República Senegal

praca da republica
Por DAYSE PORTO*
Jornalista e criadora de conteúdo cultural escrito e em audiovisual. Passou por Grupo Mix, SBT, Rede Bahia, TVE Bahia. É mestre em Comunicação e Semiótica pela PUC-SP. Especialista em roteiro, fez curso na EICTV-Cuba. É diretora executiva da Movida Produtora de Conteúdo.

Centro de São Paulo, de dentro da loja de moda estilo “rocker”. Entre coturnos, cintos com tarraxas e camisetas de bandas, Mariana, pele branca e cabelos lisos pretos, observa observa o movimento da praça, agora tomada de banquinhas e panos estendidos no chão com mercadorias, comércio informal montado por homens muito pretos, chamados todos pelo genérico nome “africano”. Alguns usam vestes coloridas, em conjunto, batas e calças do mesmo tecido e estampa, em que o verde, o amarelo, o vermelho costumam marcar presença de longe. Falam em muitas línguas, às vezes francês, ou em um português de outras músicas. Vendem tecidos e batas também “africanos”, além de esculturas e relógios. São muitos os relógios dourados.

Entre todos, chama-lhe a atenção um rapaz de aparentemente 18 anos, alto e magro, de braços e pernas alongados, olhos de fundo amarelado e pupila preto-acinzentada, cabelos crespos, que embora curtos não eram fossem tão rentes à cabeça, eram visíveis em cachos crescidos. Mariana olha com interesse: estar ali diante daquelas pessoas era uma novidade de experiência.

Ela pede para Jaci, vendedora da padaria ao lado, ficar um minuto na lojinha. Vai até a banca do rapaz, na calçada, e tira do braço um relógio preto, discreto, bem diferente dos modelos dourados, de lata, expostos .

_ Oi ! … Tem alicate para consertar esse relógio? – gesticula muito, supondo não ser completamente entendida.
_ Esse, dez reais – diz o jovem, com sotaque, enquanto aponta para o relógio mais berrante e recomenda outros, não muito mais discretos.
_ Não! É só para consertar. Alicate. – gesticula.
_ Ah sim! – Aziz pega o relógio e o conserta.
_ Quanto? – ela mexe os dedos como se contasse dinheiro.

Aziz faz que entende e diz que não é nada. Mariana insiste, quase lhe joga uma nota de cinco reais sobre a banca, Aziz acaba aceitando, sorri muito.

_ Obrigada – responde Aziz.

Mariana olha para dentro da lojinha e já vê uma Jaci entediada atrás do balcão, mas mesmo assim puxa papo.

_ Você é de onde?
_ Ah, não fala português.
_ Nome! Seu Nome! – aponta para si – Mariana. – aponta para Aziz – Seu Nome?
_ Aziz.
_ Aziz! Bonito. Você veio de onde?
_ Africano.
_ País!?
_ Senegal.
_ Tá há a quanto tempo aqui?
_ Ah… Não fala português.
_Tempo! Quanto Tempo?
_Tempo? Não … Tempo?

Os dois riram da incompreensão. Ele não conhecia a palavra “tempo”, ela achou engraçado e simbólico porque o tempo lhe angustiava muito. Mariana voltou para a loja e agradeceu a Jaci.

_Que coisa, a pessoa chega aqui sem nem falar a língua, tudo estranho, meu Deus.
_Vai saber o que fizeram lá no país deles para fugir para cá.
_Fogem de guerra, menina! Da fome!
_Eu que nem sento do lado no metrô.
_Coitados.

estampas-africanasJaci sai da loja mandando beijos no ar. Do balcão, Mariana olha pensativa Aziz e seus colegas de calçada. São bem humorados, riem entre si, fazem graça, mas a verdade é que interagem pouco com as pessoas em redor. Se reparar bem, alguns passam solitários e distantes, mudos, sem falar a língua estrangeira de suas novíssimas casas. O olhar de Aziz cruza com o de Mariana: olhar vivo, ainda com esperança. – Como ele conseguia ser alegre? – Ela sorri de volta, acena e desvia o olhar em direção à pilha de mercadorias desorganizadas no balcão.

Na calçada, uma mulher branca, bem-vestida, cerca de 60 anos, desacelera o passo em frente à vitrine da loja em promoção. Um rapaz de pele morena, mestiço, muito jovem, aproxima-se observando fixamente a bolsa da mulher e trocando olhares com outros dois jovens que caminham a alguns metros, bem diante da loja de Mariana. Aziz observa o movimento que se anuncia, Mariana percebe tudo e troca olhares com o senegalês: os dois sabem que haverá um roubo.

Como num pulo do gato, o rapaz puxa a bolsa da mulher. A vítima grita, Aziz, mais ágil ainda, interpela o assaltante e lhe toma a bolsa num reflexo, evitando o roubo. Os gritos e a cegueira nervosa da mulher transtornam a realidade. Enquanto Aziz ainda se preocupa em apontar o ladrão e tenta correr atrás dele, que lhe escapou das mãos, os rapazes cúmplices do assaltante o detém e acusam. Passantes, comerciantes, aproximam-se com dedos apontados para Aziz e lhe segurando pela blusa. Era tarde, estava acusado do crime que tentava evitar. Muitos já lhe cercavam com palavras de ódio, enquanto senhoras respeitáveis amparavam a assaltada devolvendo-lhe a bolsa. A mulher, ainda não recomposta, esforça-se para se aproximar de Aziz e lhe cuspir na cara.

_ Veio lá do inferno! Coisa boa não podia ser!

Mariana abaixa a porta da loja e se aproxima das pessoas tomadas por uma energia estranha, raivosa e sem fundamento evidente. Já os imigrantes da República se dispersam assustados, uns puxando os outros mais destemidos, que queriam sair em defesa de Aziz. Quem lhes daria razão? Afastam-se ouvindo insultos, acuados, a palavra “africano” proferida como a pior das ofensas.

_ Não foi ele. Balbucia Mariana apenas para si mesma, já temerosa da multidão que achincalha Aziz.

Entre gritos de “pega”, “esfola”, “preto descarado”, um homem brada ao berros:

_ Eu vi tudo! Ele tava aí disfarçado de vendedor, e pulou na bolsa da senhora!
_ O senhor viu? – Mariana, estarrecida.
_Vi, sim! Esse preto, Deus me perdoe!

O homem parecia prestes a infartar. Evitando enfrentá-lo, Mariana virou-se para uma mulher que observava a situação com calmo interesse.

_Eu acho que não foi ele – disse Mariana em busca de apoio.
_ Alguma coisa, ele fez!

Dali dava para ver os primeiros socos em Aziz. No rosto, no estômago, alguns empurrões e chutes. Mulheres batem com as bolsas, homens incitam a violência. Frio nas pernas de Mariana, uma súbita resistência em aceitar que tudo aquilo era verdade; há instantes era uma tarde fresca e ela havia sorrido para Aziz.

Policiais chegam correndo ao mesmo tempo em que uma viatura vira a esquina em velocidade. Parte da pequena multidão se dispersa. Fardados imobilizam Aziz, já bastante machucado, tentando em desespero dizer que não havia sido ele: apontava para a direção em que o ladrão havia fugido, misturava poucas palavras em português com francês. Depois se resignou, entendeu ser em vão. Mariana aproxima-se, ainda atônita. Escuta algumas pessoas descreverem a situação em detalhes, testemunhando contra Aziz com uma veracidade indubitável.

_ Mas não foi ele – Mariana fala para alguém ao lado, ainda sem coragem. Mas acabou falando em tom suficiente para ser ouvida.
_ Você viu? Tem três pessoas aqui dizendo que foi ele. Qual seu nome? – pergunta-lhe o primeiro policial.

Policiais e falsas testemunhas voltam-se para a vendedora. O senhor que há instantes bradava com detalhes a maneira com que Aziz tinha saltado sobre a bolsa da pobre vítima, olhava com desprezo para as suas tatuagens. Um lapso de esperança surge em Aziz, que mesmo de cabeça baixa, imobilizado por um dos policiais, volta os grandes olhos amarelados para Mariana.

_ Você viu quem foi? – questiona o segundo policial.

Mariana olha em redor: as testemunhas mentirosas, os curiosos, os perversos. Nota, a poucos metros, um dos rapazes cúmplices do assaltante lhe encarando em tom de ameaça.

_ Desculpa, moço. – responde ao policial.
_ Viu ou não viu?
_ Eu achei… Não sei, não vi direito.

Os olhos agora baixos de Mariana, viam o meio fio, os coturnos dos policiais, os chinelos de Aziz, e tinham certo medo de encarar o mundo. Mesmo assim, suspendeu a vista até cruzar com Aziz. Olhos de mágoa dele, de desapontamento cobravam-lhe verdade, senso de justiça. Os olhos amarelados de íris preta, inesquecíveis.

Pessoas falaram coisas que Mariana já não conseguia escutar, talvez mencionando o agravante de o assaltante ser estrangeiro, refugiado. Com aquela, ele estava perdido, todos sabiam. Uma força de gelo segurou os pés de Mariana no chão, esfriava-lhe um frio vindo de um lugar desconhecido dentro de si. Viu Aziz ser levado, ainda se esforçando para lhe encarar. Da viatura, o jovem ainda conseguiu olhar duro para ela até o carro sumir na esquina, até não poder mais virar o pescoço.

Na praça da República, a larga calçada, os vendedores ambulantes e os que gritavam ofertas nas portas das lojas, tudo era um borrão confuso, de cores e sons. O largo permaneceu lá do outro lado da rua, com aquele grande prédio que nunca soube o que era. Tudo cada vez mais longe, enquanto Mariana se reportava a uma outra dimensão, inferior: sentia-se um nada.

Olhou em ao redor e achou inadmissível tudo ter voltado à normalidade. Os passantes em seu caminho, os trabalhadores em suas funções, os errantes iguais, errando. Só “os africanos” não estavam mais lá, e Mariana sentiu muita falta deles, vontade de que algum se aproximasse e lhe dissesse: “você não podia fazer nada”.

O olhar de Aziz foi seu companheiro pelo resto do dia. Não vendeu nada, mal ouvia os poucos clientes que entraram na loja. A beleza do fim da tarde foi um desperdício. Mariana sequer sentiu a brisa fresca da noite chegando. Fechou a loja sem energia e saiu com passos curtos, carentes de objetivos, arrastando pedras portuguesas.

Passou sem notar a travesti que todos os dias lhe cumprimentava na esquina. Era para descer a escada do metrô, mas uma inconformidade consigo mesma lhe fez passar direto. Ousou andar por perímetros que não eram os seus, fora de sua rotina de manada, e como poucas vezes fez, partiu sem destino pelo centro de São Paulo.

Cada rua tinha seu perfil de prostituição: travestis, michês, mulheres, outros, sem necessidade de definição. Os moradores e trabalhadores também passavam sem se incomodar.

Subiu e desceu vielas, homens saiam de um bar comunista na Abolição, casas bonitas, habitadas, brotavam em pequenas vilas familiares, tranquilas, em meio à babilônia central. Tinha passado por ali algumas vezes, mas não havia decorado o caminho, mal sabia que uma rua ia dar na outra, assim, tão próximas.

Depois de mil voltas, viu-lhes em suas casas: senegaleses, congoleses, argelinos, angolanos. Mariana já conseguia identifica-los pelos diferentes tons das peles, traços do rosto, e tipos físicos. Quem sabe não encontraria Aziz ali, já seguro e em casa, tendo tudo sido mera confusão, quase um pesadelos distante? Alimentava a fantasia redentora por um segundo, mas em seguida voltava a seu estado de expurgo. Tudo por causa de um instante que agora lhe parecia muito evitável.

Vinha-lhe uma ideia em forma de desejo: ser assaltada. Andou sem medo, vestido e roupa comprados na Praça Benedito Calixto, coturno da própria loja em que era vendedora. De repente era tarde e, com o metrô fechado, não voltaria para casa – apartamento de um quarto que divida com uma amiga na Santa Cruz.

A ideia de ser assaltada lhe motivava: seria um sinal de seu perdão. Mas ninguém, nem o Deus que ela duvidava que existisse, seria condescendente a esse ponto. Nada lhe fizeram; nenhum craqueiro em seu delírio abstinente, nenhum assaltante em pleno exercício de sua função ou ladrão de ocasião, nenhum deles apareceu para lhe fazer mal.

Onde estaria Aziz naquele exato instante? Por que tipo de pressão e violência haveria passado? Voltaria para o Senegal num porão de navio negreiro? – fantasiava o terror. Ela não sabia o que estava se passando no Senegal para que um homem jovem passasse a viver ali, nos arredores da Praça da República, como o menor dos estranhos estrangeiros.

Por mais que ela andasse, corresse, a culpa não escoaria com o vento. Quando cansou, parou em frente à mesma loja, na Praça da República quase deserta, com a presença de seus habituais moradores, invisíveis durante o dia. Sentou-se no batente baixo da loja sem medo.

Mal o dia amanheceu, lá vinham eles: fortes, novos, reluzentes, com suas mercadorias de eletrônicos, esculturas e panos colorindo o cenário cinza. Um pequeno grupo de africanos chegava para mais um dia de trabalho com pouca recompensa. Mariana virou-se para aquela direção. Os olhos acesos sem descanso faiscavam buscando Aziz entre os homens que se acercavam. Vista suspensa que ali ficaria durante a eternidade que os imigrantes levavam para cruzar a praça. O tempo, essa magnitude cujo significado em português Aziz desconhecia, estendia-se longamente pela passagem de uma rua.

Achou ter visto ele, esperava que se aproximasse para confirmar. Mas esse instante da espera seria mais longo que a noite inteira vagando e não é possível descrever. Mariana esperou e ainda espera, ainda inerte pelo peso inútil de sua culpa.

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