Entrevista de Quinta: “Minha fotografia é política”, diz Diego Moreira

O fotógrafo Diego Moreira em pose tripla

O fotógrafo Diego Moreira

Por MIGUEL ARCANJO PRADO

Aos 27 anos, Diego Moreira vem se destacando como fotógrafo na cena cultural mineira. Graduado em Comunicação pelo UniBH, ele trabalha como publicitário e fotógrafo “sete dias por semana”, como enfatiza.

Vivendo boa fase na carreira, no último domingo (10), quando aconteceu a Virada Cultural de BH, passou por um enorme dissabor: teve seu equipamento fotográfico furtado de seu carro, estacionado no centro da capital mineira.

Mesmo assim, não perdeu de todo a esperança no outro. Tanto que faz um financiamento coletivo para poder comprar novo equipamento e seguir por aí fotografando o mundo do jeito que mais gosta: com liberdade e afeto.

Nesta Entrevista de Quinta, ele fala sobre sua grande paixão, a fotografia, e o projeto We’re the Same, com o qual valoriza o amor e a diversidade. Leia com toda a calma do mundo.

Projeto We're the Same, de Diego Moreira, surgiu para mostrar o amor e o afeto - Foto: Diego Moreira

O casal Drake e Mike: projeto We’re the Same, de Diego Moreira, surgiu para mostrar o amor e o afeto – Foto: Diego Moreira Fotografia

MIGUEL ARCANJO PRADO – Como surgiu o projeto We’re the Same?
DIEGO MOREIRA – O insight aconteceu em uma visita a casa de um amigo recém-casado com outro moço. Durante todo o tempo eu só conseguia pensar como era comum e bonito ver uma relação homoafetiva nascendo em cada cantinho e gesto dentro daquele apartamento. Distante das idealizações esquizofrênicas que tanta gente faz, em uma normalidade quase banal. Eu precisava contar aquilo de alguma maneira. O nome veio logo depois, seguido pela logo, desenhada pelo Hugo Carvalho, um amigo designer de BH. Algumas histórias eu já conhecia e resolvi chamar as pessoas para transformá-las em algo visual. Outras foram chegando devagar, de forma espontânea. As pessoas começaram a se voluntariar e hoje eu já conto com uma equipe esporádica para fazer casamentos e outras demandas maiores que vem acontecendo. Mas tudo desde o começo foi feito sem pretensão. Talvez por isso tenha chegado tão longe.

Cristal Lopez em ensaio do We're the Same - Foto: Diego Moreira Fotografia

Cristal Lopez em ensaio do We’re the Same – Foto: Diego Moreira Fotografia

MIGUEL ARCANJO PRADO – Qual o ensaio mais difícil de fazer? E o mais fácil?
DIEGO MOREIRA – De todos fazer as drags foi o mais desafiador. Existem milhões de detalhes relacionados a cabelo, luz, maquiagem, figurino e outros pormenores da arte que elas produzem. E eu queria muito não quebrar em nada a magia que existe em torno desse trabalho. Mas nos dois que realizei, tive muita ajuda de todos os envolvidos. Tanto na produção, quanto na edição que também é complexa. O mais tranquilo até hoje foi o da Cristal Lopez. Talvez porque eu estivesse e ainda permaneça encantado por ela. A força dessa mulher é tanta, que eu caminhei com ela durante uma tarde me sentindo altamente confiante. A forma com que ela lida com os olhares e o mundo a sua volta é forte e inspiradora. Acho que tudo também fluiu pela disponibilidade dela em se entregar ao ensaio e o misto de admiração e carinho que eu sentia em ver alguém com tanto orgulho de ser quem é. Alguém que conseguia personificar o que o projeto sempre tenta falar. Eu acompanhei Cristal por muito tempo antes de fazer o convite, mas acho que aconteceu na hora certa.

MIGUEL ARCANJO PRADO –  A sua fotografia é política? Por quê?
DIEGO MOREIRA –  Difícil definir se algo é político. Mas acreditando no preceito que define toda ação que modifica (ou incomoda) o meio um ato político, acredito que sim. Minha fotografia é política. Principalmente pelo fato de ela trazer uma roupagem mais senso comum. Sendo assim, ela é acessível para qualquer indivíduo. Meu trabalho é feito no meio LGBT, mas tem a intenção de atingir quem não está ali também. São essas pessoas que precisam de informação. A gente ignora, julga e idealiza o que não conhece. Esse é o grande problema com o qual precisamos lidar todos os dias.

Casal posa para o We're the Same - Foto: Diego Moreira Fotografia

Casal Paul e Rafa posa para o We’re the Same – Foto: Diego Moreira Fotografia

MIGUEL ARCANJO PRADO – Quais são suas referências na fotografia?
DIEGO MOREIRA –  É bem estranho, mas tenho mais referências em outras áreas que na própria fotografia. Dentre os poucos que gosto estão Bob Wolfenson, Sebastião Salgado, Giovanni Bianco e o paulista Diego Ciarlariello. Os cliques despretensiosos da Ligia Fascioni são outros que eu admiro bastante. Observo muito os trabalhos que exploram outras vertentes, como o cinema.  Petra Costa, Leandra Leal, Selton Mello, Jonas Arkelund e Sofia Copolla são outros exemplos de quem me influencia. Acho que vídeo é foto em movimento e dali a gente também tira uma experiência e uma bagagem que não se encontra em nenhum outro lugar.

A família do casal Toni Reis e David Harrad, juntos há 26 anos, em Curitiba - Foto: Diego Moreira Fotografia

A família do casal Toni Reis e David Harrad, juntos há 26 anos, em Curitiba – Foto: Diego Moreira Fotografia

MIGUEL ARCANJO PRADO – Quando e por que você decidiu virar fotógrafo?
DIEGO MOREIRA – A fotografia surgiu naturalmente lá em meados do ensino médio. Uma amiga comprou uma câmera compacta e comecei a usá-la para fazer nossos trabalhos de artes. Dirigia pequenos curtas e ensaios de baixa produção nos horários vagos com direito a roteiro e trilha sonora. Logo depois veio a minha primeira, uma Sony bem baratinha, que eu usei para fazer meus primeiros shows e ensaios. A qualidade era ruim, mas a intenção das melhores. Só fui ter acesso a minha semiprofissional quase no meio da minha graduação de Publicidade, quando comecei os primeiros estágios remunerados. Uma outra amiga me emprestou a dela muitas vezes para eu arriscar uns freelas, mas foi depois de estagiar em um estúdio fazendo casamentos que decidi a importância daquilo na minha vida. Já fiz desfile no Minas Trend Preview, passando book sensual e show da Maria Bethânia. Gosto é de registrar!  Mas confesso sem medo de ser feliz que fazer show é um dos meus jobs favoritos depois do projeto. A forma como as emoções surgem ali, sem ensaio ou programação me emocionam profundamente. Tenho registros de algumas apresentações que eu não trocaria por nada nesse mundo.

A cantora Maria Bethânia posa para Diego Moreira - Foto: Diego Moreira Fotografia

A cantora Maria Bethânia em pose registrada por Diego Moreira – Foto: Diego Moreira Fotografia

MIGUEL ARCANJO PRADO – Você tem formação em fotografia ou é autodidata?
DIEGO MOREIRA –  Nunca me profissionalizei. Aprendi observando outras pessoas e praticando muito! Encontrei bons tutores na escola da vida. Ainda me acho um grande aprendiz para dizer bem a verdade. Leio bastante e ainda quero fazer alguns cursos para aparar umas arestas que o caminho autodidata deixou para trás. As aulas na faculdade fizeram pouca ou quase nenhuma diferença by the way.

MIGUEL ARCANJO PRADO – Quando você começou a se interessar por fotografia?
DIEGO MOREIRA – Eu sempre fui cinéfilo e fã de videoclipes, encartes de CD, photoshoots de revista teen e bastidores de toda e qualquer produção audiovisual. Amo ver como as coisas são em sua forma “crua”. Minha ânsia em reproduzir tudo aquilo a minha maneira e viabilizar as ideias que estão sempre sobrando na cabeça, encontraram na fotografia o instrumento necessário para isso. Acho que as imagens que eu faço no projeto e fora dele traduzem muito a maneira como eu vejo as coisas. Aliás, acho que é isso, a fotografia é o único jeito de revelar a forma como todos nós enxergamos o mundo e as outras pessoas.

Conheça o projeto We’re the Same

Colabore com o financiamento coletivo para Diego Moreira comprar equipamento fotográfico após o roubo

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