis, sempre roubou a cena – Foto: Bob Sousa

E no palco, ah, no palco, não tinha para ninguém. Phedra D. Córdoba sempre roubou a cena. Brilhou intensamente. Foi a melhor de todas. De todos. Presente no palco até o último fio de cabelo. Demonstrando técnica precisa imersa num mar de carisma.

Vi a última vez que pisou no palco, como atriz, na peça Pessoas Sublimes. Era um domingo e quis o destino que seu crítico preferido testemunhasse sua despedida do palco como atriz. E assim foi. E ela foi impecável, mesmo já doente. Apenas com sua presença, como a Cantora Sem Voz, marcou a cada um daqueles espectadores.

Ao fim da sessão, voltou para receber os aplausos de cabeça erguida e sorriso estampado no rosto. Poucos minutos antes estava passando mal na coxia. Mas fez questão de voltar para os aplausos. Não os perderia jamais.

Estava feliz por estar ali, no palco, local onde escolheu passar toda uma vida. E conseguiu. Phedra D. Córdoba foi diva do começo ao fim.

Phedra D. Córdoba e Miguel Arcanjo Prado: "Meu jornalista e crítico de teatro preferido", ela dizia - Foto: Bob Sousa

Phedra D. Córdoba e Miguel Arcanjo Prado: “Meu jornalista e crítico de teatro preferido”, ela dizia – Foto: Bob Sousa

Veja Phedra na peça Transex, de 2004:

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5 Resultados

  1. Lucianno Maza disse:

    Que lindo, Miguel!
    Obrigado por sempre ter dado tanto respeito, dignidade e reverência à querida diva Phedra.
    Eu gostava sempre que ela surgia em suas notas e matérias.
    Ela sempre falava orgulhosa de você.
    Um abraço sincero

  2. Phillipe disse:

    Que texto emocionante! Que linda homenagem, Miguel! Somente você poderia e saberia escrever tão bem sobre Phedra. E a foto de vocês dois não poderia ser de outro, a não ser Bob Sousa. Porque foi certeiro como uma flecha ao captar a cumplicidade de vocês. Desejo que ela e Naum descansem em paz! E fico feliz porque, no final da vida, ela pôde ser compreendida e admirada pela artista entregue que era e não pela pessoa que, no passado, a sociedade tantas vezes apontou de forma recriminatória. Você, Luiz Pinheiro, Gero Camilo, Paula Cohen, Cléo de Páris, Maria Casadevall, o Robson Catalunha, Ivam Cabral e todos os demais que estiveram envolvidos nos últimos acontecimentos relativos a ela foram de uma generosidade impressionante. Porque, ao final, Phedra somente queria amor. Desde quando passei a ler o blog, passei a ler as entrevistas por interesse, para ver como são as pessoas por detrás dos artistas; em alguns casos, apreciei muito; noutras vezes, confesso que torci um pouco o nariz para algumas colocações de alguns entrevistados. Mas, de Phedra, para mim, sempre transbordou nas entrevistas um imenso desejo de amor: de dar amor, de receber amor. Creio que ela tenha sido uma pessoa generosa – e, se não o foi mais, é porque lhe faltavam meios – e, apesar de todas as tempestades emocionais comuns às divas, acredito que ela tenha sido alguém muito capaz de afeto. Hoje a Praça Roosevelt está mais triste, mais vazia, por causa da ausência de uma de suas maiores estrelas. Mas, apelando para a bela e poética leitura do atemporal “O Pequeno Príncipe”, hoje Phedra brilha no céu como a estrela que é: sem rótulos de gênero, sem cobranças, apenas luz. Uma luz de amor.

  3. Rodrigo Alves disse:

    Muito lindo tudo o que escreveu, desde o sábado. Estava na fila de um show, aqui em Pira, quando veio a sua postagem sobre a morte de Phedra. Li com muita tristeza. E depois, mesmo em Minas, numa viagem de um dia, acompanhei cada uma das postagens. Só a vi atuar em Pessoas Sublimes, um grande privilégio. Triste a despedida, mas você foi muito feliz em todas as palavras. Triste a despedida, mas lindas as suas lembranças com Phedra.

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