Crítica: A Bruta Flor do Querer poetiza desespero do jovem intelectual frente ao sistema

 

Dida Andrade em cena de A Bruta Flor do Querer - Foto: Divulgação

Dida Andrade em cena de A Bruta Flor do Querer – Foto: Divulgação

Por MIGUEL ARCANJO PRADO

Quase completamente rendida ao sistema, a cidade de São Paulo sabe ser cruel com seus habitantes sonhadores. Quem é jovem e ainda não amaciado pela conformismo pode se assustar, se perder, se rebelar. É difícil ser inteligente diante disso tudo. Este é o tom do filme confessional A Bruta Flor do Querer, de Andradina Azevedo e Dida Andrade.

Repleto de metalinguagem, tão presente em diretores estreantes, este poderia ser mais um longa de cineastas, no caso os próprios Dida e Andradina, que tentam realizar seu filme em meio a um mar de diversidades. Mas a metalinguagem não é um problema em si. Há ótimos filmes do gênero, como o argentino UPA – Una Película Argentina (2007), de Tamae Garateguy, Satiago Giralt e Camila Toker. Afinal, utilizar este recurso pode potencializar a revelação de mais até do que se pretende, como acontece em A Bruta Flor do Querer.

Quem conduz a história é Diego, papel desempenhado com entrega por Dida Andrade. Este, enquanto a carreira de cineasta está estacionada, tenta sobreviver no caos da metrópole em meio a noites, drogas, filmagens de casamento — ao lado do parceiro já resignado vivido por Danilo Grangheia, sempre um ator excelente — e, claro, o amor platônico pela garota do sebo da praça da Sé.

Diego, o cineasta perdido, tem um porto seguro: seu melhor amigo, papel de Andradina, bem mais relaxado que o colega diante do sistema opressor, talvez porque este mesmo lhe garanta subsistência, já que o personagem de Andradina parece estar em melhor situação financeira que seu amigo, o que não o coloca no mesmo buraco do conflito, podendo, assim, amparar Diego nos momentos de maior tensão — inclusive pedindo a um tio que consiga trabalho ao colega. Afinal, a quem precisa pagar as contas no fim do mês o sistema é bem mais impiedoso. E, para sobreviver, é preciso submeter-se.

Dida e Andradina mostram-se diretores de mãos firmes e não abrem mão de levar o filme para o caminho da desesperança que ele precisa ir, mesmo que no final possa haver um sopro de poesia, longe da metrópole, é claro. A fotografia, feita pelos dois, também investe em diferentes matizes para nuançar os sentimentos presentes no longa merecedor dos Kikitos de melhor direção e fotografia no Festival de Gramado.

Dida Andrade e Diana Motta: amor platônico - Foto: Divulgação

Dida Andrade e Diana Motta: amor platônico – Foto: Divulgação

Outro alento é ver um elenco com atuações críveis e sinceras (mesmo que em diálogos muitas vezes desconexos, como o é a vida) num mundo de cinema nacional repleto de atuações forçadas e muitas vezes próximas ao teatro infantil. Além dos dois diretores-atores terem atuações sutis e envolventes, Diana Motta também surge extremamente natural (e linda) na pele do grande amor do cineasta, que ignora (ou não quer ver?) sua aproximação.

Talvez, pelo excesso de sinceridade, há certa dose de machismo reiterada, um ar falocêntrico demais, sobretudo quando os rapazes descem a serra após uma desilusão amorosa em busca de “quengas”, entenda-se aí por garotas que transam sem culpa (como se houvesse as moças puras para casar e as quengas para transar, este é o discurso que o filme parece defender, ingenuamente, sobretudo quando se leva em conta que diz lutar justamente contra um cinema pasteurizado e repleto de preconceitos). Repetir um discurso preconceituoso do sistema num longa que se pretende transgredi-lo é a grande escorregada do roteiro.

Dida Andrade, Danielle Rosa e Sue Nhamandú: elas trazem liberdade feminina ao longa - Foto: Divulgação

Dida Andrade, Danielle Rosa e Sue Nhamandú: elas trazem liberdade feminina ao longa – Foto: Divulgação

Mas é tal machismo que só faz brilhar ainda mais as atrizes Danielle Rosa e Sue Nhamandú, como as duas garotas da praia que acolhem os rapazes expulsos da cidade com leveza e liberdade. Suas aparições, tão femininas e intensas naquele eterno narrar partindo de um ponto de vista masculino heterossexual, são um alento, um sopro de beleza e esperança.

A Bruta Flor do Querer conquista quem embarca na história que propõe justamente por ser um filme sincero. E a verdade, por mais que a enfrentemos, é bonita e tocante de se ver. Para completar há a trilha sonora (uma música idealizada do tempo em que queríamos ter nascido?), na qual figuram com destaque as versões de Gal Costa e dos Mutantes para Baby, de Caetano Veloso, e 20 Anos Blues, composição de Sueli Costa e Vitor Martins na voz inesquecível de Elis Regina. Esta última é como se fosse a alma do filme, com seu artista de 20 e poucos anos sendo trucidado pelo mundo cão ao seu redor e tentando sobreviver com mais de mil perguntas sem respostas.

“A Bruta Flor do Querer” * * * *
Avaliação: Muito bom

Andradina Azevedo e Dida Andrade, os diretores mostram mão firme em A Bruta Flor do Querer - Foto: Divulgação

Andradina Azevedo e Dida Andrade, os diretores mostram mão firme em A Bruta Flor do Querer – Foto: Divulgação

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1 Resultado

  1. Phillipe disse:

    Parece ser bom, só não acho interessante e nem agradável a parte das drogas. Deveriam fazer um filme sobre gente de cinema sem mostrar cena de droga. Droga não é “cool”; ao contrário, é algo a ser combatido e é um sério problema social. Lamentavelmente, as políticas públicas atuais têm falhado miseravelmente no enfrentamento ao problema. Acho que falta uma postura mais arrojada, com bastante repressão. Na minha opinião, o Estado deveria ser mais combativo, com políticas públicas de alta voltagem, com punições extremamente severas.

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