George Michael e Carrie Fischer tinham muito em comum

Carrie Fisher e George Michael: muito em comum – Fotos: Divulgação

Por ÁTILA MORENO
Colaboração especial, do Rio

Responda rápido: o que o músico George Michael e a atriz Carrie Fisher têm em comum ao longo da carreira? Por incrível que pareça, a trajetória desses dois artistas indica algo tão semelhante do que muita gente pode imaginar.

Os dois astros, que morreram nesta semana, refletem como o show business joga grandes nomes para fora de órbita quando a idade avança e a sexualidade, a estética e o comportamento não traçam a rota projetada pelo mercado do entretenimento.

Cada um deles bebeu na fonte da construção simbólica do que se chama de novos olimpianos, ou seja, esses seres mitológicos construídos simbolicamente pelos meios de comunicação, conforme aponta o estudioso Edgar Morin.

Grosso modo, os novos olimpianos se tornam modelos da cultura, vivendo entre o imaginário e o real e tentam refletir um ideal de felicidade no espelho da sociedade.

Pois bem, é exatamente aí que temos o cadafalso.

Carrie Fisher em “Star Wars” – Foto: Divulgação

Fama, drogas e ostracismo

É interessante notar como Carrie Fisher seguiu um pouco os passos da mãe, Debbie Reynolds, falecida um dia após a morte da filha. Debbie fez parte do time de artistas da época de ouro de Hollywood, imortalizada em “Cantando na Chuva”, de 1952.

Ambas conquistaram corações em um único personagem marcante na história do cinema. Mas Carrie ficou mais popular, porque configurou um ícone atemporal da cultura pop entre os jovens: a princesa Leia da saga “Star Wars”.

“Star Wars” trabalha bem esse arquétipo da princesa de uma forma peculiar. E olha: estamos falando do final dos anos 1970.

Se a gente parar para pensar como a postura da princesa Leia é tão feminista para a época, hein? Temos uma personagem que trava não só lutas corporais mas também a constante objetificação sexual na trama. É notória a cena em que ela, acorrentada, mata seu algoz Jaba, em “Star Wars – o Retorno dos Jedi”.

Além do mais, Leia quase inaugura um suave triângulo amoroso em blockbuster: o afeto pelo seu irmão gêmeo Luke Skywalker e a paixão por Han Solo.

Já a atriz sempre foi uma mulher destemida, dava uns pegas no Harrison Ford nos bastidores, nunca teve papas na língua, assumia publicamente seus problemas com as drogas (inclusive uma overdose) e tinha um humor ácido ímpar.

Realmente, estava anos-luz de ser a namoradinha dos EUA que a indústria cultural desejava. Em pouco tempo, a estrela caiu no ostracismo. Similar à mãe, Carrie não conseguiu se despontar em outros filmes e sempre foi lembrada por esse único personagem.

Aliás, com o passar dos anos, nota-se que, à medida que envelhecia, aparentemente, Carrie mostrou fugir dos bisturis das salas de cirurgias. E atriz velha em Hollywood é peça figurativa de filme. Salvam-se raríssimas exceções.

George Michael: sex simbol da música pop – Foto: Divulgação

Símbolo sexual, guerra e homossexualidade

A imagem teve também o mesmo peso para George Michael: símbolo sexual dos anos 80. Como Carrie, George travava uma batalha contra as drogas e, ao atingir uma certa idade, começou a rebelar-se contra a representação de músico sexy de décadas passadas.

Ele chegou a travar uma guerra novelesca contra a própria gravadora, a Sony, que queria seguir com aquela imagem do passado e por questões de contrato.

Há de se lembrar que George foi ídolo teen pré-fabricado na dupla Wham!, galgou-se como símbolo sexual machão, fez uma estrondosa carreira solo e, no decorrer disso tudo, se assumiu gay.

Mas parece que toda essa conquista por liberdade teve um preço. Coincidentemente, George Michael teve a carreira empurrada ladeira abaixo quando foi pego numa armadilha fazendo pegação num banheiro público com um policial disfarçado.

Mesmo assim não se deu por vencido. Que artista hoje teria a audácia (e estamos falando lá dos anos 1990) de responder com um clipe “lacrador” como o “Outside”? Qualquer outro teria, provavelmente, se escondido.

Dá para perceber que os olimpianos desceram à terra quando suas vidas privadas estavam aquém do que era projetado para o público. Interessante notar que Carrie e George sempre estiveram no mesmo panteão, apesar de nunca terem se cruzado artisticamente.

Carrie Fisher não seguiu o padrão da atriz alçada à garotinha fetiche de nerds dos EUA. Envelheceu. George recusou, em um determinado momento, continuar como hétero pegador e símbolo sexual gay. Envelheceu.

Há realmente um espaço para artistas em que o comportamento sexual e o físico escolhem seguir outra órbita?

*Mineiro radicado no Rio, ÁTILA MORENO é jornalista formado pelo UNI-BH e tem pós-graduação em Produção e Crítica Cultural pela PUC Minas.

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1 Resultado

  1. Phillipe disse:

    Embora não concorde com exatamente tudo com o que está escrito, parabenizo Átila por esse “Post” contundente, corajoso e necessário sobre a discriminação etária em Hollywood. Contudo, discordo de que eles perderam espaço apenas porque se rebelaram contra padrões. É preciso falar sobre o peso das drogas na carreira e na vida das pessoas. Porque até quem está de acordo com os padrões hollywoodianos vê a carreira declinar se submergir por conta da drogadição.

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