“Ninguém sobrevive a 24 horas de grampo”, diz Pedro Granato, de Vermelho Labirinto

Anna Zêpa e Rita Grillo em cena de Vermelho Labirinto, peça de Pedro Granato - Foto: Divulgação

Anna Zêpa e Rita Grillo em cena de Vermelho Labirinto, peça de Pedro Granato – Foto: Divulgação

A peça Vermelho Labirinto chega à reta final de sua temporada no Sesc Pinheiros, em São Paulo, misturando o mundo das artes e a política, com as atrizes Anna Zêpa e Rita Grillo em cena. Vai até 16 de abril, de quinta a sábado, às 20h30, com entrada a R$ 25. O endereço é rua Paes Leme, 195, Pinheiros, em São Paulo. Diretor e dramaturgo da obra, Pedro Granato escreveu sobre a peça a convite do site. Leia com toda a calma do mundo:

ENTRAMOS NO LABIRINTO

Por PEDRO GRANATO

“Quebra o sigilo das pessoas, só vai dar merda. Não vai ter mais amizade, casamento, governo…”

“Vermelho Labirinto” nasceu de uma inquietação com o conceito de “mentira”. Como desenvolver um trabalho que coloque em cheque as múltiplas visões sobre um mesmo fato.

Começamos com o ciúme na era virtual, a mania cada vez mais frequente de invadir a intimidade alheia e dar intenções para frases escritas, fotos, completar fragmentos. Estamos o tempo todo interpretando.

À medida que me debrucei no assunto, quis buscar profissões em que existe uma grande tensão entre o que é dito e a “verdade”. Uma advogada de um político e uma performer que está sempre interpretando. Dois polos a princípio opostos em que a subjetividade e a forma de encarar um mesmo fato são centrais. Um triângulo em que o vértice está oculto, um personagem masculino sem falas e sem direito ao seu ponto de vista.

Já sentia um movimento muito grande da sociedade brasileira em direção a um conceito hipócrita de que todos têm direito de saber tudo de todos. Como se para saber uma “verdade” tivéssemos o direito de invadir e atropelar toda subjetividade alheia. Ninguém sobrevive a 24 horas de grampo.

Isso acontece em uma relação pessoal e acontece na política. Então, a trama de ciúme foi se misturando às delações, gravações ilegais, discursos políticos e um pouco disso que estamos sendo bombardeados diariamente. Como um personagem em busca da “verdade” acaba caindo em um labirinto. A estafa das pessoas com os escândalos políticos, a performer que só usa vermelho e é atacada por isso. A política misturada na vida íntima.

Só que esse labirinto foi tomando forma no mundo real, em uma histeria coletiva em direção à violência. Estreamos no dia em que os grampos envolvendo a presidente e o ex-presidente se tornaram públicos. Os grampos da peça ganharam outra conotação, como se o texto tivesse sido escrito no dia. Pessoas e até crianças sendo agredidas por uma cor de roupa. Vimos chocados como uma advogada atravessou todas as fronteiras da civilidade com um discurso de ódio, reproduzindo a desconstrução que a advogada da peça sofre. Ficamos em uma encruzilhada em que a arte e a vida se realimentam diariamente dando novos sentidos para o trabalho a cada dia que passa.

Nossa primeira temporada se encerra neste sábado, véspera da votação de um impeachment que se tornou uma guerra de versões de todos os lados. Mas quem se preocupava com a verdade mesmo?

Pedro Granato, autpr e diretor de Vermelho Labirinto - Foto: Bob Sousa

Pedro Granato, autpr e diretor de Vermelho Labirinto – Foto: Bob Sousa

 

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1 Resultado

  1. Phillipe disse:

    Penso que, se não há nada comprometedor, não há a necessidade de grampo. Quando há o uso de grampos, é sinal de que há indícios de algo que deve ser investigado. E creio que isso está absolutamente certo.

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