Entrevista de Quinta: “No teatro sou visceral, vulnerável e empoderado”, diz Stéfano Belo

O artista Stéfano Belo - Foto: Amali Mussi

O artista Stéfano Belo – Foto: Amali Mussi

Por MIGUEL ARCANJO PRADO

Stéfano Belo nunca foi de ter amarras. Talvez, por isso, gosta de se definir como um artista cigano. Nascido em São Luís do Maranhão, ele foi criado entre Salvador e Feira de Santana, na Bahia. Contudo, foi em Curitiba que o Brasil conheceu o artista potente que ele é. Ele faz parte de uma geração de jovens artistas dos palcos que sacudiu o teatro curitibano e, por consequência, o brasileiro, com muita verdade, deboche, falta de pudor e intensidade.

Vivendo na capital paranaense há seis anos, Stéfano decidiu retornar à Bahia, para alçar novos voos, desta vez no mundo acadêmico. Seu atual sonho é fazer mestrado em Cultura e Sociedade na UFBA (Universidade Federal da Bahia), onde está um dos melhores cursos da área do país.

Graduado pela Faculdade de Artes do Paraná, ele foi um dos fundadores em 2012 da Casa Selvática, em Curitiba, point efervescente do novo teatro que é feito na cidade que também sedia o mais importante festival teatral do Brasil, onde Stéfano despontou para ser conhecido nacionalmente.

O artista, que gosta de bagunçar as fronteiras de linguagens como performance, dança, teatro e música, fala sobre seu atual momento nesta Entrevista de Quinta. Antes de o papo começar, revela que anda chorado muito por conta desta despedida momentânea dos amigos curitibanos. Mas sabe que seu lugar é onde sua arte mandar: “Sou dos deslocamentos, definitivamente em um lugar acho que nunca ficarei. Peguei gosto por estar em trânsito”.

Leia com toda a calma do mundo.

Stéfano Belo na peça Pinheiros e Precipícios, no Festival de Teatro de Curitiba 2016 - Foto: Humberto Araújo

Stéfano Belo na peça Pinheiros e Precipícios, no Festival de Teatro de Curitiba 2016 – Foto: Humberto Araújo

MIGUEL ARCANJO PRADO — Por que você vai deixar Curitiba e voltar para a Bahia? 
STÉFANO BELO — Não vou deixar Curitiba! Nunca!  Como escreveu Wilson Bueno: “O vício de partir é de Curitiba, é de Curitiba o vício de partir” e eu estou apenas ouvindo  esses sussurros e seguindo o momento. Há algum tempo sinto a necessidade desse retorno à minha terra, à cultura daquele lugar, à minha identidade nordestina, às minhas raízes e família; volto agora para me dedicar a um sonho  antigo de fazer mestrado em Salvador e olhar com um olhar mais cuidadoso para a cultura baiana.

MIGUEL ARCANJO PRADO — Está sofrendo muito com essa despedida?
STÉFANO BELO — estou sofrendo bastante com a despedida, sim! Toda a minha história e trajetória artística até agora em Curitiba se cruzam com pessoas muito especiais, artistas que considero geniais e que já estão mudando a forma como o Brasil percebe o teatro e as artes cênicas. Não existe no Brasil uma experiência cultural como a Casa Selvática e o que aqueles artistas produzem juntos! Me distanciar disso e de tantos outros artistas e amigos, que são praticamente lendas vivas do teatro e da arte brasileira, mesmo que temporariamente, dói muito!

Stéfano Belo e Ricardo Nolasco em Medéia, de 2013 - Foto: Paulo Scarpa

Stéfano Belo e Ricardo Nolasco em Medéia, de 2013 – Foto: Paulo Scarpa

MIGUEL ARCANJO PRADO — Por que você foi morar em Curitiba? Como foi a chegada na cidade?
STÉFANO BELO — Vim para Curitiba pela primeira vez aos 16 anos para cursar o ensino médio aqui, mas acho que foi tudo desculpa para poder sair de casa e fazer teatro mesmo! Quando cheguei aqui tive um misto de deslumbramento com a cidade, tão diferente da cidade sertaneja onde morava anteriormente, e medo- medo do frio, da solidão, da saudade, das pessoas tão brancas e sérias daqui. O que me manteve aqui foi o teatro, as aulas no primeiro espaço dos Satyros com pessoas tão especiais quanto a atriz, diretora, iluminadora e professora Ana Fabrício e da saudosa e querida Silvanah Santos. Matava as aulas da escola pra passar a tarde lá comendo brigadeiro com a Gisa Guttervil e percebendo o mundo do teatro – me encantando com essas figuras e absorvendo todo aprendizado que podia! Foi aí que me apaixonei por essa arte!

MIGUEL ARCANJO PRADO — Foi difícil se adaptar a Curitiba? Quais foram seus primeiros amigos na cidade?
STÉFANO BELO — Não, tanto que eu voltei para Curitiba em 2010 para tentar o vestibular de Artes Cênicas na Faculdade de Artes do Paraná, passei e em 2011 quando entrei ali conheci duas das pessoas que me fariam mudar radicalmente a forma como enxergo o teatro, Ricardo Nolasco e Danielle Campos, a sumida e amada Dani Passarinho. Me apaixonei por eles e juntos marcamos a história da nossa faculdade, com certeza, pois o que fizemos ali sempre esteve num lugar de muita importância para a pesquisa acadêmica em artes cênicas, pois éramos o erro, a divergência, o contraponto, a fuga dos cânones e padrões normativos que buscam engessar o teatro e jogá-lo numa maré de caretice, bom mocismo e ineficiência política –  principalmente em Curitiba, onde tudo é tão bem acabadinho, higiênico e cristalino. Isso influenciou uma geração de artistas que passaram por aquela instituição e consequentemente a produção teatral da cidade de Curitiba –  um movimento importantíssimo de pensamento vanguardista que já vinha sendo feito ali por grandiosos nomes antes de nós – como Leonarda Glück, Giorgia Conceição e Henrique Saidel da Companhia Silenciosa; Límerson Morales; Darlei Fernandes; O Grupo de Investigação Cênica Heliogábalus e muitos outros.

Ricardo Nolasco, Leonarda Glück e Stéfano Belo no largo da Ordem, durante o Festival de Curitiba de 2015 - Foto: Annelize Tozetto

Ricardo Nolasco, Leonarda Glück e Stéfano Belo no largo da Ordem, durante o Festival de Curitiba de 2015 – Foto: Annelize Tozetto

MIGUEL ARCANJO PRADO — Qual foi o pior e o melhor momento que você passou em Curitiba?
STÉFANO BELO — O pior momento com certeza foi quando fui vítima dos caretas dessa cidade que me gravaram dançando e barbarizando no carnaval de Curitiba  e viralizaram na internet através de páginas do Facebook veiculando minha imagem de forma gordofóbica, homofóbica, xenofóbica e fascista. Apenas um reflexo da República de Curitiba que mata mendigo, travesti, puta e negro – massacra uma multidão de professores e ainda se acha a cidade modelo do Brasil, ainda fala que aqui a lei está sendo cumprida e que o nosso futuro será brilhante! Mentira! Curitiba vive de fachadas que por dentro estão tão sujas e caindo aos pedaços como os seus políticos. Os melhores momentos com certeza foram os momentos que passei produzindo arte dentro e fora da Casa Selvática, resistindo debaixo de opressão todos os dias e sendo livres na arte, no corpos e na mentes! Saravá!!!

MIGUEL ARCANJO PRADO — Você vai para a Bahia definitivamente ou pode voltar novamente a Curitiba?
STÉFANO BELO — Voltarei sempre! Esse tempo que passarei fora não é uma interrupção do que construí aqui, nem dos meus trabalhos com a Selvática. É uma extensão de tudo, acredito que o tipo de arte que produzimos precisa se expandir mais ainda pelo Brasil e mal vejo a hora de estar com os selváticos em circulação pelo Nordeste mais uma vez. Sou dos deslocamentos, definitivamente em um lugar acho que nunca ficarei. Peguei gosto por estar em trânsito.

Stéfano Belo na peça Pinheiros e Precipícios - Foto: Mariama Lopes

Stéfano Belo na peça Pinheiros e Precipícios – Foto: Mariama Lopes

MIGUEL ARCANJO PRADO — Explica pra gente a diferença de O Estábulo de Luxo e a Casa Selvática.
STÉFANO BELO — A Casa Selvática é um ninho, um lugar de acolhimento – por ali passam diversos artistas todos os dias num lugar poroso de convívio artístico. Uma fábrica de ideias, um ambiente de linguagens artísticas múltiplas e produção de pensamento constante, é também um cabaré em tempos de crise e por isso mais e mais forte a cada dia. Esse espaço é gerido atualmente por 15 artistas que, através da movimentação que causam nessa casa fazem com que ela resista e sobreviva a cada mês. O Estábulo de Luxo é um grupo de artes da cena que foi fundado por Ricardo Nolasco e Danielle Campos em 2011 que em sua pesquisa se encontra com temáticas como a linguagem do cabaré, as intervenções urbanas e a performatividade e encontra sede na Casa Selvática para continuidade de suas pesquisas – o Estábulo procura agregar sempre diferentes artistas em seus processos e por ele muitos e importantes nomes do teatro paranaense passam ou já passaram –  como Leonarda Glück, Patricia Cipriano, Patricia Saravy, Claudete Pereira Jorge, Gabriel Machado, Simone Magalhães, Jo Mistinguett, Danielle Campos, Amira Massabki, vixe é taaaaaaaaanta gente!

Stéfano Belo ao lado de Simone Magalhães na peça Iracema 236 ml, que percorreu o Brasil - Foto: Cabéra

Stéfano Belo ao lado de Simone Magalhães na peça Iracema 236 ml, que percorreu o Brasil – Foto: Cabéra

MIGUEL ARCANJO PRADO — Qual foi o momento mais forte artisticamente para você nestes seis últimos anos?
STÉFANO BELO — Além da experiência de gestão e produção artística na Casa Selvática, vivi muitos momentos de grande importância para a minha carreira nesses últimos seis anos, circulando por vários lugares do Brasil fazendo teatro mambembe com o Estábulo de Luxo e sob a direção da Leonarda em Iracema 236ml – O Retorno da Grande Nação Tabajara. Ir a Portugal para apresentar o Cabaré Glicose com o Elenco de Ouro e o amigo Cleber Braga também foi um marco, fazer um cabaré descolonialista nas terras dos nossos invasores e compartilhar com eles não o Brasil que se intimida, mas sim o que retorna e debocha na cara deles! Foi incrível! Nesses últimos anos realizei sonhos com essas pessoas através da arte. Produzimos mudanças. Conheci e trabalhei com pessoas que já admirava antes de pensar em fazer teatro como a mais fenomenal atriz, diretora e dramaturga que conheci ,Leonarda Glück, que hoje posso chamar de irmã.

MIGUEL ARCANJO PRADO — Qual é o teatro que lhe interessa? Quem são suas referências?
STÉFANO BELO — Me interessa o teatro que vá produzir mudança real na cara de quem tá assistindo. Experiências verdadeiras e que fujam do bom-meninismo – qualquer teatro que não se conforme com a podridão do pré-estabelecido e normativo já me chama a atenção. Minhas referências são Artaud, Maria Alice Vergueiro, Bibi Ferreira, O Bando Teatro Olodum, Leonarda Glück, Ricardo Nolasco, Danielle Campos, Nina Simone e as divas negras da música, Tom Zé, Nação Zumbi, Maria Bethânia, Simone Magalhães, Dercy Gonçalves, Nair Bello , o teatro de revista e as vanguardas modernistas.

Stéfano Belo no Cabaré Voltei, na Casa Selvática, em Curitiba, em 2016 - Foto: Pedro Doinel

Stéfano Belo no Cabaré Voltei, na Casa Selvática, em Curitiba, em 2016 – Foto: Pedro Doinel

MIGUEL ARCANJO PRADO — Você tem vontade de fazer cinema e televisão?
STÉFANO BELO — Sim, muita! Mas apenas se for para fazer papéis que não reforcem estereótipos ofensivos como sempre fazem na televisão e em diversas produções do audiovisual – principalmente no caso de pessoas gordas, suburbanas e bichas! Não estamos aí para sermos ridicularizados, a produção cultural brasileira não precisa desse desserviço e eu não farei parte disso. Se tiverem papéis que empoderem essas personagens e sejam inteligentes e interessantes eu os aceitarei e apenas assim.

MIGUEL ARCANJO PRADO — Vi que você quer agora mergulhar novamente nos estudos. A vida acadêmica também lhe atrai?
STÉFANO BELO — Sim, me atrai a vida acadêmica principalmente no sentido de pesquisar produções culturais que se ancorem no conceito de diferença ali dentro. Só loucos na academia conseguirão legitimar a sua loucura nesse ambiente e por isso quero adentrar esse território e ecoar ali também a minha voz.

Stéfano Belo no Memorial de Curitiba em 2013, quando apresentou "Wunderbar" no Festival de Curitiba - Foto: Daniel Isolani

Stéfano Belo no Memorial de Curitiba em 2013, quando apresentou “Wunderbar” no Festival de Curitiba – Foto: Daniel Isolani

MIGUEL ARCANJO PRADO — Jamais vou me esquecer de você se chicoteando na peça “Wunderbar”, sob direção do Ricardo Nolasco, para mim uma das cenas mais impactantes já vistas no Festival de Teatro de Curitiba. Você gosta de ser visceral no palco? Por quê?
STÉFANO BELO — Estar em cena já é algo visceral. Enquanto fazia essa cena falava um texto da Susan Sontag que fala justamente da entrega que há no sadomasoquismo. O teatro é essa entrega, é expor ali as vísceras e a alma para quem quiser estar presente com você nesse momento. É um momento de total vulnerabilidade, mas também de empoderamento – não se pode estar em cena sem estar com o corpo totalmente entregue a ela, isso é víscera, isso é peste, isso é teatro. É virulento.

Stéfano Belo performa ao lado das atrizes Liza Caetano e Lauanda Varone na peça Hermanas Son las Tetas, de Juan Manuel Tellategui, no Festival de Teatro de Curitiba de 2016 - Foto: Annelize Tozetto

Stéfano Belo performa ao lado das atrizes Liza Caetano e Lauanda Varone na peça Hermanas Son las Tetas, de Juan Manuel Tellategui, no Festival de Teatro de Curitiba de 2016 – Foto: Annelize Tozetto

MIGUEL ARCANJO PRADO — Falando ainda do Festival de Curitiba, outra imagem sua que me marcou foi sua performance na peça “Hermanas Son las Tetas”, do Juan Manuel Tellategui, na qual você era de uma energia intensa como poucas vezes vi. De onde vem tanta força no palco?
STÉFANO BELO — A minha força no palco vem justamente desse exercício da liberdade do  meu corpo e da minha subjetividade. O corpo que está em cena é o meu: sou gordo, nordestino, desviante das normas de gênero, afeminado, dançante, rebolativo, desbundado e a experiência de estar presente diante de um corpo como esse em cena por si só já é uma experiência forte para muitas pessoas, principalmente numa sociedade tão padronizadora de corpos como a nossa. Levar corpos desviantes para a cena é também expor suas tragédias, e isso é poderoso. Mas você sabe que da tragédia pra comédia é apenas um passo né? [risos]

MIGUEL ARCANJO PRADO — Outro momento marcante seu que não me esqueço foi quando a Polícia Militar do Paraná queria prender os atores do ERRO Grupo que faziam uma performance que tinha nudez na rua XV de Novembro, e você estava entre os artistas que protestavam. Lembro-me de você puxando o coro: “Polícia para quem precisa, polícia para quem precisa de polícia”. Você sempre se considera um ser político a favor da liberdade?
STÉFANO BELO — Isso que aconteceu aquela vez foi inadmissível! Polícia nenhuma pode prender artistas em exercício da sua profissão, isso é censura! Polícia para quem precisa de polícia! Vá prender o governador que é corrupto e não paga os professores, vá prender o presidente golpista, o ladrão da merenda, o assassino homofóbico e transfóbico e não os artistas e seus corpos livres na rua. Polícia para reprimir copos livres? Imagina! O corpo é uma festa!

Stéfano Belo dá entrevista a Miguel Arcanjo em 2013 no terraço do Memorial de Curitiba, ao lado, o diretor Ricardo Nolasco, na época da peça "Wunderbar" no Festival de Curitiba - Foto: Daniel Isolani

Sob uma garoa, Stéfano Belo concede entrevista a Miguel Arcanjo Prado em 2013 no terraço do Memorial de Curitiba, ao lado, o diretor Ricardo Nolasco, na época eles estavam com a peça “Wunderbar” como um dos destaques no Fringe do Festival de Teatro de Curitiba – Foto: Daniel Isolani

MIGUEL ARCANJO PRADO — Como você se imagina daqui a 20 anos?
STÉFANO BELO — Ciborguizado e feliz.

MIGUEL ARCANJO PRADO — Do que você mais tem medo?
STÉFANO BELO —  Do embotamento e da apatia humana.

Stéfano Belo com os companheiros de Casa Selvática em 2016 - Foto: Mariama Lopes

Ricardo Nolasco, Melina Mulazani, Stéfano Belo, Patrícia Cipriano (agachada), Leonarda Glück, Luciano Faccini e Jo Mistinguett, após releitura performática de Selvática, de Karina Buhr – Foto: Mariama Lopes

MIGUEL ARCANJO PRADO — Como você enxerga o Brasil atual?
STÉFANO BELO — Duas citações: “O Brasil é uma República Federativa cheia de árvores e gente dizendo adeus. “O Brazil não merece o Brasil. O Brazil tá matando o Brasil.”  Oswald de Andrade e Aldir Blanc, respectivamente.

MIGUEL ARCANJO PRADO — Por que você faz teatro?
STÉFANO BELO — Para me encontrar com as pessoas e fazer magia na frente delas, magias transformadoras.

Stéfano Belo: um artista maranhense criado na Bahia e que marca a história do teatro paranaense - Foto: Divulgação

Stéfano Belo: um artista maranhense criado na Bahia e que marca a história do teatro paranaense e brasileiro – Foto: Mariama Lopes

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